Não é raro introduzir, principalmente em roteiros de filmes de terror, elementos que remetem à Igreja Católica por meio da figura de um padre, de uma freira ou, no caso deste filme, “Passageiro do Mal” (Passenger, 2024), à imagem de um santo: São Cristóvão, padroeiro dos viajantes e motoristas. Infelizmente, o cineasta norueguês André Øvredal começa seu terror de estrada com uma oração, e depois de uma overdose de CGI, encerra sua desordem com uma imagem caótica de apostasia, colocando o Corpo Místico de Cristo em chamas.
O trailer do filme “Passageiro do Mal” informa que mais de 130 milhões de pessoas viajaram de carro e que 15.400 delas nunca mais foram vistas. Com cenas terríveis, o pequeno vídeo promocional vende seu “peixe” por meio de imagens que remetem ao subgênero terror de estrada (road horror ou road movie de terror), como acidentes noturnos, buzinas ou alarmes disparando, rádio ligando sozinho com mensagens estranhas se misturando com estática e, o principal, tudo isso por conta de uma força maligna sobrenatural, que se “materializa” em um homem alto e pálido, visto sempre nas sombras da noite, parado à beira da estrada observando sua próxima vítima transitar à sua frente.

Desde pequeno, ouço falar de algumas lendas urbanas de estrada. A maioria está associada ao sexo feminino. A “Mulher de Branco” e a “Noiva da Estrada”, por exemplo, são personagens de histórias de assombração nas quais aparecem para caminhoneiros e motoristas como espíritos de mulheres que surgem na escuridão da noite, geralmente à meia-noite, pedindo carona. No entanto, elas somem antes de chegar ao destino. Tal situação assombra até mesmo os motoristas mais corajosos. Há também a lenda do “Opala Negro”, um dos maiores mitos do folclore urbano brasileiro. O caso divide-se entre assombrações na estrada e histórias de sequestros datadas das décadas de 70 e 80.
No entanto, o título deste longa-metragem revela o substantivo masculino em torno da entidade demoníaca “The Passenger” (Joseph Lopez), responsável pelas mortes que ocorrem ao longo da história, sendo a próxima vítima aquela que tem a infeliz ideia de parar no acostamento. Ao retornar à estrada, ela dará carona, sem saber, a um passageiro do mal, disposto a encurtar o caminho do motorista e de quem o acompanha, levando-os a um fim de viagem aterrorizante e mortal.
O longa-metragem acompanha um casal Tyler Genocchio (Jacob Scipio) e Maddie Brecker (Lou Llobell) em sua van, viajando à noite por uma estrada estranhamente pacata, até que são surpreendidos por um carro desgovernado e aparentemente precisando de ajuda; porém, ao serem ultrapassados, mais adiante o casal presencia um terrível acidente com esse mesmo veículo que, minutos antes, fora visto passar por eles em alta velocidade. A partir desse ocorrido fatídico, uma entidade das trevas inicia uma carona que ameaça suas vidas incansavelmente, não importando para onde fujam.
No centro da história narrada, cria-se uma lenda de estrada cujo ser sobrenatural se caracteriza pela aparência masculina e que, sorrateiramente, após outro motorista parar diante de um acidente com vítimas, se torna a próxima carona desse passageiro do mal. Os roteiristas Zachary Donohue e T.W. Burgess confundem o espectador em muitos pontos ao longo da viagem, encarada como uma mudança no estilo de vida do jovem casal Maddie e Tyler, que, aliás, não demonstra carisma e muito menos sintonia entre seus personagens enamorados.
A utilização da técnica do jump scare torna-se frequente e, até certo ponto, irritante. Logo nos primeiros minutos já é possível prever — mas não há tempo de se preparar — o susto provocado pela presença repentina e gritante do ser sobrenatural que aparece de pé à beira da estrada, que vira apenas o pescoço para acompanhar a sua próxima carona (leia-se vítima) passar à sua frente. Essa imagem fantasmagórica e assustadora se repete algumas vezes, até que a aparição surge abruptamente no banco ao lado do motorista, dando início a uma série de jump scares provocados por esse passageiro do mal.

O trabalho do diretor de fotografia, Federico Verardi, é eficiente, mesmo diante das dificuldades impostas por um cenário noturno. As cenas filmadas na estrada, com a luz do farol iluminando apenas o que está à frente, criam um suspense em torno da quebra do silêncio, que pode ocorrer a qualquer momento.
A trilha sonora de Christopher Young intensifica ainda mais o clima de tensão, que se prolonga até que o terror se materialize — ou não. Muito do que se ouve tem relação com sons não lineares extraídos de maneira prática por meio de texturas metálicas, como ferro e correntes arrastando, que, em atrito com determinadas superfícies, acabam gerando um barulho que corrobora ainda mais na criação de uma experiência aterrorizante também no sentido da audição.
A presença da ganhadora do Oscar, Melissa Leo, no elenco é desperdiçada por meio de sua personagem, Diane Larson, que entra em cena quando os pombinhos chegam ao acampamento de trailers, logo após Maddie receber um panfleto de oração e se sentir observada pelo homem que lhe entregou o “convite” com o título “Siga o seu caminho para a fé”. Em seguida, Diane contracena com a personagem de Leo, uma senhora experiente no estilo de vida nômade e minimalista, no qual se escolhe morar em veículos adaptados, como vans, furgões ou kombis (conceito chamado de van life ou “vida na van”).
Nesse encontro entre a novata e a veterana, a mais velha a aconselha sobre os perigos de viajar por estradas vazias e dirigir à noite, momento em que ela elucida a vanlifer de primeira viagem e introduz, de vez, ao enredo mais um subgênero do terror: o terror folclórico (folk horror). Diane também fala sobre nunca parar, pois, segundo ela, não são as pessoas que “pegam” a estrada, mas sim a estrada que “pega” as pessoas. Antes desses avisos, Maddie encontrou, fixado a um painel com fotos de pessoas desaparecidas na estrada, uma espécie de código hobo (ou hobo signs), uma famosa linguagem de símbolos deixados por viajantes, que constitui um sistema usado por trabalhadores nômades para deixar recados secretos e alertas de sobrevivência. Um desses sinais aparece na lateral da van do casal: três cortes diagonais, como se fossem feitos por uma garra, indicando que o local não é seguro.
A utilização dos hobo signs limita-se a um sinal de local inseguro e a um círculo com uma seta indicando uma determinada direção, algo interessante, mas mal utilizado; há também a confusão em torno do folclore empregado para criar o terror sobrenatural e o suspense psicológico, nos quais o casal se afunda em meio a aparições e interações sinistras com essa presença sobrenatural — uma força infernal fadada a ceifar as vidas daqueles que ousam seguir ou parar na estrada coberta de trevas.
O roteiro aponta para um caminho que leva a um destino previsível; porém, antes, acrescenta o que há de mais clichê no gênero de terror: a criação de personagens sem nenhum desenvolvimento mais profundo, que talvez possa criar uma conexão com o espectador quanto ao novo estilo de vida que adotam. Tanto os dois personagens do início, utilizados como iscas para demonstrar o poderio do ser das trevas, quanto o casal de protagonistas — jovens perdidos em seus propósitos e que se aventuram em uma vida que requer uma inteligência prática — são apresentados de forma superficial.

Em mais de uma hora e meia de filme, há duas cenas em que o diretor demonstra sua capacidade técnica de filmagem. A primeira envolve a personagem Maddie, que sai da academia à noite e caminha sozinha até a van, sentindo-se perseguida por alguma presença estranha. Desesperada ao escutar passos apressados, ela entra na van e, ao ver o sistema de câmeras, percebe uma presença perturbadora parada do lado de fora, olhando em sua direção, até ser sufocada por alguém que lhe aperta o pescoço.
A segunda cena se apresenta alguns minutos depois; a criatividade do diretor se materializa quando o casal vai para o meio da floresta e faz uma sessão de cinema ao ar livre para assistir “A Princesa e o Plebeu” (Roman Holiday, 1953). De repente, eles são surpreendidos por uma silhueta que se forma atrás da tela de tecido branco improvisada entre as árvores: um rosto aparece ao ser pressionado contra o tecido esticado. Tyler se aproxima daquela imagem aterrorizante, mas, ao puxar o pano, não encontra nada além de escuridão. Então começa uma correria por causa dos barulhos ao redor da floresta. Maddie pega o projetor para iluminar o local de onde vem o barulho e, então, a entidade se manifesta, aterrorizando os dois.
Há uma referência que soa engraçada e ridícula ao mesmo tempo: a van customizada, transformada no lar doce lar infernal do jovem casal, tem o seu volante assumido por Maddie, que segue deserto adentro a toda velocidade, ao mesmo tempo em que aciona uma irritante buzina musicada com a música de abertura da série de TV “Hawaii 5-0” (1968–1980), criada pelo maestro e compositor Morton Stevens e instrumentalizada pela banda The Ventures. O desastroso final continua a toda velocidade, com ela atropelando a entidade sobrenatural (acredite se quiser) e seguindo sua rota de destruição, até literalmente acabar com tudo à sua volta.
O que se vê em “Passageiro do Mal” pode se tornar efêmero em um curto espaço de tempo, ainda mais por se tratar de uma produção do subgênero terror de estrada, que tem uma ideia interessante, mas que é desperdiçada. Antes de realizar este trabalho, o diretor André Øvredal e sua dupla de roteiristas deveriam ter esmiuçado os 90 minutos do telefilme “Encurralado” (Duel, 1971), referência máxima do subgênero citado — a obra de estreia de um futuro prodígio do cinema, o hoje senhor diretor Steven Spielberg. Se faltasse tempo, a versão original para a televisão norte-americana, com duração menor, teria sido suficiente para transformar o passageiro do mal em uma entidade demoníaca implacável, associada somente a tragédias rodoviárias — cinematograficamente falando, é claro.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidade sobre Passageiro do Mal
- Algumas cenas envolvendo veículos recreativos (RVs) foram filmadas em dois locais no estado de Washington: no Enumclaw Expo Center (fevereiro de 2025) e em Grand Coulee (março de 2025). Proprietários reais de RVs (do inglês Recreational Vehicles ou Veículos Recreativos) e vans adaptadas participaram da produção com seus veículos e como figurantes. Para as cenas do festival em Enumclaw, artesãos e vendedores de alimentos da região expuseram e venderam seus produtos durante as filmagens;
- Lou Llobell e Jacob Scipio disseram que a química entre eles foi imediata. Ao se encontrarem em Seattle antes das filmagens, um garçom achou que eles eram um casal e recomendou uma viagem de carro para ver se o relacionamento deles resistiria a um pneu furado;
- Filmado em uma fazenda que faz parte da maior cooperativa de carne bovina do país;
- Após uma série de incidentes incomuns durante as filmagens, um padre foi chamado ao set para abençoar o elenco, a equipe e os veículos de produção com água benta;
- A buzina da van é a música tema da série “Hawaii 5-0”;
- Aos 57 minutos e 31 segundos do filme, os fãs de “Twin Peaks” (1990–1991) notarão que o casal busca refúgio em uma lanchonete familiar.
Ficha técnica
Diretor: André Øvredal.
Roteiro: Zachary Donohue e T.W. Burgess.
Produtores: Gary Dauberman, Walter Hamada, Pete Chiappetta, Jenny Hinkey, Andrew Lary, Nathan Samdahl, Anthony Tittanegro e Max Lippe.
Direção de Fotografia: Federico Verardi.
Editor: Martin Bernfeld.
Direção de Arte: Whit Vogel.
Figurino: Kimberly Adams-Galligan.
Música: Christopher Young.
Elenco: Jacob Scipio, Lou Llobell, Melissa Leo, Joseph Lopez, Miles Fowler, Alan Trong, Devielle Johnson, James William Clark, Tony Doupe, Charles Leggett, June Clemons, Bonni Dichone, William Lin-Yee, Joey Freitas, Michael Hilow, Norman Lesperance, Jessica Cruz, Frank A. Gaimari e Michele Peters.


