No filme independente “It Ends” (2025), o cineasta Alexander Ullom faz com que espectadores mais jovens reflitam sobre o rumo de suas jornadas na vida adulta. Com um enredo subjetivo carregado de metáforas, ele expõe a esse público os maiores desafios de uma geração específica (a Geração Z), ou não, por meio da vivência de um grupo de recém-formados que, ao longo de uma estrada sem fim, transformam suas experiências em um drama psicológico, como se fosse uma fantasia carregada de mistérios sem solução aparente. À medida que o hodômetro do Jeep Cherokee em que estão confinados aumenta, o suspense e o terror que os cercam se intensificam, até que a consciência desperte.
A princípio, “It Ends” parece tomar um rumo para ser mais uma história de horror típica de filmes coming-of-age (filmes de amadurecimento); porém, o que deveria ser um passeio noturno entre quatro amigos da Geração Z, recém-formados, para procurar comida e aproveitar o último momento juntos antes de seguirem caminhos diferentes, se transforma em uma jornada infernal. Eles acabam entrando em uma estrada de pista simples com duas faixas, cercada por horrores inimagináveis e forças sobrenaturais além da compreensão humana.
O itinerário, que antes era de fácil interpretação, torna-se um percurso em linha reta, perdido em quilômetros, pelo qual eles seguirão amontoados no espaço interno do automóvel, destinados a escolher entre continuar de mãos dadas com seu novo modo de existência ou lutar para escapar e encontrar um novo caminho que faça sentido de verdade. Além de assumir a direção e a edição, Alex Ullom também é responsável pela escrita do roteiro, um processo que levou cerca de dois anos para editar e desenvolver seu suspense existencial cinematográfico.

Assim que os quatro amigos transitam com seu Jeep Cherokee pela estrada, logo se questionam sobre o que está acontecendo, pois não encontram uma saída nem o fim da estrada. O que chega ao fim é o tanque de combustível do veículo, que, como em um filme de fantasia, continua com o motor a todo vapor, mesmo vazio. Na primeira parada no acostamento, pessoas em estado moribundo emergem de todos os lados da floresta que cerca o asfalto, correndo em desespero na direção deles e gritando por socorro. Forma-se um estado de caos ao redor do veículo, deixando todos em estado de choque, pois não entendem o que está acontecendo com aquelas pessoas nem o que elas querem.
Essa investida caótica pela rodovia, aparentemente deserta e esquecida, em um profundo silêncio quebrado somente pelo barulho daquelas pessoas perdidas e desesperadas por algo que provavelmente nem elas sabem o que é, faz com que os quatro personagens se sintam protegidos ao permanecerem confinados dentro de um espaço tão apertado como se fosse uma redoma, que começa a ficar desconfortável à medida que o dia e a noite se somam. Curiosamente, quando os personagens param de rodar e saem do carro, eles têm noventa segundos para retornar ao interior do automóvel e seguir viagem; hordas de pessoas, saídas do nada de dentro da floresta, retornam à cena, correndo loucamente aos gritos em direção ao grupo de amigos.
Eles se sentem presos e, ao mesmo tempo, com medo do que virá pela frente; a incerteza do futuro os apavora de um jeito em que sobreviver ao presente não garante o conforto do passado recente. Devido ao loop temporal vivido por um longo período, a adaptação ao ambiente apavorante se dá até que a resistência individual suporte esse ciclo enfadonho e terrivelmente assustador. A sensação que se tem no decorrer da história é de que, a qualquer momento, tanto os personagens quanto você e eu, espectadores, seremos surpreendidos com algum susto repentino (jump scare): seja um estranho atravessando a frente do carro em movimento, uma batida no vidro ou alguém sendo pego ao entrar na floresta. Ainda bem que Alex Ullom não se apegou a dar sustos a esmo, mas sim a criar uma atmosfera de suspense psicológico, uma vez que a tensão está nas entrelinhas.
O elenco principal é enxuto, assim como o orçamento para a realização deste projeto independente. São quatro pessoas que formam o grupo, liderado por Tyler (Mitchell Cole). No entanto, ele é o primeiro a desistir da busca por uma saída, pois acaba ficando para trás e aceita seu destino sombrio. Day (Akira Jackson) e Fisher (Noah Toth) são os próximos a abandonar o veículo para seguir pela estrada desolada. Eles se abraçam pela última vez antes de seguirem seu trajeto. James (Phinehas Yoon) é o mais racional de todos, pois insiste em acreditar e se recusa a aceitar seguir no loop existencial. Sua fé é vista quando ele precisa fazer com que o carro volte a andar como antes, sem gasolina. Ao rezar para que o motor volte a funcionar, ele consegue ser ouvido e zarpa do local onde seus amigos preferiram descer. Day acaba dando carona a um desconhecido, o que remete ao ponto de partida para um novo ciclo de incertezas.
Quando se trata de uma história em que o roteiro não expõe, nas entrelinhas, do que se trata o tema a ser explanado, abre-se uma margem para interpretações subjetivas, o que às vezes pode gerar confusão quanto à real compreensão da obra ou até o desinteresse repentino antes mesmo do fim. Principalmente neste caso, em que o realizador utilizou o loop temporal, um artifício narrativo comum na ficção que pode levar o espectador à apatia. No entanto, quando esse recurso é mal utilizado, a experiência de assistir a um filme se torna um martírio diante da monotonia da repetição contínua, problema visto no decorrer de “It Ends”, com o acréscimo da duração excessiva e do descuido na construção e aprofundamento dos personagens em cena — sendo que, neste caso, o elenco é composto por apenas quatro jovens.

Entranhado em um terror psicológico e existencial, este longa-metragem de baixo orçamento vai além do terror e do suspense psicológico. Sua narrativa contextualiza o drama, onde a filosofia se faz presente e cujo tema se aprofunda nos aspectos do existencialismo que agravam a crise da Geração Z quanto aos desafios econômicos, de saúde mental e até de reformulação do trabalho. Essa representação geracional está presente neste filme por meio dos quatro amigos recém-formados que, após serem confinados, seguem por uma estrada interminável cercada por uma floresta obscura. Dela, surgem dilemas apresentados em metáforas que os levam a comportamentos e diálogos que devem ser interpretados e enfrentados para que encontrem uma saída que os mantenha firmes e fortes diante dos obstáculos impostos pela estrada da vida.
De fato, o diretor Alexander Ullom abandona o terror convencional e se apoia fortemente em figuras de linguagem para desenvolver o roteiro de “It Ends”, um filme indie que explora as angústias características dos zoomers (ou Geração Z) por meio do terror cósmico e de outros subgêneros de suspense e terror, aliados a longos diálogos e à utilização de um único cenário. A obra traz para o centro da narrativa a perspectiva da Geração Z, grupo demográfico composto por pessoas nascidas aproximadamente entre 1997 e 2012, caracterizadas como nativas digitais hiperconectadas. A história metafórica retrata o medo dessa geração em relação ao amadurecimento, à transição para a vida adulta e às suas responsabilidades, assim como a angústia de se sentir “presa”, enquanto o futuro desconhecido é motivo de insegurança e medo.
A falta de perspectiva a longo prazo dessa juventude, somada ao niilismo como postura filosófica de muitos, só tende a agravar a degradação do ambiente e da alma. Isso leva à falta de fé em um sentido transcendente para o propósito da vida, que excede o material e o imediato, elevando o significado de tudo a um fim maior, estritamente ligado ao Criador. Infelizmente, como já foi escrito, Ullom não se aprofunda no background dos personagens; agora acrescenta-se à crítica a falta de uma perspectiva quando se toma uma direção que não faça da morte do corpo o fim da vida, mas sim o começo de uma vida eterna.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidade sobre It Ends
- O chefe de iluminação Chris Violet aprendeu Python por conta própria para programar as luzes que passariam pelo jipe durante certas cenas do filme;
- É o longa-metragem de estreia do diretor e roteirista Alex Ullom;
- A primeira exibição do longa-metragem de Alex Ullom e sua participação em um festival de cinema, que teve sua estreia no circuito de festivais em janeiro de 2025;
- A estreia da produção aconteceu no Festival SXSW (South by Southwest), em 7 de março de 2025;
- “It Ends” ganhou o Prêmio do Público (Audience Award) na categoria “Melhor Longa de Ficção” do Florida Film Festival de 2025.
Ficha técnica
Diretora: Alex Ullom.
Roteiro: Alex Ullom.
Produtores: Evan Barber, Carrie Carusone, Christopher Amick, Roshni Rush Bhatia, Jess Wu Calder, Keith Calder, Ryan Keely, Andrew Mayne, Ben Mekler, Elle León Nostas e Carson Tappan.
Diretores de Fotografia: Evan Draper e Jazleana Jones.
Editor: Alexander Ullom.
Departamento de Efeitos Visuais: Tony Ashley, Trevor Gates, Andy Hay e Jake Valentine.
Designer de Produção: Carrie Carusone.
Departamento de Produção: Liam Fineout, Costa Karalis e Connie O’Connor.
Música: Matthew Robert Cooper.
Elenco: Mitchell Cole, Akira Jackson, Noah Toth e Phinehas Yoon.


