Resenha Crítica do Filme Na Zona Cinzenta (2026, Guy Ritchie)

A expressão “zona cinzenta” representa o meio termo entre o branco e o preto, o certo e o errado, o moral e o imoral. Estar ou trabalhar nessa área cinza é um modus operandi que exige sagacidade para transitar por vias opostas e uma expertise para fazê-lo com sucesso, um paradoxo que tem como objetivo convergir para um fim comum, visando obter uma vantagem lícita ou ilícita sobre alguém ou um grupo. No filme “Na Zona Cinzenta” (In the Grey, 2026), a elegante e sensual advogada Rachel Wild (Eiza González) trabalha na zona cinzenta com seu grupo, liderado pela dupla de mercenários Sid (Henry Cavill) e Bronco (Jake Gyllenhaal).


Bobby Sheen (Rosamund Pike) é uma poderosa executiva e banqueira de investimentos com forte influência sobre a movimentação de fortunas de valores quase inestimáveis. Ela está em uma situação delicada depois de emprestar um bilhão de dólares a Manny Salazar (Carlos Bardem), um criminoso e chefe da máfia de fama internacional. Porém, Salazar costuma lidar com suas dívidas eliminando os próprios credores. Bobby contrata Braxton (Darrell D’Silva) para recuperar o dinheiro de seu chefe/cliente, Spencer Goldstein (Victor Chaga). No entanto, Braxton é assassinado por Axel Olsson (Kristofer Hivju), o guarda-costas e chefe de segurança de Salazar.

Bobby fica indignada ao aceitar pagar um alto valor para que Rachel recupere a quantia de um bilhão de dólares roubada por Salazar.
Ao fundo, na outra ponta da mesa, Rachel se prepara para sair da sala onde havia feito sua proposta de serviço para recuperar a fortuna bilionária roubada de sua futura cliente. Já no primeiro plano, Bobby Sheen, indignada, aceita a proposta daquela que considera um estorvo.

Assim que descobre que o homem que lhe ensinou tudo sobre operar na zona cinzenta morreu, Rachel entra em contato com Bobby pessoalmente para oferecer seus serviços. Ela transmite extrema confiança em sua capacidade de executar o serviço e de recuperar integralmente o dinheiro da dívida. No entanto, Bobby sabe que o custo do serviço é alto e que contratar outra pessoa poderia resultar no mesmo destino trágico de Braxton. Mesmo sem gostar uma da outra, as duas chegam a um acordo final, com Rachel confessando total desconfiança de sua, agora, cliente.

Responsável por liderar a operação e atuar como negociadora, Rachel reúne sua equipe de confiança e convoca sua dupla de especialistas, Sid e Bronco, para comandar sua área de atuação na empreitada para recuperar uma fortuna multimilionária roubada pelo poderoso fugitivo. A relação do trio vai além do âmbito profissional; eles realmente se respeitam e se tratam com consideração genuína. Essa demonstração é percebida na maneira como, de vez em quando, os marmanjos chamam sua chefe de “mamãe” e ela os chama de “filhos”. Eles são devotados, protetores e estão dispostos a sacrificar a própria vida para mantê-la a salvo.

Então, o trio se reúne para elaborar a estratégia e as táticas que serão utilizadas para sufocar e estancar a fonte de renda de Manny Salazar, agindo por meio de brechas legais e de empresas de fachada usadas para esconder suas dívidas e “lavar” toda a sua fortuna. O “Movimento de Pinça”, plano a ser utilizado por Rachel, é uma combinação de ações práticas e processuais. O advogado do antagonista, William Horowitz (Fisher Stevens), será o primeiro alvo a tornar-se vítima, sem saber que está fornecendo informações e nomes de pessoas importantes por trás dos esquemas que mantêm todo o império financeiro de Salazar funcionando a todo vapor.

Salazar age como um camaleão, escondendo-se atrás de centenas de pseudônimos. Dessa maneira, as investidas para encurralá-lo precisam ser feitas tanto legalmente quanto ilegalmente. Para isso, sua equipe se divide para lidar com os dois aspectos. Assim, Rachel inicia seu plano com o máximo de precisão possível, para que toda a estratégia de recuperação do dinheiro seja um sucesso. Ao seu lado estão dois de seus principais homens: Bronco, responsável por liderar a equipe especializada em extração, intimidação e sabotagem, e Sid, que encabeça ações ligadas à corrupção, ao suborno e à vigilância secreta.

Pensando de maneira estratégica e com base em um planejamento meticuloso, a dupla de especialistas em resgate e operações táticas, sob a liderança de Rachel, embarca em uma trama carregada de ação e suspense para recuperar a fortuna roubada e criar uma rota de fuga segura da ilha pertencente ao antagonista Manny Salazar, um criminoso bilionário dono de uma ilha inteira e de seu próprio exército.

A ilha de Salazar é o cenário onde a narrativa de “Na Zona Cinzenta” se desenvolve em um ritmo que vai se intensificando a cada movimento meticulosamente planejado pelo trio responsável por recuperar dinheiro ilícito. Trabalhando para Bobby Sheen, Rachel e sua equipe vão até a ilha para um encontro pessoal com seu excêntrico dono e para uma negociação com o objetivo de recuperar a fortuna de US$ 1 bilhão roubada de Bobby. Salazar, porém, costuma lidar com suas dívidas eliminando os próprios credores.

Além do advogado Horowitz, há outro homem ainda mais importante na folha de pagamento de Salazar, principalmente para manter os esquemas de enriquecimento ilícito funcionando perfeitamente: seu contador, Wolfgang Klose (Mohammed Al Turki), um árabe-alemão formado em Harvard e especialista em esconder dinheiro. Ele é uma das peças-chave para que Rachel e sua equipe encontrem o dinheiro de Salazar, que está enterrado sob camadas de empresas de fachada, e recuperem a dívida.

Manny Salazar e seu advogado, William Horowitz, observam Rachel recusar sua oferta, que é inferior ao valor total que ele deve: um bilhão de dólares.
Acompanhada de Sid e Bronco, seus homens de confiança, Rachel negocia pela segunda e última vez com o irredutível Manny Salazar, que está ao lado de seu advogado, William Horowitz.

Com o acesso direto ao computador de Wolfgang, onde estão todos os dados necessários para expor toda a teia financeira e os nomes das pessoas envolvidas no esquema de fachada, será possível atacá‑lo legalmente e deixá‑lo “nu”, até que ele seja finalmente obrigado a pagar centavo por centavo do que deve. Apesar de essa pressão abrir margem para uma negociação, o acordo não sai conforme o esperado, e uma tentativa de matar Rachel é frustrada, o que gera uma segunda reunião entre eles, da qual finalmente Salazar aceita sanar o valor total do dinheiro devido.

A agilidade e o dinamismo entre uma cena e outra são mantidos pela edição ágil e bem elaborada de Martin Walsh e Jim Weedon. Isso cria um clima de tensão enquanto Rachel narra praticamente todos os trâmites processuais de sua equipe de advogados, visando criar um gargalo financeiro nas empresas de sua oponente. O suspense se mantém até o momento em que a desconfiança se torna certeza, com o primeiro tiro à queima-roupa, dando início a uma sequência de ação frenética que perdura até um pouco antes do fim.

O elenco é composto por um time de atores de alto nível, liderado por uma dupla em plena sintonia: Henry Cavill e Jake Gyllenhaal. Na tela, os dois parecem se completar diante do carisma e da facilidade com que contracenam. Trata-se de uma escolha certeira de elenco, ainda mais por atuarem ao lado de outras duas beldades que distribuem charme e competência: Eiza González e Rosamund Pike. Porém, elas não têm parceria em cena; o que têm em comum é a desconfiança entre suas personagens. Carlos Bardem também se destaca no papel do principal vilão, assim como Fisher Stevens, que interpreta um advogado de aparência caricata.

Apesar de toda a sujeira e maracutaia em que esses personagens estão envolvidos, todos eles merecem parabéns pelo guarda-roupa, pois têm estilo e bom gosto. Eles não atuam; desfilam. A responsável por vestir elegantemente o elenco suntuoso é a figurinista e estilista franco-britânica Loulou Bontemps, em parceria com seu conterrâneo, o diretor Guy Ritchie, com quem já trabalhou em outras produções, como a série derivada do filme de título homônimo lançada pela Netflix, “Magnatas do Crime” (2024), e os longas-metragens “Guerra sem Regras” (2024), “O Pacto” (2023), “Esquema de Risco: Operação Fortune” (2023) e “Magnatas do Crime” (2019). 

Diante de toda a inteligência e astúcia de Rachel em relação à personalidade vaidosa de Salazar, sobretudo quando o assunto é dinheiro e poder, o roteiro deixa a desejar ao permitir que a protagonista baixasse a guarda e fosse para o meio do deserto com uma conhecida e somente um segurança, após praticamente expor o seu adversário ao ridículo e fazê-lo pagar uma quantia milionária. Nada é mais visível no horizonte do que uma revanche contra ela, principalmente tratando-se de alguém tão vingativo quanto Salazar.

Outro vacilo do roteiro de Ritchie é a atitude irreconhecível da personagem principal, que entregou a quantia bilionária à cliente (em quem ela não confiava) sem receber o restante do pagamento combinado no início da contratação do serviço. Três meses após o trabalho ter sido realizado com sucesso, Bobby ainda não havia feito o pagamento acordado. Num campo de atuação pautado por ilicitudes, onde não há qualquer movimento baseado em princípios éticos como honestidade e transparência, Rachel jamais deveria entregar o combinado sem antes receber o que lhe é devido.

Deixando esses pequenos detalhes de roteiro de lado, acredito que Guy Ritchie se saiu muito bem na direção de mais um filme de ação produzido com autoridade no assunto. Ele é, sem dúvida, um dos nomes mais destacados da atualidade na produção cinematográfica cujo enredo percorre o submundo do crime ou o gênero de ação em geral. O britânico se desdobra nas funções de cineasta, roteirista e produtor, apresentando um estilo visual dinâmico, alinhado a todos os elementos necessários para que uma produção cumpra seu propósito de entreter com tiros, porrada, bombas e adrenalina. Acredito que a notoriedade de Guy Ritchie no cinema de ação já tenha feito com que as pessoas abandonem o estigma de “ex‑marido de Madonna” ao se referirem a ele.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico: 4 estrelas (ótimo)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "Na Zona Cinzenta" (2026).

 

Curiosidade sobre Na Zona Cinzenta

  • As filmagens começaram em Tenerife, nas Ilhas Canárias, em setembro de 2023 e terminaram no final de outubro de 2023;
  • Segundo relatos, Jake Gyllenhaal e Henry Cavill se conheceram no primeiro dia de filmagem;
  • Jake Gyllenhaal afirmou que Guy Ritchie costumava alterar diálogos e cenas durante as filmagens, incentivando os atores a se adaptarem e a descobrirem momentos em tempo real;
  • O lançamento do filme foi um processo longo e conturbado. Originalmente programado para ser lançado pela Lionsgate em janeiro de 2025, o filme foi retirado da programação porque a pós-produção não foi concluída a tempo. A Lionsgate, então, desistiu dos direitos de distribuição, deixando o estúdio independente Black Bear Pictures para encontrar um novo comprador ou cuidar da distribuição por conta própria. Por fim, a Black Bear distribuiu o filme de forma independente em maio de 2026, mas o filme teve uma estreia desastrosa nos Estados Unidos e se tornou um fracasso de bilheteria;
  • Algumas cenas na tenda no deserto foram filmadas em Lanzarote, enquanto outras cenas externas foram filmadas em Fuerteventura;
  • Antes de “In the Grey”, Guy Ritchie já havia colaborado com Jake Gyllenhaal, Eiza González, Henry Cavill e Jason Wong em filmes e projetos de televisão anteriores;
  • Esta é a segunda colaboração de Eiza González com Jake Gyllenhaal e Henry Cavill;
  • Eiza González já havia atuado ao lado de Rosamund Pike em “Eu Me Importo” (2020);
  • Esta é a terceira colaboração entre Guy Ritchie e Henry Cavill, sendo os outros dois filmes “O Agente da U.N.C.L.E.” (2015) e “Guerra sem Regras” (2024). Eiza González também estrelou este último;
  • Guy Ritchie já havia dirigido Emmett J. Scanlan em episódios da série de televisão “Terra da Máfia” (2025);
  • Esta é a segunda colaboração entre Eiza González e Jake Gyllenhaal; o primeiro filme foi “Ambulância – Um Dia de Crime” (2022).

 

Ficha técnica

Diretor: Guy Ritchie.
Roteiro: Guy Ritchie.
Produtores: Jomana Al Rashid, Mohammed Al Turki, Rasha AlEmam, Ivan Atkinson, Pablo Barinaga, Siobhan Boyes, Andrea Bucko, Dave Caplan, Rachael Cole, Chio del Olmo, AlJawhara Essam, Olga Filipuk, John Friedberg, Joshua Harris, Michael Heimler, James Herbert, Max Keene, Chapman Maddox, Shivani Pandya Malhotra, Llewellyn Radley, Derek P. Riedel, Guy Ritchie, Teddy Schwarzman e Jill Silfen.
Diretor de fotografia: Ed Wild.
Editores: Martin Walsh e Jim Weedon.
Diretores de arte: Cynthia Boutros, Fiona Gavin, Florian Müller, Luca Scaroni e David Temprano.
Figurino: Loulou Bontemps.
Cabelo e maquiagem: Alfredo Aguirre, Juan Begara, Lance Breakwell, Naomi Chevalley Diaz, Carmen Fraile, Ailbhe Lemass, Sadiyah Abdul Maleque, Alice Moore, Mamen Peña, Jacqueline Rathore, Laura Solari, Erin Steadman e Virginia Suárez.
Música: Christopher Benstead.
Elenco: Henry Cavill, Jake Gyllenhaal, Eiza González, Carlos Bardem, Michael Vu, Fisher Stevens, Rosamund Pike, Mohammed Al Turki, Kojo Attah, Jason Wong, Emmett J. Scanlan, Christian Ochoa Lavernia, Karlos Klaumannsmoller, Kristofer Hivju, Gonzalo Bouza, Silvia Naval, Marcus Glimne, Darrell D’Silva, Cory Douglas Campbell, Susan Lawson-Reynolds, Peter M. Smith, Nathalie Fanj, Rana Alamuddin, Mark Mottram, Gabriella Muir González, Max Keene, Victor Chaga, Alexey Chunaev e Alwesam Shigdar.

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