Como um “coice de burro”, “O Justiceiro: Uma Última Morte” (The Punisher: One Last Kill, 2026) estreia curto e grosso em um média-metragem (filmes com duração entre 15 e 70 minutos) frenético. Sem pudor, o diretor Reinaldo Marcus Green filma cenas de ação brutal protagonizadas pelo personagem Frank Castle, um ex-fuzileiro naval atormentado por um trauma devastador e movido por um desejo de justiça implacável. Trata-se de um filme de ação que carrega em seu íntimo uma história de drama capaz de perturbar o psicológico de um homem treinado para enfrentar situações extremas e o caos.
O novo filme do Justiceiro foi lançado diretamente no catálogo de streaming da Disney+. Trata-se de um especial do anti-herói que está na lista de “Apresentação Especial da Marvel Television“. Esse formato pode ser um filme ou um episódio de média-metragem, cujo enredo é destinado a narrar histórias focadas em personagens específicos do MCU (Universo Cinematográfico Marvel). O modelo de filme em questão é produzido sob o selo da Marvel Television – divisão da Marvel Studios focada em lançar tramas concisas, sem o compromisso relacionado ao tempo como em uma série de longa duração ou em um filme de cinema.
A história acompanha de perto o personagem principal, Frank Castle, uma pessoa taciturna que prefere se comunicar por meio de suas ações. É por meio de seu silêncio inquietante que ele costuma demonstrar uma força da natureza surreal, movida pelo desejo de fazer justiça com as próprias mãos (e armas), além de sentimentos de revolta e vingança acumulados em sua mente conturbada.

O roteiro, escrito pelo próprio diretor em parceria com o ator principal da trama, Jon Bernthal, retrata as alucinações de Frank com ex-companheiros mortos da época em que ele era um fuzileiro naval. Essas visões se alternam com cenas de sua mulher, Maria Castle (Kelli Barrett), e de sua filha, Lisa Barbara Castle (interpretada por Addie Bernthal, filha biológica do protagonista) ambas mortas. A tentativa de abandonar a vida de violência em busca de um propósito além da vingança é deixada para trás no momento em que a mãe mafiosa Ma Gnucci (Judith Light) decreta a sentença de morte de Frank, após eliminar membros de sua família.
Ele sobrevive, isolado em um quarto vazio, enquanto confronta os fantasmas de seu passado, que lhe enchem a cabeça de minhocas com o sentimento de culpa por todas aquelas mortes. Lá fora, o caos instalado no decadente bairro de Little Sicily sobe as escadas do prédio e chega à sua porta. No corredor, dezenas de assassinos saem à caça do veterano fuzileiro, batendo de porta em porta até chegarem à dele. Ao se depararem com a porta trancada, eles chamam pelo seu nome, jogam um líquido inflamável nela e o fogo que se alastra acaba acendendo o pavio curto que marca o retorno do Justiceiro. A justiça agora é feita segundo os próprios princípios dele.
Sob fogo inimigo, ele sai porta afora e elimina dezenas de homens do crime em uma sequência frenética de luta pela sobrevivência, com uma força destrutiva de grande impacto visual. Seu modus operandi é animalesco e sua agressividade extrema, capaz de fazer com que as finalizações icônicas e brutais da franquia Mortal Kombat, conhecidas como Fatalities e Brutalities, pareçam um carinho. John Wick e Robert McCall teriam inveja disso. A violência é tão insana que “O Justiceiro: Uma Última Morte” recebeu a classificação indicativa norte-americana para programas de televisão e streaming, TV-MA (Mature Audience, ou Público Maduro).
Outra personagem que surge na imaginação alucinada de Frank é Karen Page (Deborah Ann Woll). Ela tem uma relação intensa e complexa com ele, e ambos mantêm uma parceria profunda baseada na lealdade. Ela aparece em um momento de tensão, logo após a cabeça dele ser colocada a prêmio pela vilã e matriarca da família Gnucci. Frank parece ressabiado após essa visita ingrata. Em um de seus devaneios, Karen surge como sua fiel confidente e porto seguro emocional, dizendo para ele não se deixar dominar pelo medo nem se vitimizar por uma situação que ele mesmo escolheu, ao invés de ficar com a família. Um descuido que lhe custou uma tragédia irreparável e um fardo insuportável na consciência. As palavras dela são duras e o colocam em confronto com sua consciência moral. Num piscar de olhos, ele se vê sozinho, encurralado por um bando prestes a conhecer a fúria de um dos anti-heróis mais violentos e famosos da Marvel Comics em ação absoluta.
As cenas seguintes mostram o Justiceiro quebrando tudo o que está em seu caminho e eliminando o bando um por um, sempre da maneira mais brutal possível. Mesmo armados até os dentes, os bandidos não são páreo para o ex-fuzileiro naval altamente treinado para situações que exigem máxima precisão na eliminação do inimigo — seja utilizando partes do corpo, como mãos, pés ou cabeça, seja empunhando uma de suas armas ou equipamentos letais. Se você gosta de filmes de ação em que o protagonista se transforma em um exército de uma pessoa só, precisa assistir a esse especial da Marvel Television. Em menos de cinquenta minutos, toda a sanguinolência de origem assustadora é apresentada de forma intensa e impactante, numa miscelânea de gêneros que vão do drama ao crime, com um ritmo insano que não deixa o espectador desgrudar os olhos da trama.

Anteriormente à estreia desse filme de média duração, a série “O Justiceiro” (The Punisher, 2017-2019) já contava com a excelente interpretação de Jon Bernthal no papel de Frank Castle. Aliás, a primeira aparição de Bernthal como o Justiceiro foi na segunda temporada da série “Demolidor” (Daredevil, 2015-2018), participação que rendeu uma série solo do personagem da Marvel Comics, com o mesmo ator interpretando o impiedoso anti-herói que opera estritamente à margem da lei. Para quem não conhece a série, o filme “O Justiceiro: Uma Última Morte” é um cartão de visitas interessante.
Além da sintonia perfeita entre Jon Bernthal e Frank Castle/Justiceiro, as músicas selecionadas para compor a trilha sonora combinam de maneira estranhamente agradável com o ritmo da narrativa. Kris Bowers ousou ao contrastar o heavy metal da banda Danzig com a música “Mother” e o jazz lento de Louis Armstrong com sua interpretação rouca, calorosa e suave da clássica chanson française de Édith Piaf, “La vie en rose”. Os elogios se estendem também à cinematografia de Robert Elswit, que não deixa passar em branco toda a atmosfera crua e sombria de um cenário urbano sufocante e palco de violência.
Antes dos créditos finais, há uma cena em que o Justiceiro aparece, como manda o figurino dos quadrinhos, com sua marca registrada: a caveira branca estilizada pintada no centro do peito. Talvez o desfecho mais aguardado seja o dessa cena final, que se inicia logo nos primeiros minutos da história. Nela, é feita justiça ao senhor que teve o boné roubado e o cachorro de estimação atirado para o meio da rua, onde o animal acaba esmagado pelas rodas de um caminhão. No entanto, o principal responsável por essa crueldade contra o pobre e inofensivo senhor tem o azar de ter sua última ação criminosa interceptada pela justiça, feita de carne e osso, que nutre um ódio inexorável contra criminosos e qualquer corja da qual esse pobre rapaz fez parte.
Não há como deixar de escrever esta resenha crítica sem registrar meu apelo para que o protagonismo de Jon Bernthal se estenda para além dessa pequena demonstração. O ator e o Justiceiro parecem ter sido feitos um para o outro; ele realmente encarou o papel com exímio conhecimento de causa. Por favor, Disney, mantenha “O Justiceiro” em alto nível e dê sequência ao trabalho de J. B. A isca foi lançada e mordida até por aqueles que não o conheciam. Agora, basta dar mais tempo para que a história seja contada de maneira decente, sem que o espectador leigo precise dar um Google. No fim, tenho certeza de uma coisa: “Uma Última Morte” não passa de um subtítulo irônico e metafórico. Sem família, o foco dele deixa de ser apenas a vingança e passa a ser a proteção de outras famílias inocentes.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidade sobre O Justiceiro: Uma Última Morte
- Addie Bernthal, filha de Jon Bernthal na vida real, interpreta Lisa Castle — a filha de Frank Castle;
- Primeiro crédito de roteirista de Jon Bernthal;
- Isso prepara o terreno para a aparição do Justiceiro em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” (2026);
- Esta não é a primeira vez que a família Gnucci é mencionada ou aparece no MCU. Em “3 AM” (2017), o primeiro episódio da série “The Punisher” (2017), Frank mata Tony Gnucci;
- Esta é a terceira Apresentação Especial da Marvel. Ela vem na sequência de “O Lobisomem da Noite” (2022) e “O Especial de Natal dos Guardiões da Galáxia” (2022), ambos lançados em 2022;
- Terceira colaboração entre o diretor Reinaldo Marcus Green e o diretor de fotografia Robert Elswit. Este também é o primeiro projeto do Universo Cinematográfico Marvel filmado por Robert Elswit;
- O próprio ator Jon Bernthal ajudou a escrever o roteiro do especial em parceria com o diretor Reinaldo Marcus Green;
- O longa quebrou recordes de brutalidade no Universo Cinematográfico da Marvel, com mais de 10 minutos de pancadaria coreografada e um estilo que muitos fãs compararam à franquia John Wick;
- A produção conta com rostos conhecidos do universo das séries, incluindo Deborah Ann Woll como Karen Page;
- Ao eliminar o clã da família Gnuti, Frank cria um vácuo de poder na cidade que resulta em caos e inocentes sofrendo, forçando-o a assumir o manto do Justiceiro novamente para proteger os vivos;
- O especial serve como uma ponte narrativa para integrar o personagem e sua extrema brutalidade em produções futuras, como nos filmes do teioso;
- A arma de mão de Frank quando ele usa sua armadura do Punisher (e no cemitério) é uma Glock 34 9×19 mm personalizada com o Combat Master Package da Taran Tactical Innovations (TTI), um pacote de personalização de ponta projetado para atiradores profissionais de competição e para treinamento de agentes da lei e militares. Esta pistola, assim como outras armas de fogo personalizadas da TTI, é mais conhecida por ter sido usada por John Wick nos filmes “John Wick: Um Novo Dia para Matar” (2017), “John Wick 3: Parabellum” (2019) e “John Wick 4: Baba Yaga” (2023);
- (Aos 4:41) Frank está recitando o credo da Força de Reconhecimento do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (Force Recon). O credo serve como um lembrete diário da dedicação, do condicionamento físico extremo e da inabalável força mental necessários para se tornar um Fuzileiro de Reconhecimento, que é indiscutivelmente a profissão militar mais exigente fora das unidades de forças especiais; Na verdade, os Fuzileiros Navais de Reconhecimento são considerados capazes de Operações Especiais (SOC) e trabalham regularmente em operações conjuntas com unidades de forças especiais do Comando de Operações Especiais dos Fuzileiros Navais (MARSOC), como os Marine Raiders, e unidades do Comando de Guerra Especial Naval (NSWC), como os Navy SEALs e o DEVGRU (Grupo de Desenvolvimento de Guerra Especial Naval). O credo completo dos Fuzileiros Navais de Reconhecimento declara: “Ciente de que ser um Fuzileiro Naval de Reconhecimento é uma escolha minha e somente minha, aceito todos os desafios inerentes a esta profissão. Para sempre me esforçarei para manter a reputação extraordinária daqueles que me precederam. Ultrapassar os limites impostos por outros será meu objetivo. Sacrificar o conforto pessoal e dedicar-me à conclusão da missão de reconhecimento será a minha vida. Aptidão física, atitude mental e alta ética — o título de Fuzileiro Naval de Reconhecimento é minha honra. Conquistando todos os obstáculos, grandes e pequenos, jamais desistirei. Desistir, render-se, abandonar-se é fracassar. Ser um Fuzileiro Naval de Reconhecimento é superar o fracasso; vencer, adaptar-se e fazer o que for preciso para completar a missão.” A missão. No campo de batalha, como em todas as áreas da vida, me destacarei da concorrência. Com orgulho profissional, integridade e trabalho em equipe, serei o exemplo a ser seguido por todos os fuzileiros navais. Jamais esquecerei os princípios que me levaram a me tornar um Fuzileiro de Reconhecimento: Honra, Perseverança, Espírito e Coragem. Um Fuzileiro de Reconhecimento pode falar sem dizer uma palavra e alcançar o que outros só podem imaginar;
- Frank tem uma grande bolsa de lona cheia de armas em seu esconderijo. Uma grande bolsa de lona cheia de armas foi um elemento importante do enredo da primeira temporada de “The Walking Dead” (2010). Jon Bernthal estrelou as duas primeiras temporadas da série no papel do xerife adjunto Shane Walsh, papel que marcou sua grande chance e o lançou à fama.
Ficha técnica
Diretor: Reinaldo Marcus Green.
Roteiro: Jon Bernthal e Reinaldo Marcus Green.
Produtores: Sana Amanat, Alexis Auditore, Jon Bernthal, David Chambers, Louis D’Esposito, Kevin Feige, Reinaldo Marcus Green, Eleena Khamedoost, Nick Koumalatsos, Liana Oja, Trevor Waterson, Chase Williams e Brad Winderbaum.
Diretor de fotografia: Robert Elswit.
Editora: Melissa Lawson Cheung.
Direção de arte: Jan Jericho e Max Wixom.
Figurino: Emily Gunshor.
Cabelo e maquiagem: Emily Ansel, Stella Bouzakis, Elias John Ruperto Broderick, Jenny Pendergraft, Beth Rolon, Gayette Williams e Michael Zambrano.
Música: Kris Bowers.
Elenco: Jon Bernthal, Judith Light, Deborah Ann Woll, Jason R. Moore, Kelli Barrett, Andre Royo, John Douglas Thompson, Colton Hill, Nick Koumalatsos, Addie Bernthal, Mila Jaymes, Eduardo Campirano, Mugga, Dónall Ó Héalaí, Jamal Lloyd Johnson, Rafael R. Green, Evelyn O. Vaccaro, Roe Rancell, Annika Pergament, George Schroeder, Jesse Ray Sheps, Meltem Gulturk, Eon Song, Dominick Mancino, Joseph DeVito, Chelsea Brea, Henry Corvino, David Manuele, Victor Dobro, Pedro Hector Mojica, David Goodman, Brenda McCullough, David Collins, Dennis Jay Funny e Tom Johnson.


