Uma andorinha não faz verão, e Emma Thompson não consegue salvar um filme sozinha, principalmente em um inverno glacial no norte de Minnesota, um dos mais rigorosos dos Estados Unidos. A vencedora de dois Oscars bem que tentou contribuir para a qualidade do filme O Frio da Morte (Dead of Winter, 2025), mas o suspense, que se deleita no drama em formato de flashbacks da protagonista, mostrou-se um pouco confuso e nadou de braçada nos terríveis clichês do gênero. Poderia ao menos ter apagado a mensagem escrita no vidro? Que vacilo irritante! Deve ter sido o processo de resfriamento do encéfalo.
Nem mesmo a participação da atriz Judy Greer foi o suficiente para colocar o discreto filme do diretor Brian Kirk no radar de produções relevantes. O excesso de gelo talvez tenha levado a dupla de roteiristas Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb a cometer alguns descuidos ao pisar no chão escorregadio. Os exageros nas condutas estúpidas da personagem Barb (Emma) são insuportáveis, principalmente em uma produção com quase uma hora e quarenta minutos de duração. No entanto, há um momento de lucidez de Barb, quando ela arma uma armadilha no lago congelado que traz grandes problemas para um dos sequestradores.
Inicialmente, a trama por trás de O Frio da Morte pega carona com a personagem Barb em luto. Mesmo com a previsão de uma forte nevasca, ela decide viajar para pescar no Lago Hilda, localizado ao norte de Minnesota. Esse é o local onde ocorreu o primeiro encontro do jovem casal, e onde agora também serão espalhadas as cinzas do falecido marido. Próxima ao destino, ela para em frente a uma cabana, aparentemente abandonada. Ao sair do automóvel, ela estranha uma mancha de sangue sobre a neve que cobre o chão. Ao ver um homem rachar lenha, ela o assusta ao perguntar sobre a localização do lago. Antes de sair, ela pergunta se ele está bem e indica as gotas de sangue.

Ao chegar no lago congelado, a personagem de Emma Thompson relembra os momentos em que esteve ali com o falecido marido, quando ainda eram dois jovens apaixonados. De repente, ela se volta para a realidade ao ouvir o eco provocado por um disparo de arma de fogo no meio da imensidão do vazio congelante. Ela logo corre para se abrigar atrás do carro. Assustada, Barb avista uma jovem correndo de um homem armado. Mais tiros são disparados em direção à menina que então cai sobre a neve fofa e é capturada por um sujeito com arma em punho.
Ao presenciar a captura amedrontadora, Barb tira o celular Nokia 3310 do bolso e vê que o aparelho não tem sinal. Ela então monta em seu veículo e zarpa dali o mais rápido possível. Ao pegar sua tralha de pesca, que havia deixado no meio do lago ao correr para se abrigar dos disparos, ela acelera para sair do gelo. Porém, ao tentar subir um pequeno morro, a falta de aderência faz com que a caminhonete atole na neve. A partir desse momento, a personagem central do filme parte em busca do paradeiro daquela menina que havia sido sequestrada pouco tempo antes.
O cenário natural pintado pelo branco da neve é utilizado como um grande trunfo aproveitado com excelência pelo diretor de fotografia Christopher Ross. É impressionante o contraste que ele cria na cinematografia ao enquadrar os personagens em cena, estejam eles sozinhos ou acompanhados. O enquadramento aberto e distante (grande plano geral e plano geral) é aplicado com maior frequência à solitária Barb, transmitindo ao espectador a dimensão do ambiente hostil que a cerca em seu isolamento. Esse é um ambiente que se torna mais um obstáculo frente à ameaça humana que ela está prestes a enfrentar.
A sensação de desconforto diante de um terreno desconhecido se intensifica desde as cenas iniciais em que Barb dirige sua caminhonete pela estrada deserta, até a caminhada pela imensidão da superfície do lago congelado, onde ela está isolada de qualquer outro ser de sangue quente, exceto pelo homem de bigode de morsa, “Camo Jacket” (Jaqueta Camuflada), interpretado por Marc Menchaca, e por sua esposa doente, “Purple Lady” (Judy Greer), a “cabeça” por trás do sequestro da garota Leah (Laurel Marsden).
Os roteiristas Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb vacilaram ao incluir na trama ações boçais e de uma estupidez tremenda. Um exemplo disso é a primeira tentativa de resgate da menina sequestrada. Assim que Barb percebe que ela está presa no subsolo, há uma tentativa de comunicação por meio de uma pequena janela. No entanto, quando o casal chega à cabana, a corajosa senhora deixa uma mensagem escrita na janela, prometendo que não vai embora.

Essa patacoada só incrementou os outros rastros deixados pela sapiente protagonista, como uma das luvas deixada no chão e encontrada pela sequestradora, que recebeu o nome criativo de Purple Lady, assim como o seu marido e cúmplice, Camo Jacket. Além da luva, as pegadas e a mensagem escrita sobre a camada de gelo no vidro da janela do porão deram início à ação entre os sequestradores e a destemida, porém um pouco distraída, senhora.
Como dizem, há males que vêm para o bem. Refiro-me aqui, a cena posterior à descoberta de um corpo estranho rondando o corpo onde está a “cura” para a doença da desesperada Purple Lady. Nervosa com a descoberta da luva encontrada ao redor do imóvel, a Dama de Jaqueta Roxa entra na cabana, pisando firme, e pergunta de maneira ríspida ao marido o que é o objeto que ela segura (uma luva sem o par). Ele responde o óbvio: — Uma luva? Ela confirma: — Sim, eu sei que é uma luva. E emenda a pergunta: — De onde veio? Então vem a resposta que é uma pérola e digna de fazer qualquer pessoa com o espírito do ensino fundamental chorar de rir: — Da loja de luvas?
Após esse breve puxão de orelha (o que aparenta ser frequente na vida do casal) da mandachuva em cima do seu submisso homem barbudo, ambos partem como um perdigueiro floresta adentro para seguir os rastros de sua nova “caça”. A ação e o suspense vêm à tona nesse momento, em meio a um jogo de sobrevivência que pode ser fatal para todos os envolvidos. É um “toma lá, dá cá” silencioso e rodeado de tensão. No entanto, o enredo de O Frio da Morte parece destoar do suspense proposto ao querer dar ênfase à vida pessoal da personagem central, especialmente ao seu passado de perdas e frustrações.
A caixa de pesca de Barb faz inveja ao Inspetor Bugiganga. Dentro do pequeno objeto estão os utensílios que ela considera necessários não só para pescar, mas também para costurar o ferimento em seu braço. Para isso, ela se abriga na cabana abandonada e usa o anzol como agulha de costura. A iluminação aplicada à cena e o movimento da câmera tornam o ato menos impactante aos olhos do espectador – que mesmo assim, ainda sente o desconforto desse “Do It Yourself” (faça você mesmo) doloroso.
Apesar do roteiro colocá-la em situações constrangedoras, a interpretação de Emma Thompson é mesmo impressionante. Um exemplo perfeito desse choque de contradições é quando Barb encontra dois homens armados e os três decidem retornar à cabana para resgatar a menina. Entretanto, o desfecho dessa tentativa de resgate é frustrado por uma atitude pra lá de desastrosa, ainda mais se tratando de um caçador, ou melhor, dois caçadores – o que é mais estúpido ainda.
Apesar da competência de Emma Thompson, que permite que ela se adapte às instabilidades da história, os objetivos tanto de sua personagem e da antagonista com o seu inseparável pirulito de fentanil, não as levam a lugar algum. A produção deixa de aproveitar o potencial das duas atrizes, que estão seguras em suas atuações, para colocá-las, no final, em uma luta corporal (e escorregadia), na qual elas acabam tragicamente abraçadas, demonstrando desenvoltura corporal. A promessa de espalhar as cinzas do marido é cumprida de maneira poética, mas dramaticamente enfadonha.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidade sobre O Frio da Morte
- Embora o filme se passe no norte de Minnesota, nos EUA, ele foi, na verdade, filmado quase inteiramente na Finlândia. Emma Thompson elogiou a equipe finlandesa por sua habilidade e eficiência;
- A personagem Purple Lady, interpretada por Judy Greer, é frequentemente vista com pastilhas de fentanil, aplicadas na parte interna da bochecha como um pirulito, saindo grotescamente de sua boca. É uma representação visual de seu uso de drogas e da origem de seus problemas de saúde, como o sangramento nasal mencionado no guia para pais do filme;
- A jovem Barb é interpretada por Gaia Wise, filha de Emma Thompson;
- Originalmente, Sharon Stone estava escalada para estrelar o filme;
Ficha técnica
Diretor: Brian Kirk.
Roteiro: Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb.
Produtores: Elizabeth A. Bell, Jon Berg, Quirin Berg, Chris Bosco, Max Conradt, Anna Diehl, Jonathan Diehn, Klaus Dohle, Cloé Garbay, Samuel Hall, Holger Härtl, Nijat Heydarov, Tale Heydarov, Oana Iancu, Laurent Jacobs, Jonas Katzenstein, Maximilian Leo, Stéphane Lhoest, Krish Menon, Michael Rothstein, Jonathan Saubach, Doris Schrenner, Greg Silverman, Bastien Sirodot, Simon B. Stein, Emma Thompson, Meri-Tuuli Varis, Timo Vierimaa, Cosima von Spreti, Lennart Wemcken, Max Wiedemann e Gideon Yu.
Diretor de fotografia: Christopher Ross.
Editor: Tim Murrell.
Direção de arte: Samuel Jaeger, Hubert Pouille e Sattva-Hanna Toiviainen.
Figurino: Natalie Humphries.
Cabelo e maquiagem: Tamar Aviv, Kerstin Buss, Naomi Donne, Miriam Hübner, Christina Neuss, Katrin Paas, Iida Rajaviita, Heiko Schmidt e Tytti Vaaleri.
Música: Volker Bertelmann.
Elenco: Emma Thompson, Judy Greer, Marc Menchaca, Laurel Marsden, Gaia Wise, Cúán Hosty-Blaney, Dalton Leeb, Paul Hamilton, Lloyd Hutchinson e Brían F. O’Byrne.


