Resenha Crítica do Filme Jessabelle: O Passado Nunca Morre (2014, Kevin Greutert)

Antes de escrever sobre o filme “Jessabelle: O Passado Nunca Morre” (Jessabelle, 2014), não o confunda com o primeiro spin-off de “Invocação do Mal” (The Conjuring, 2013), aquele da famosa boneca assombrada por uma entidade maligna, também lançado em 2014, “Annabelle”. Ambos têm em comum apenas o terror sobrenatural. Em “Jessabelle”, o subtítulo lembra que “o passado nunca morre”, mas esquece de acrescentar que, na trama, o espírito envelhece. E, se envelhece, um dia morre. Estranho, não? Esse roteiro de Robert Ben Garant é uma furada.


Jessie Laurent (Sarah Snook) está grávida e se mudando com o noivo para um novo lar, quando o carro em que estão se envolve em um acidente, resultando na morte do companheiro e do bebê em seu próprio ventre. Por consequência da tragédia, Jessie se vê presa a uma cadeira de rodas por alguns meses e precisa fazer fisioterapia. Ela é praticamente obrigada a pedir ajuda ao seu único parente, o pai Leon (David Andrews), com quem não se encontrava há tempos. Ela então vai morar na casa dele, onde passou a infância, localizada no interior da cidade de St. Francis, no estado da Louisiana, EUA.

Ao chegar à residência interiorana, Jessie encontra algumas fitas de vídeo (VHS) e assiste à sua falecida mãe, Kate (Joelle Carter), fazendo revelações de segredos sombrios sobre o seu passado, o que a deixa curiosa para investigar aquele conteúdo obscuro. Ao saber que a filha assistiu às fitas com gravações de sua falecida esposa, Leon imediatamente se enfurece e as quebra sem hesitar. A partir da reação do pai e da descoberta das fitas pela filha, um espírito maligno e furioso começa a aparecer para Jessie, como se buscasse vingança. Próximo à casa, um pântano misterioso esconde segredos sombrios do passado que se refletem no presente.

Leon, pai de Jessie, a leva até o quarto em que ela ficará acomodada.
O pai de Jessie, Leon, conduz a filha pelos cômodos da sua casa até o quarto que pertenceu à mãe da menina, Kate.

Antes que as fitas fossem encontradas, Jessie foi acomodada pelo pai no quarto que pertenceu à sua mãe. Estranhamente, uma cristaleira foi colocada na frente da porta de acesso ao cômodo, como se fosse um obstáculo para impedir a saída ou a entrada de algo ou alguém. Dentro do aposento, o pai entrega a Jessie uma sacola com alguns de seus pertences pessoais, que estavam com a tia que acabara de falecer. Ela havia morado com essa parente quando era pequena, após a morte trágica da mãe.

A manifestação do ser sobrenatural acontece na primeira noite de Jessie na casa. Assim que ela se deita, vê, através do tecido fino e transparente do mosquiteiro, a silhueta de uma mulher sentada em sua cadeira de rodas ao lado da cama. Na noite seguinte, ao deitar, Jessie vê novamente a presença daquela mulher morta, que agora tenta tocá-la por meio do cortinado suspenso em volta da cama. A partir desse momento, o suspense e o mistério das mensagens da mãe registradas nas fitas se entrelaçam ao drama e ao terror psicológico vividos por Jessie, que busca respostas palpáveis para dissipar a sombra que a rodeia por meio de manifestações sobrenaturais perigosas.

Os dramas psicológicos da protagonista se tornam cada vez mais frequentes — são visões perturbadoras que se confundem com a realidade. Em uma dessas interações com a entidade que a persegue, o pai se enfurece novamente ao ver a filha chorando e aterrorizada ao despertar de uma visão horrível dentro da banheira. Ao dizer que havia deixado Jessie sozinha na banheira por alguns segundos, a fisioterapeuta Rosaura (Ana de la Reguera) é expulsa aos gritos pelo pai. Em seguida, ele diz à filha que o conteúdo das fitas está deixando-a cada vez mais assustada. Ao encontrar mais duas fitas, ele resolve queimá-las, mesmo com a filha implorando para que não o fizesse, pois era a única coisa que ela tinha da mãe. Ao sair de casa com as fitas para queimá-las, ele acaba se incendiando misteriosamente. Desesperada e sem condições físicas de ajudar, a filha o vê sendo queimado vivo até a morte pela janela do quarto.

No enredo de “Jessabelle: O Passado Nunca Morre”, em meio ao horror e à tragédia, entra em cena o personagem Preston Sanders, interpretado por Mark Webber, um antigo namorado de Jessie dos tempos de colégio. O reencontro deles acontece durante o velório do pai da personagem principal, e a partir de então ele se torna seu principal aliado na busca pela verdade por trás dos mistérios de Jessie e do espírito de Jessabelle. No entanto, durante a conversa com o ex-namorado, Jessie passa mal, desmaia e tem uma visão: um homem negro com o rosto queimado. Esse fantasma também está presente em seus pesadelos, assim como a mãe e a garota morta. Juntos, eles se tornam peças-chave para a compreensão do passado sombrio da família de Jessie.

Ao recuperarem as fitas misteriosas que o pai tentou destruir, o casal Jessie e Preston se unem para investigar o significado por trás das gravações e o que realmente esse conteúdo quer mostrar. Sozinha na casa do falecido pai durante uma noite, Jessie resolve assistir ao conteúdo da fita. Em determinado momento da filmagem, a mãe, chorando, diz algo assustador, e de repente uma força sobrenatural se manifesta, jogando uma garrafa de bebida contra a parede. Assustada, Jessie então liga para Preston.

No dia seguinte, ele vai à casa de Jessie e a vê no píer, olhando para a outra margem do rio, onde pontos brilhantes refletem a luz do sol. Desconfiados, eles decidem atravessar o rio para conferir do que se tratam aqueles pontos luminosos. Ao chegarem, deparam-se com vários cacos de espelho suspensos junto a outros objetos relacionados ao vodu. Navegando entre as árvores, eles chegam a um pântano e Preston desembarca em um pedaço de terra firme onde encontra velas derretidas, como se tivessem sido usadas em rituais de vodu. Próximo dali, há uma lápide com o nome “Jessabelle” e a data de aniversário de Jessie. Ao desenterrarem o caixão, uma ossada de bebê é encontrada.

Depois de encontrar os ossos da bebê, Jessie procura a mãe de um menino da época de escola, pois ela era a antiga cozinheira da família, antes mesmo de Jessie nascer. Ao se encontrarem com Abigail Davis (Fran Bennett), uma idosa cega, Jessie se identifica como sendo da família Laurent, e a senhora Davis imediatamente começa a cantar uma antiga canção haitiana, com a intenção de chamar os espíritos para possuir Jessie. A partir daí, a trama se desenrola em um clima de suspense cada vez mais intenso, caminhando para o clímax, quando Jessie descobre que foi adotada para encobrir um crime cometido por sua família. Ao descobrir que a esposa tinha uma filha, a verdadeira Jessabelle, fruto de um relacionamento extraconjugal com Moses (Vaughn Wilson), o amante secreto responsável por apresentar a Kate as práticas e crenças do vodu, ela se vê envolvida em uma trama de lendas de magia e feitiços locais.

Preston e Jessie olham curiosos os pontos cintilantes na outra margem do rio.
Vários pontos cintilantes são observados por Preston e Jessie no meio das árvores do outro lado do rio. Na noite anterior, Jessie observou pessoas andando com bastões de fogo no local.

A tragédia se estende à vida dos pais de Jessabelle: Moses é morto com um tiro e, posteriormente, tem o corpo incendiado por Leon (por isso o rosto do homem apresenta queimaduras). Consequentemente, após o assassinato do amante e da filha, Kate põe fim ao seu sofrimento tirando a própria vida. A cena final, em que Jessie é jogada no rio, revela o elemento central para a reviravolta: o pulseira/bracelete, que foi utilizado em um ritual vodu e permite que a menina morta reencarne no corpo de Jessie.

O momento em que o filme “Jessabelle: O Passado Nunca Morre” se torna uma história de investigação, com a entrada do personagem de Webber, o clima, apesar de lento, segue mais interessante. Parece que os efeitos especiais utilizados são mínimos, assim como os momentos de jump scare (susto repentino). A trilha sonora de Anton Sanko deixa a desejar, pois parece passar despercebida diante de um enredo que precisa ser reforçado com a máxima ajuda dos outros elementos técnicos, como o som. Um pouco mais da metade do filme, a história se perde em adições que fogem do contexto, como um possível despertar romântico entre Jessie e Preston, situação totalmente destoante da atmosfera tensa.

Infelizmente, o roteiro de Ben Garant não explora mais a fundo o tema do vodu, pois os elementos ligados a ele são verdadeiramente assustadores e obscuros, já que essa prática está intimamente relacionada a espíritos e a todo o sobrenatural que cerca a história. Além disso, Moses apresentou o vodu a Kate, e ela, ao retornar como um espírito, ajudou a transferir a alma da verdadeira Jessabelle para o corpo da protagonista, Jessie, utilizando a pulseira/bracelete como símbolo dessa troca de identidades. 

O enredo se deteriora e culmina em uma vingança tardia da bebê assassinada pouco depois de nascer. Ela retorna como um espírito adulto, na companhia dos espíritos de seus pais, para perturbar a vida de uma pessoa inocente. No fim, ela surge como uma sereia assassina, abandonando sua vítima no fundo do rio após um beijo na testa, e emerge sob um corpo e uma vida que jamais serão seus. A ideia de que o espírito da bebê morta retorna já mais velho, no corpo de uma jovem mulher, torna o roteiro ainda mais degradante, pois o envelhecimento está ligado à materialidade, ao tempo cronológico e às limitações físicas. Basta uma pesquisa básica para saber que, segundo diversas correntes espiritualistas e filosóficas, o espírito não envelhece com a passagem do tempo; o corpo, sim, sofre desgastes naturais ao longo de sua existência no mundo material, mas a alma ou o espírito são imortais e atemporais.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico: 2 estrelas (regular)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "Jessabelle: O Passado Nunca Morre" (2014).

 

Curiosidade sobre Jessabelle: O Passado Nunca Morre

  • Embora o filme se passe na Louisiana, as filmagens ocorreram em Wilmington, Carolina do Norte, porque não foi possível encontrar um local apropriado para as filmagens;
  • O rádio a transistores Mansun que aparece no filme agora pertence a um grande fã do filme;
  • Jacob Sullivan fez revisões do roteiro sem receber créditos;
  • A protagonista Sarah Snook passa a maior parte do filme limitada a uma cadeira de rodas. Ela precisou dominar técnicas de atuação corporal expressiva para transmitir todo o pavor e o desespero de sua personagem sem conseguir fugir ou correr nas cenas de suspense;
  • Na cena em que Jessie e Preston atravessam o pântano de barco, é possível ver a sigla “NC” na embarcação. Isso significa que o barco é das águas da Carolina do Norte;
  • A lápide de Jessabelle era feita de concreto maciço, pesava 18 kg e agora pertence a um colecionador da região noroeste do Pacífico.

 

Ficha técnica

Diretor: Kevin Greutert
Roteiro: Robert Ben Garant.
Produtores: Jason Blum, Jerry P. Jacobs, Matthew Kaplan, Jessica Malanaphy, Robyn Marshall, Peter Principato e Paul Young.
Diretor de fotografia: Michael Fimognari.
Editor: Kevin Greutert.
Departamento de arte: Jacob Akers, Emily Caulfield, Andy Krish e Alton McClellan.
Figurino: Carol Cutshall.
Cabelo e maquiagem: Todd A. Britt, Tonya Johnson, Erin Keith, Bryan David Moss, Holly Sago e Joan Shay.
Música: Anton Sanko.
Elenco: Sarah Snook, Joelle Carter, Mark Webber, David Andrews, Ana de la Reguera, Amber Stevens West, Chris Ellis, Brian Hallisay, Vaughn Wilson, Larisa Oleynik, Fran Bennett, Paul Garrett, Barbara Weetman, Jason Davis, Lucius Baston, Charles Black, Elizabeth Rowin, Nick Basta, Chiek Sisoko, Kevin Patrick Murphy, Gabriel Davis, Kevin Hall, Cal Johnson, Karen Strassman, Roderick Bell, Orchid Ra e Millie Wannamaker.

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