Estar sob a mira de um atirador de elite é, talvez, uma das situações mais assustadoras em um campo de batalha. Essa exposição significa morte certa, pois, a qualquer momento, a pessoa pode ter a cabeça transpassada por um projétil de alta precisão, a não ser que o atirador queira deixar seu alvo ainda mais perdido diante da ameaça invisível. Esse cenário é apresentado no filme “Seven Snipers” (no português brasileiro, “Sete Atiradores”), no qual os atiradores de elite não agem de maneira autônoma e precavida frente ao potencial elevado da ameaça à espreita, mas seguem um roteiro escrito por Andrew O’Keefe, semelhante a um alvo tomado por furos.
A diretora Sandra Sciberras começa seu longa-metragem com uma tomada aérea, na qual se vê, em plano aberto, toda a área de campos verdejantes por onde a personagem principal, Kris Hendricks (Radha Mitchell), pratica sua corrida matinal pela estrada que corta o terreno coberto por grama. Quando a câmera se aproxima por trás, é possível notar, pelo corpo atlético e pela postura alinhada, uma característica adquirida durante sua carreira de sniper das Forças Armadas. Kris é uma ex-atiradora de elite conhecida pelo codinome Voodoo Child. Durante a corrida, ela avista uma SUV grande se aproximando de sua extensa propriedade rural, localizada em algum lugar do interior da Austrália.

Já em sua casa, de sua sacada, com um binóculo na mão, Kris orienta sua filha Anja (Annabel Wolfe) a empunhar o arco e flecha em um treinamento que consiste em seguir alguns princípios técnicos ensinados pela mãe para acertar o centro do menor círculo localizado no alvo a alguns bons metros de distância. O diálogo entre mãe e filha não é nada amistoso devido à cobrança para que se concentre no disparo da flecha e siga os detalhes que fazem do lançamento um sucesso. Mesmo com as flechas bem próximas ao objetivo principal, a crítica da mãe não é bem aceita pela filha, pois, assim que avista o namorado Michael (Lee Tiger Halley) se aproximando, ela joga o arco ao chão e vai ao encontro do rapaz.
Anja e seu simpático namorado são alertados pela mãe de que estão atrasados para a escola e que, no dia seguinte, ela preparará algo especial para comemorar o aniversário de 16 anos da filha. Anja monta em sua motocicleta e, com o namorado na garupa, parte para um destino que em nada tem a ver com estudar, mas sim, com passar o dia acampada em uma barraca sem o conhecimento da mãe. Ao observá-los se distanciar, ela acaba avistando um veículo estranho que vira enquanto caminhava. Sempre desconfiada de qualquer visita inesperada, ela se arma e segue acelerando ao máximo a sua máquina pá-carregadeira até frear bruscamente bem próximo ao homem.
O que antes estava sob controle, agora parece caminhar para um clima de tensão que prevalecerá ao longo da narrativa. Kris se depara com um homem que, estranhamente, diz querer comprar sua propriedade. Ao perceber que se trata de uma ameaça, ela recusa a proposta, expulsa o homem de suas terras e vai até o armário para pegar o rifle de precisão com mira telescópica e atirar na roda do carro, fazendo-o capotar. Assim que ela atira, começa o primeiro confronto: ao sair do carro, o suposto corretor de imóveis Peter Phillips (Ryan Kwanten) saca o fuzil também equipado com luneta para tiro de precisão e o apoia sobre o capô. Entretanto, ela o surpreende com um disparo, mas erra por pouco.
Ele revida, mas sem sucesso. Então inicia-se um fogo cruzado entre eles, do qual ela sai viva; ao contrário dele, que é abatido à queima-roupa, sem nenhum receio, após desejar vida longa a “The Dragon” (Tim Roth). Conforme seu pressentimento previa, a desconfiança dá lugar à certeza assim que ela ouve o temido codinome “The Dragon” sair da boca do invasor abatido, como um sinal de reverência. Seu pior fantasma do passado está a caminho de sua casa para acertar as contas deixadas em tempos sombrios, quando “The Dragon” era um senhor da guerra.
A partir desse momento, Kris Hendricks assume de vez seu nome de guerra, Voodoo Child, e convoca seu exército de sete atiradores, como sugere o título do filme, “Seven Snipers” (ou “Sete Atiradores”). Seu ponto de contato para reunir e trazer essa turma é um velho amigo, White Dog (Damien Ryan). Inicialmente, seriam chamados nove homens, mas dois deles já estão fora de combate, restando os sete ex-soldados, entre eles uma italiana ex-KFOR chamada Kaldayev (Bianca Wallace) e seu filho, Junior (Charles Cottier), que sequer matou um ser vivo.
Os outros camaradas são Milk (Ioan Gruffudd), um velho conhecido da antiga unidade, e Nico (Pacharo Mzembe), o único que, na apresentação de Voodoo Child, se revolta ao saber que terá de enfrentar “The Dragon” para proteger a vida de alguém que tem uma recompensa por sua cabeça no valor de dez milhões. O antagonista chega sob a proteção da noite e apresenta seu cartão de visitas nas primeiras horas do dia no acampamento onde Anja passa a noite com o namorado. O jovem é alvejado com um tiro preciso no peito, que o projeta violentamente contra a barraca.
A procura de Kris pelo paradeiro da filha, que a enganara ao fingir ter ido à escola, vira uma operação de resgate que conta com a ajuda do quase desertor Nico. O roteiro inicia o abate dos personagens com aquele que parecia ser um dos últimos a cair e em quem Kris confiou a proteção da filha. White Dog é eliminado com um tiro ao espreitar pela janela, sucumbindo como uma jaca. A cena me surpreendeu. A impressão que tive ao ser pego de surpresa com essa morte inesperada foi a mesma dos personagens que testemunharam o impacto mortal da bala na cabeça do senhor de barba branca: de espanto.

Rapidamente, o sentimento de horror se dissipa, dando lugar ao constrangimento diante das várias sequências de erros evitáveis, se ao menos a produção tivesse contratado um ex-atirador de elite para uma consultoria técnica. É grotesca a inverossimilhança das táticas e do modus operandi de um atirador de elite frente a outro altamente capacitado para abater com precisão um alvo minimamente exposto em sua mira telescópica. Sem falar que a maioria dos personagens não usa colete à prova de balas contra um adversário de alta letalidade ao acionar o gatilho.
Além dos furos no roteiro, os efeitos de computação gráfica são de baixa qualidade. É difícil não perceber o CGI na cena em que a SUV capota após ser atingida por um tiro ou no momento seguinte, em que Kris ateia fogo ao mesmo veículo. O efeito das chamas se alastrando sobre o capô é tão grosseiro que queima a cena, não disfarçando a inserção desse elemento por meio da computação gráfica. O que realmente se destaca em “Sete Atiradores” é o ótimo trabalho de interpretação do experiente Tim Roth, principalmente quando ele se revela após usar uma espessa e longa camuflagem, chamada traje Ghillie (ou Ghillie Suit, em inglês), semelhante ao traje “kukeri”. A protagonista Radha Mitchell também é eficiente em seu trabalho.
Gosto de ouvir a trilha sonora de Mike Forst para este filme de ação enquanto acompanho o nervosismo dos personagens em meio à tensão de um ataque surpresa do ser quase místico “The Dragon”. O clima de caçada implacável dita o suspense do enredo, que se baseia em uma ameaça quase fantasmagórica, na qual um disparo imprevisível pode surgir a qualquer momento e de qualquer lugar, longe do alvo. A música fortalece o clima de silêncio inquietante durante a preparação de um disparo ou durante uma varredura telescópica da área, potencializada por uma mistura sonora de intensidade frenética e por fortes arranjos rítmicos, descrita como “tensamente focada”, que equilibra melodias atmosféricas (conhecidas como cues mais etéreas).
O drama tem como ponto central a filha Anja, por meio de suas descobertas felizes e infelizes, mostradas no terceiro ato da narrativa. Ela se alegra ao se lembrar, por meio de uma canção infantil entoada pelo soldado Milk, da relação entre eles quando ela estava sob os cuidados dele enquanto sua mãe trabalhava. No entanto, logo após se entusiasmar com Milk, seu humor se transforma em revolta ao desconfiar do motivo de ser a única a estar a salvo da ameaça do assassino, pois o objetivo de “The Dragon” é levar a filha para casa. A descoberta faz com que a garota saia às pressas para confrontá-lo, chegando a lançar uma flecha em sua coxa.
Ao passar a bandana vermelha para Anja, o antagonista ordena que ela a entregue à mãe, pois Voodoo Child sabe o que o adereço significa, já que teve uma experiência traumática ao utilizá-lo pela primeira vez. Com a mira telescópica quebrada por um tiro certeiro, a filha precisa agora colocar todas as suas habilidades técnicas em prática para garantir a precisão de um disparo a longa distância, pois Anja será os olhos da mãe em um duelo à distância entre dois exímios atiradores de elite em busca do tiro perfeito e mortal para um deles. É importante lembrar que a pontaria de “The Dragon” é precisa apenas dentro de um determinado padrão de distância; acima dele, sua mira fica instável.
Embora o filme “Sete Atiradores” pareça não se preocupar com o realismo tático das operações de sniper em prol de conveniências de roteiro — aliás, um roteiro que deixa a desejar —, a diretora Sandra Sciberras consegue envolver o espectador na atmosfera tensa por meio do elemento surpresa. Isso ocorre principalmente quando a câmera assume a posição dos olhos dos personagens atrás da mira de seus rifles. Essa técnica visual, conhecida como câmera subjetiva, faz com que o espectador tenha a experiência de assumir o ponto de vista do personagem, concentrado ao analisar o perímetro pela mira telescópica. Apesar de não ser uma história original, sem uma identidade que a diferencie do comum, “Seven Snipers” tem uma ação focada no suspense, capaz de fazer com que você chegue ao fim da história sem unhas nos dedos.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidade sobre Sete Atiradores
- As gravações ocorreram em um rancho isolado no interior da Austrália, utilizando o vasto e ermo campo do país como cenário principal para o esconderijo da protagonista;
- Apesar de ser uma produção de perfil independente, o longa conta com nomes consagrados de Hollywood, incluindo a protagonista Radha Mitchell (Terror em Silent Hill) e o indicado ao Oscar Tim Roth (Cães de Aluguel) no papel do vilão.
Ficha técnica
Diretora: Sandra Sciberras.
Roteiro: Andrew O’Keefe.
Produtores: Tristan Barr, Grant Hardie, Phil Hunt, Ian Kirk, Compton Ross, Sandra Sciberras, Charlie Kemball, Jason McNab, David Redman, Lav Bodnaruk, James Cannon, John Kearney, Loretta Kindness, Robert Kindness, Michael Mier, Elliot Ross e Fenella Ross.
Diretor de fotografia: Andrew Conder.
Editores: Stephanie Liquorish.
Diretora de arte: Lauren Hassell.
Figurino: Tracey Rose Sparke.
Cabelo e maquiagem: Melinda Beard e Mia Kate Russell.
Música: Mike Forst.
Elenco: Radha Mitchell, Charles Cottier, Ioan Gruffudd, Lee Tiger Halley, Ryan Kwanten, Pacharo Mzembe, Tim Roth, Damien Ryan, Bianca Wallace e Annabel Wolfe.


