Arriscar a vida escalando montanhas sob um clima congelante é quase como participar de um jogo de azar: não basta ter competência, é preciso também contar com a sorte. Da mesma forma, viajar sozinha para um lugar desconhecido, cercada por homens que mais parecem hienas babando por carne fresca e se aventurar em um perigoso e selvagem parque nacional australiano torna o contexto ainda mais arriscado. Esses são os destinos escolhidos pela alpinista Sasha (interpretada por Charlize Theron), a protagonista aventureira do filme “O Jogo do Predador” (Apex, 2026), uma produção original da Netflix.
Esses cenários desafiadores, somados à sede de aventura da personagem interpretada pela atriz sul-africana Charlize Theron, levam o espectador a imaginar um destino nada positivo para a viciada em adrenalina Sasha. A situação se agrava quando ela se depara com um grupo de caçadores locais ao entrar em uma loja de conveniência empoeirada em um posto de combustível. Os homens a cercam como se ela fosse uma gazela indefesa. Diante do comportamento intimidador daqueles sujeitos, a mulher entra em estado de alerta e sua expressão facial se fecha. No balcão, Ben (Taron Egerton), um homem de aparência pacata, entrega à responsável pelo estabelecimento mais de seus suculentos pacotes de carne seca e diz ao grupo para deixar a turista em paz.

Antes de Sasha pegar a estrada rumo a um novo desafio radical em um lugar desconhecido, o prólogo de “O Jogo do Predador” apresenta ao espectador o primeiro desafio dela com seu amado, Tommy (Eric Bana), que assim como ela, gosta de arriscar a vida em escaladas de tirar o fôlego (ou a própria vida). A subida do casal de aventureiros até o cume da Troll Wall, na Noruega, é congelante e repleta de armadilhas invisíveis que podem levar um deles a um fim trágico. É uma demonstração de toda a imponência da natureza em contraste com a pequenez humana. O diretor de fotografia Lawrence Sher evidencia o caos e o perigo constante com tomadas vertiginosas que, no entanto, capturam toda a beleza materializada por Deus.
O diretor islandês Baltasar Kormákur narra seu filme de sobrevivência, aproveitando todos os recursos e desafios proporcionados pela locação natural australiana. O preparo físico de Theron é visível nas cenas de ação. A energia com que ela corre, escala, luta, rema, salta e até mesmo se esquiva de flechas lançadas em sua direção demonstra seu empenho em interpretar uma personagem que exige equilíbrio físico e mental. Essa desenvoltura já havia sido vista nela em outras produções, e a atriz se entregou incansavelmente aos esforços físicos de modo exemplar.
A presença de Charlize Theron no elenco de uma produção ajuda qualquer diretor a contar a sua história e a dar vida a uma personagem. Ao contracenar com a bela atriz, que aos cinquenta anos está em plena forma física, Taron Egerton incorpora Ben, o assassino canibal e o predador de “Apex”. A interpretação visceral do jovem ator provoca um impacto visual apavorante. Ele se comporta de forma animalesca desde a cena apreensiva em que surge diante de Sasha, segurando um aparelho de som e uma besta. Nesse instante, em que a tensão se apodera do ambiente, a sua mudança repentina de comportamento é seguida pelo aviso de que começará a caçá-la assim que a música terminar.
Enquanto persegue sua nova presa, seus gritos horripilantes ecoam pelo silêncio assustador da floresta, como se fosse um animal selvagem sedento. Nesse momento de ação, o espectador roe as unhas de aflição ao acompanhar a perseguição do predador à presa, que, movida pelo instinto de sobrevivência, tenta escapar como pode até ser capturada pelos pés em uma armadilha. Encurralada como um animal, ela ainda tenta lutar, mas é dominada. Após mais uma tentativa frustrada de fuga, ela é levada para a caverna de Ben, onde os corpos das pessoas desaparecidas são armazenados como presuntos defumados.
O suspense psicológico se mistura ao horror que preenche toda a atmosfera da cena seguinte. Sasha se espanta ao avistar todos aqueles corpos nus e pendurados de maneira grotesca. Ben explica os rituais canibais que pratica e a importância de aproveitar cada parte da caça humana, sem desperdício. A câmera então foca na caixa com as “carnes secas” embaladas e prontas para serem distribuídas nos pontos de venda, revelando uma cena realmente macabra. Como se todo esse horror não bastasse, Sasha fica ainda mais aterrorizada ao descobrir que a mãe de Ben continua viva dentro dele.

Apesar de Ben ameaçar morder os dedos de Sasha ao revelar os seus dentes de fazer inveja a uma piranha, é ela quem os utiliza como um animal para lhe arrancar um pedaço da orelha desse ser repugnante e, assim, iniciar mais uma tentativa de fuga. Ligados por um fio de aço, ambos são violentamente arrastados pela corrente do rio até que, em terra firme, entram em mais uma luta corporal, onde se dá a reviravolta do jogo, colocando-a em posição de vantagem, como um “urubu em cima da carniça”.
Com a fratura exposta, ele corre risco de vida devido a uma possível infecção. Ela o convence a sair dali o quanto antes, mas a única saída é escalar a montanha que os cerca. Como ela é um “urubu”, cair do alto da montanha não será um problema para um animal que sabe “voar”. Diferentemente dele, um verme que, se cair, vai explodir como um saco de estrume. Essa cena de tensão é um momento em que a cinematografia e a direção dão um show de enquadramento e ângulos impressionantes, mais uma vez.
Ao chegar à escalada final, a atmosfera carregada de suspense insiste na fórmula mais previsível e estúpida possível. Desde a chegada da personagem central ao habitat natural de Ben, o clichê está presente em todo o enredo de “O Jogo do Predador”. A sensação de já ter visto um filme de ação e suspense de sobrevivência faz com que ele se torne mais um chavão cinematográfico, condenado ao marasmo e destinado a se juntar em breve ao grupo dos inúmeros filmes contemporâneos esquecidos no fundo empoeirado da prateleira de um cinéfilo acumulador.
Antes de digitar as últimas palavras desta resenha crítica, o roteiro de Jeremy Robbins se assemelha à superfície da Lua, mas com buracos menores e em menor número — sou uma pessoa justa. Aliás, o personagem Ben parece um ser extraterrestre com capacidade de se teletransportar. É impressionante como, por mais que Sasha corra do assassino insano, ele sempre aparece em seu campo de visão, tudo isso em uma floresta.
Mesmo com um elenco estrelado por Charlize Theron, Taron Egerton e Eric Bana — sendo que os dois primeiros se destacam em seus papéis —, os esforços deles não são suficientes para sustentar o filme, principalmente na subida. Dos três atores, Bana se saiu melhor, com uma participação curta em um filme banal. — Meu trocadilho foi tão genérico quanto este longa-metragem.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidade sobre O Jogo do Predador
- Charlize Theron treinou intensamente para o filme sob a orientação da alpinista profissional Beth Rodden. Theron conseguiu completar sozinha uma alta porcentagem da coreografia de escalada de sua personagem, em vez de usar um dublê. Rodden mantém uma reputação profissional por várias primeiras ascensões, incluindo a rachadura Meltdown localizada no Parque Nacional de Yosemite;
- Charlize Theron e Taron Egerton mantêm conexões documentadas com a vila de Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch em Anglesey, País de Gales. Egerton residiu no município durante a infância e demonstra a habilidade de pronunciar o topônimo de 58 letras em várias aparições na mídia. Theron adquiriu familiaridade com o local por meio de um segmento técnico viral em um programa noturno em que a artista recitou com sucesso o nome completo de memória;
- Os mixers de produção usaram um efeito sonoro de batimento cardíaco isolado às 01:20:00 para simular a resposta fisiológica do protagonista. O efeito sonoro foi sincronizado com os movimentos do personagem. Os designers de som sobrepuseram o batimento cardíaco ao silêncio para isolar o foco auditivo da cena;
- O diretor Baltasar Kormákur selecionou locais remotos de geleiras islandesas para obter autenticidade ambiental. A equipe implantou uma caixa de câmera especializada para climas frios para manter as temperaturas do sensor Arri Alexa 35 durante condições de filmagem abaixo de zero;
- Charlize Theron trouxe sua família para a Austrália. Eles disseram que queriam se mudar para a Austrália permanentemente;
- A produção utiliza trajes de exoesqueleto personalizados para facilitar o movimento em ambientes de alta altitude. As equipes de design industrial projetaram esses adereços físicos com pistões hidráulicos funcionais para garantir a consistência mecânica durante sequências práticas de acrobacias.
Ficha técnica
Diretor: Baltasar Kormákur.
Roteiro: Jeremy Robbins.
Produtores: Ray Angelic, Ian Bryce, Peter Chernin, A. J. Dix, Beth Kono, Baltasar Kormákur, Will McCance, Dawn Olmstead, David Ready, Magnús Viðar Sigurðsson, Jamie Spetner, Charlize Theron e Jenno Topping.
Diretor de fotografia: Lawrence Sher.
Editor: Sigurður Eyþórsson.
Direção de arte: Tony Drew, Dale Mackie e Sophie Nash.
Figurino: Margot Wilson.
Cabelo e maquiagem: Adir Abergel, Hayden Bloomfield, Jacenda Burkett, Lottie Clark, Emma George, Paul Katte, Jean-Philippe Koudou, Nick Nicolaou e Billie Weston.
Música: Högni Egilsson.
Elenco: Charlize Theron, Taron Egerton, Eric Bana, Matt Whelan, Bessie Holland, Aaron Pedersen, Rob Carlton, Duncan Fellows, Julia Ohannessian, Niam Hogan, Willow Seager, Zac Garred e Caitlin Stasey.


