Resenha Crítica do Filme Maldição da Múmia (2026, Lee Cronin)

Embora o título original, “Lee Cronin’s The Mummy”, possa parecer presunçoso, talvez a intenção do diretor Lee Cronin tenha sido apenas destacar sua visão da múmia. Aliás, ainda bem, porque a sua versão desse ser embalsamado no Egito não acrescentou nada nem ajudou a preservar a múmia. A putrefação ocorre sob um horror corporal (body horror) extravagante, tão distante do tema que o título “Maldição da Múmia” se mostra mais apropriado. Uma maldição, de fato.


Diante dos filmes como o clássico “A Múmia” (The Mummy), de 1932, dirigido por Karl Freund e estrelado por Boris Karloff — uma das primeiras produções da famosa franquia dos “Monstros da Universal” (Universal Monsters) — ou o filme com o mesmo título lançado em 1999, que deixa o terror de lado para se tornar uma aventura cheia de ação e fantasia, realizada por Stephen Sommers e protagonizada por Brendan Fraser e Rachel Weisz, fica evidente a qualidade e o foco preciso nesta figura espantosa do folclore e da cultura pop.

Com o Egito como cenário principal, a trama de terror sobrenatural acompanha uma mulher de comportamento esquisito (Hayat Kamille) que, na companhia do marido, vai a um lugar secreto e escuro, uma espécie de tumba, onde se encontra um sarcófago de basalto. Dentro dele, uma múmia aparentemente descansa em sono eterno. Ao levantar a tampa para verificar seu interior, a chama da lamparina se apaga com uma lufada de ar. Assim que a chama é acesa novamente, ela se assusta ao ver a múmia despertar com um grito apavorante. O susto é seguido por um suposto acidente, quando um dos ganchos utilizados para suspender a tampa se solta e provoca uma fatalidade.

A Mágica entrega para Katie Cannon uma barra de seu doce preferido.
A personagem mística, A Mágica, atrai Katie Cannon com mais uma barra de chocolate até o momento derradeiro em que lhe será entregue a fruta que carrega a maldição da múmia.

Em seguida, o foco se volta para o casal de jornalistas Larissa (Laia Costa) e Charlie Cannon (Jack Reynor), que também estão no Egito com os filhos, Sebastián e Katie (que, nessa fase infantil, são interpretados, respectivamente, por Dean Allen Williams e Emily Mitchell). Em determinado momento, uma das crianças, Katie, sai para brincar no quintal e se depara com uma mulher esquisita, que se comporta de modo estranho e a chama do outro lado da cerca. Após conversarem, a criança aceita uma fruta oferecida pela mulher e desaparece sem deixar rastros.

Ao mesmo tempo em que sua filha é sequestrada, ele recebe uma ligação com uma proposta de emprego em um jornal de Nova York. No meio da uma ligação para contar a novidade à esposa, Charlie encontra várias embalagens de chocolate vazias dentro de um brinquedo da filha e pergunta à mulher se ela havia dado todos aqueles doces à menina. Ela responde que não. Ao questionar o filho sobre o assunto, ele acaba confessando que a irmã recebe a guloseima de uma amiga que a encontra no fim do jardim. Ao chegar no local onde a filha brincava, ele vê uma abertura no canto da cerca. Ao acessar a rua e sair perguntando pela filha, ele avista alguém correndo com sua garotinha sobre os ombros. Ao tentar perseguir a pessoa, Charlie  é surpreendido por uma tempestade de areia.

Ainda no Cairo, os pais de Katie pedem ajuda à polícia local. Seus depoimentos são ouvidos pela policial Dalia Zaki (May Calamawy), que atua como intérprete de seu superior. No meio do depoimento, o pai perde a paciência ao ouvir o delegado dizer, em árabe, à policial, que o casal provavelmente matou a filha acidentalmente e está tentando encobrir o crime. Em uma cena posterior, a história dá um salto de oito anos e muda de cenário: do Egito para Albuquerque, no estado do Novo México (EUA), onde Charlie mora com a família. Sem nunca perder as esperanças de encontrar a filha desaparecida no Cairo, os pais mantêm um quarto todo montado para um possível retorno de Katie.

Na nova residência da família Cannon, o espectador se depara com os pais, o filho mais velho, Sebastián, agora um adolescente interpretado por Shylo Molina, a nova irmã, a caçula Maud Cannon (Billie Roy), e a avó Carmen Santiago (Veronica Falcón), uma católica devota que carrega um terço e reza constantemente pela recuperação da neta. No sul do Egito, próximo a Assuã, um jovem testemunha a queda de um avião. Ao chegar ao local dos destroços, ele se depara com uma cena de horror e um sarcófago intacto cravado no chão.

Assim que o objeto é aberto pelos peritos, eles retiram algumas faixas para fotografar o corpo mumificado. Ao disparar o flash, o ser dentro da caixa abre a boca como se estivesse despertando e dali sai um escaravelho. Ela se debate e grita, como se quisesse sair dali. Descobre-se que aquele ser cadavérico, com lesões dérmicas e em estado catatônico profundo, é a filha do casal, desaparecida há quase uma década. Assim que recebem a notícia de que Katie, agora uma adolescente interpretada por Natalie Grace, foi encontrada “viva”, os pais vão ao Egito buscá-la para retornarem juntos ao novo lar nos EUA, na companhia dos irmãos e da avó.

A policial que atuou como intérprete do chefe na época em que o casal buscava ajuda para encontrar a filha raptada retorna agora como detetive. Ela permanece na trama determinada a descobrir quem são os responsáveis pelo crime e quais foram suas motivações. A chegada da mumificada Katie à sua nova casa, mais espaçosa, confortável e sem poeira, provoca olhares e reações mais retraídas. Logo de cara, a avó é quem sofre o primeiro ataque do que eles acreditam ser a Katie. Nada mais óbvio nessa escolha, ainda mais quando se tem um terço na mão, uma poderosa arma espiritual, mas que, no filme “Maldição da Múmia”, é apenas um objeto de repulsa do ser maligno que possui a pobre (ou seria podre?) menina.

As inspirações e aberrações escrachadas vêm de filmes como o clássico de terror sobrenatural “O Exorcista” (1973) e da franquia “Evil Dead”, da qual o próprio Lee Cronin escreveu e dirigiu um filme em 2023. Assim que a malcriada múmia chega à casa, ela ataca a coitada da vovó da igreja, que estava apenas segurando sua mão com unhas no estilo do Zé do Caixão e rezando. Assim que ela diz “Amém”, o “projeto de lagartixa” dá uma cabeçada em seu nariz, seguido de uma performance de outro mundo, literalmente. Regan MacNeil fez escola; não se preocupe, Linda Blair, sua performance é insuperável.

Depois desse show particular, com a família de plateia ao pé da cama, seria mais lógico e seguro para todos levarem a múmia o mais longe possível daquele lar, principalmente mantendo-a longe do alcance das crianças, as mais suscetíveis a um possível ataque contra suas vidas. No entanto, mesmo após os pais presenciarem a primogênita se comportando como um animal, correndo feito um porco selvagem pelas paredes da casa até ser vista devorando um escorpião como se fosse uma banana, todos os adultos, inclusive a avó, que deveria ser a primeira a se voltar para a realidade diante daquela presença bizarra que em nada lembrava a neta, insistem que Katie voltará a ser quem era antes do sequestro.

Katie Cannon, acomodada em sua cadeira de rodas, depois do banho dado pela mãe com a ajuda da avó.
Katie Cannon, logo após o primeiro banho dado pela mãe com a ajuda da avó. A alma da menina está presa a um corpo catatônico e em decomposição.

O terror monstruoso apresentado em “Maldição da Múmia” aparece em diversas cenas ao longo da história. O roteiro também arrisca algumas situações cômicas, principalmente envolvendo a avó — destaque para sua dentadura. Uma cena bizarra ocorre quando a mãe e a avó estão no banheiro cuidando de Katie. Após darem um banho na menina, a avó penteia o cabelo, que se solta em tufos, enquanto a mãe faz um esforço tremendo para cortar as grossas e longas unhas dos pés da filha. Ao tentar cortar a unha do dedão, ela força tanto o alicate para cima que arranca a unha junto com uma faixa de pele, que se rasga até a metade da canela. É uma visão dantesca, que se pode imaginar quando se está prestes a puxar aquela pontinha de pele sobressaltada abaixo da unha.

Quem começa a tomar atitudes em relação aos rastros deixados pela múmia é Charlie, o pai. Ele cogita encaminhar a filha para um lugar adequado, mas sua esposa, Larissa, afirma, nervosa, que é capaz de cuidar de Katie em casa. Ele discorda, pois acha que ela está se prejudicando e se comportando de modo estranho. Ao encontrar um pedaço da faixa enroscada na cadeira de rodas em que a filha estava, ele fica curioso e descobre que há outras faixas grudadas umas às outras com escritos egípcios. Ao buscar a ajuda de um professor especialista em hieróglifos egípcios, descobre-se que as faixas com os escritos fazem parte de um ritual de proteção contra um demônio chamado Nasmaranian, conhecido como “o destruidor de famílias”.

Presa naquele corpo em decomposição, Katie tenta se comunicar com o pai por meio de código Morse e acaba revelando um nome: Layla (May Elghety). A detetive Zaki é acionada por Charlie para investigar o nome de Layla no Cairo e, assim, desvendar os responsáveis pelo sequestro de Katie e o que realmente está acontecendo. Enquanto isso, a múmia começa sua investida para dominar todas as pessoas ao seu redor, começando pela irmã mais nova, Maud, e assim por diante. O terceiro ato é uma loucura demoníaca orquestrada pela múmia. Nesse momento, percebe-se que Cronin regurgita o gênero “terrir”, absorvido para sua versão de “Evil Dead”.

Todo o pandemônio está envolto em uma cinematografia mergulhada em sombras, que logo confere à trama um tom de horror visceral e sombrio. O diretor de fotografia, David Garbett, investe em uma iluminação de alto contraste e tons dessaturados, com foco nos azuis frios e nas cores terrosas, como o vermelho. A textura do horror corporal reforça o realismo de cada ferida “em carne viva”. Outro aspecto que contribui para a criação da tensão psicológica da narrativa são os enquadramentos em closes, especialmente do rosto assustador e deformado da antagonista. Essa técnica transmite uma sensação de claustrofobia no meio da tensão incômoda que cerca cada cena. Os efeitos práticos chamam a atenção e podem ser um dos poucos elogios a serem feitos, assim como a interpretação de Hayat Kamille da personagem mística e central A Mágica, estritamente ligada ao antigo folclore egípcio e à maldição.

Em “Maldição da Múmia”, o espectador não verá nada além do que já está acostumado quando o assunto é esse ser sobrenatural do Egito Antigo. Aliás, o que é apresentado no filme não se aproxima nem um pouco da imagem clássica da múmia. A versão de Lee Cronin é mais uma do tipo “ao pó voltarás e esquecida serás”. Quem, como eu, já teve a experiência de assistir a “Lee Cronin’s The Mummy” (A Múmia de Lee Cronin), acredito que nunca mais vai querer desenterrar essa maldição de sua tumba, se é que ela já não se juntou ao pó do deserto.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico: 1 estrelas (ruim)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "Maldição da Múmia" (2026).

 

Curiosidade sobre Maldição da Múmia

  • O filme foi originalmente intitulado The Mummy, mas o produtor Jason Blum adicionou o nome de Lee Cronin para distingui-lo dos filmes anteriores de Mummy. Cronin inicialmente não tinha certeza, mas acabou concordando;
  • O design da múmia foi parcialmente inspirado nos corpos preservados encontrados em pântanos, expostos no Museu Nacional da Irlanda, que Cronin estudou durante a pré-produção;
  • Após o sucesso de “A Morte do Demônio: A Ascensão” (2023), o produtor James Wan convidou Lee Cronin para dirigir um filme da série “A Múmia”. Cronin aceitou a proposta depois de decidir adotar uma abordagem diferente, mais voltada para o terror, para o material;
  • O pôster do filme chamou a atenção no Reino Unido por suas imagens perturbadoras, tendo o diretor defendido que se tratava de algo adequado para um filme de terror;
  • Lee Cronin afirmou que o filme foi parcialmente inspirado por sua experiência pessoal com o luto após a morte de sua mãe;
  • O diretor Lee Cronin citou “Poltergeist – O Fenômeno” (1982), “Seven – Os Sete Crimes Capitais” (1995) e “Breaking Bad” (2008) como influências no tom e nos temas do filme, bem como o folclore egípcio e a fé católica;
  • May Calamawy e May Elghety são as primeiras atrizes egípcias a atuar em um filme da série “A Múmia”; embora o filme anterior se passasse no Egito, os papéis de personagens egípcios foram interpretados por atores de outros países. Elghety também ajudou com os diálogos em árabe egípcio falados no filme. Calamawy é egípcia-palestina e foi criada falando árabe levantino, por isso teve que aperfeiçoar seu sotaque em árabe egípcio para o filme com a ajuda de Elghety;
  • Os efeitos de pele do filme foram criados usando uma combinação de látex e materiais semelhantes a papel, projetados para rasgar de forma realista sem se desfazer;
  • As filmagens ocorreram na Irlanda e na Espanha, de 24 de março a 25 de junho de 2025;
  • O filme é uma releitura independente do mito da Múmia e não está ligado aos filmes anteriores da franquia;
  • Após o lançamento do trailer, parte do público pensou, por engano, que o filme estava relacionado aos filmes anteriores da série “A Múmia”, estrelados por Brendan Fraser, o que levou o estúdio a esclarecer a situação;
  • Este filme marca o retorno de May Calamawy ao gênero de terror após “Djinn” (2013);
  • A produção utilizou o codinome “Resurrected” (Ressuscitado) durante as filmagens;
  • Este é o segundo longa-metragem de May Calamawy envolvendo uma múmia, depois de estrelar em “Cavaleiro da Lua” (2022);
  • Jack Reynor já havia interpretado Shane em “Transformers: A Era da Extinção” (2014). O filme anterior da Múmia, “A Múmia” (2017), contou com a participação de Roberto Orci e Alex Kurtzman, membros da equipe de “Transformers: A Vingança dos Derrotados” (2009), e do diretor de fotografia Ben Seresin;
  • Em uma exibição especial, May Calamawy usou maquiagem protética que simulava um ferimento no pescoço, em referência à sua personagem, o que causou confusão entre os fãs, que inicialmente acreditaram que o ferimento fosse real;
  • Uma versão anterior do final focava mais no sacrifício de Charlie, mas foi alterada para proporcionar uma conclusão emocionalmente mais satisfatória;
  • A trama secundária envolvendo dentes (dentadura) foi inspirada em uma experiência real que Lee Cronin teve ao organizar o funeral de sua mãe;
  • O quarto onde a Mágica está detido no final do filme é o quarto 237.

 

Ficha técnica

Diretor: Lee Cronin.
Roteiro: Lee Cronin.
Produtores: Jason Blum, Pete Chiappetta, Michael Clear, Lee Cronin, Ella Gale, Niamh Gale, Alayna Glasthal, Macdara Kelleher, John Keville, Andrew Lary, Kino Reyes, Judson Scott, Jennifer Scudder Trent, Anthony Tittanegro e James Wan.
Diretor de fotografia: David Garbett.
Editor: Bryan Shaw.
Direção de arte: Robert Barrett, Shane McEnroe, Gary McGinty e Andrew O’Donoghue.
Figurino: Joanna Eatwell.
Cabelo e maquiagem: Emily Barker, Ruairi Butler, Liz Byrne, Natalie L Costello, Zuelika Delaney, Katie Derwin, Aisling Duffy, Andrea Eusebi, Eva Fernández, Elaine Finnan, Linda Gannon, Jean-Louise Keady, Lori Ann King, Vincent Lam, María Marrugat, Faye Miller, Dominic Mombrun, Eva O’Toole, Julie-Ann Ryan, Joshua Saks, Hannah Sullivan, Arjen Tuiten, Meg Tyrell, Valerie Ward, Jess Whelan e Jesús García.
Música: Stephen McKeon.
Elenco: Jack Reynor, Laia Costa, May Calamawy, Natalie Grace, Shylo Molina, Billie Roy, Veronica Falcón, Hayat Kamille, May Elghety, Emily Mitchell, Husam Chadat, Tim Seyfi, Mark Mitchinson, Gideon Emery, Dean Allen Williams, Gerald Papasian, Hanna Khogali, Jamie Doyle, Amr Atia, Jonny Everett, Lily Sullivan, Montse Alcoverro, Catalina Botello, J. C. Montes-Roldan, Kian Nagel, Robin Windvogel, Jonathan Gunning, Omar El-Saeidi, Aisha Laouini, Arkin Cureklibatir, Safi Mulki, Jolly Abraham, Georgina Brennan-Stynes e Paweł Kotyński.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima
Leia e Assista
Políticas de privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.