Resenha Crítica do Filme Oficina do Diabo (2025, Filipe Valerim)

Com o filme “Oficina do Diabo” (2025), a Brasil Paralelo estreou sua primeira produção de longa-metragem. A história foge totalmente do tema secular, como o período da ditadura militar no Brasil, pano de fundo explorado por enredos cinematográficos de filmes premiados internacionalmente, como os dois últimos: “Ainda Estou Aqui”, de 2024, dirigido por Walter Salles, e “O Agente Secreto”, lançado em 2025 e dirigido por Kleber Mendonça Filho. No caso deste filme do BP, a história se passa na década de 1960 e trata-se de um drama psicológico cujo enredo central é uma batalha espiritual inspirada na obra “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”, de C. S. Lewis.


A luta retratada na história de “Oficina do Diabo” acontece desde antes da criação da humanidade, no plano metafísico (transcendente), que excede as fronteiras do mundo físico e material. Trata-se, portanto, da guerra espiritual que enfrentamos todos os dias, mesmo que inconscientemente. Essa luta incessante contra as astuciosas forças espirituais do mal, que se manifestam por meio das tentações do mundo e nos levam ao pecado, mostra o quanto o demônio é paciente e capcioso diante de atitudes como a apostasia e, consequentemente, o desprezo pela Lei de Deus.

Com direção de Filipe Valerim e roteiro escrito por ele em parceria com Elton Mesquita, o longa-metragem marca a estreia da Brasil Paralelo na produção de filmes de ficção. A trama acompanha o ambicioso jovem demônio Natan (Felipe de Barros) em uma empreitada para condenar uma alma ao inferno, tendo como orientador o demônio mais velho e experiente Fausto (Roberto Mallet). A alma escolhida para sucumbir às tentações do demônio é a de Pedro (Sérgio Barreto), um jovem músico talentoso que, devido aos altos e baixos em vários aspectos de sua vida, se torna um alvo perfeito para as ciladas planejadas por esses dois demônios.

Enquanto Maria e seu filho Pedro caminhavam rumo à missa na igreja, os demônios Natan e Fausto os seguiam de perto.
No caminho para a missa, Pedro e Maria são seguidos pelos demônios Natan e Fausto, que, enquanto caminham, orquestram o que pode ser feito para atrair Pedro para o mal de maneira sorrateira, sem que ele perceba.

Antes do título do filme aparecer no centro da tela, o ator, diretor, professor de teatro e filósofo brasileiro Roberto Mallet, caracterizado como seu personagem icônico, o demônio Fausto, narra a trajetória de um homem desesperado pendurado na beira de uma ponte, aguardando o momento certo de se jogar na frente do trem. De longe, sob a penumbra da noite, caminha de encontro daquele pobre ser, prestes a ouvir o sussurro da morte, o misterioso homem das trevas, fumando um cigarro e descrevendo seu papel na arte e na ciência de condenar uma alma ao inferno. A cena demonstra como o demônio está sempre à espreita de uma oportunidade para atacar uma alma distante dos ensinamentos de Jesus e da guarda de seus mandamentos.    

A destruição de uma alma sob a influência de um demônio é demonstrada da pior maneira possível, como no início da história, com a paciência demoníaca de Fausto, que aos poucos traz o coração e a alma de Pedro para as trevas de sua morada. Pedro encontra-se em uma vida mundana repleta de mentiras, falsos prazeres e más companhias, entre elas a namorada, Clarissa (Erika Eremenko), uma menina esnobe cuja ambição vira ganância e arrogância. Tudo isso facilita o trabalho do veterano demônio.

A história se debruça sobre a vida desse jovem estudante com futuro promissor na música. Após uma apresentação virtuosa, nas vésperas de uma prova, ele caminhava pela calçada com a namorada quando dois homens, que haviam assistido ao seu show, o pararam para elogiá-lo e entregar-lhe um cartão de uma gravadora. Um dos homens lhe desejou juízo, pouca farra e muito estudo. Antes de ser abordado na rua, Clarissa, sua namorada, o convidou para ir ao bar, mas ele recusou, alegando que tinha prova na manhã seguinte. Porém, com o cartão de visita da gravadora em mãos, ele aceitou o convite, mostrando o cartão e dizendo que seu futuro já estava garantido.

No bar, em companhia de Clarissa e de mais um casal de conhecidos, todos brindam com suas bebidas e riem, até que Pedro começa a ser tratado pela sua companhia como se fosse um capacho.  As críticas começam a ser feitas por causa de um dos motivos que o fizeram mudar de ideia e estar naquele ambiente: a gravadora. Ela diz que, se não for uma PolyGram ou Continental (gravadoras de sucesso da época), nem bom dia eles dariam. Outra crítica é direcionada à roupa do pobre rapaz, que, segundo ela, precisa se vestir melhor e ser menos brega. Ela também fala mal do cordão com as placas de identificação de soldado (dog tag) gravadas com o nome do pai. Quando a conta chega, Pedro se oferece para pagá-la sozinho, mesmo sem ter dinheiro suficiente. Enquanto isso, ao lado deles, sentado junto ao balcão do bar, estava o jovem demônio Natan, no início de seu trabalho para dominar a alma de Pedro.

Ao regressar à sua terra natal em uma manhã de nevoeiro intenso, Pedro é recebido na estação de trem com um abraço de seu fiel amigo Davi (Rafael Senatore). Juntos, eles caminham até a casa de Pedro. Durante o trajeto, Pedro confessa a Davi que perdeu todo o dinheiro da mãe em besteiras. Para piorar a situação, ele também deixou escapar a bolsa de estudos dos seus sonhos, e a mãe ainda não sabia de nada. Pedro não fazia ideia de como contar essa história de desgosto à mãe. Davi é um amigo virtuoso e religioso que vai ajudá-lo a encontrar o caminho certo novamente, mesmo sendo motivo de piada ao dizer que a vida do amigo é a Parábola do Filho Pródigo.

A conversa com a mãe, Maria (Elizângela), acontece na cozinha, enquanto ela lava a louça e ele toma café da manhã à mesa, depois de acordar tarde. Ela o instrui a procurar um amigo que o aguarda para mostrar como é o trabalho na mercearia. Assim, pelo menos, ele estaria trabalhando e ganhando dinheiro. Depois, ele poderia pensar em fazer outro trabalho, como dar aulas de violão, para ocupar a cabeça, pois “mente vazia, oficina do diabo”. Porém, com o demônio à espreita, observando aquela conversa, ele logo introduz confusão e desordem no relacionamento entre mãe e filho, até escalar para atitudes que não condizem com a educação dada pelos pais.

No meio dessas demonstrações de indolência de Pedro em relação ao trabalho e de ingratidão com o que a mãe lhe oferece com amor e simplicidade, os demônios estão sempre próximos a ele, arquitetando seus próximos passos e o influenciando para o mal. Entre uma cena e outra, em que atitudes tanto para o bem quanto para o mal são postas em prática pelos personagens da trama, o diretor corta para um ou para os dois demônios, que comentam sobre determinada ação praticada, demonstrando como nossas atitudes podem facilitar a meta deles de possuir a alma de uma pessoa do bem.

O experiente demônio Fausto e seu protegido, Natan, comentam sobre o início desastroso do trabalho do novato com Pedro, que começa a ter pequenos atritos com a mãe.
O experiente demônio Fausto supervisiona o novo funcionário, Natan, e faz algumas observações sobre a bagunça deixada pelo subalterno. Ao fundo, Pedro e sua mãe, Maria, têm um pequeno desentendimento sobre o futuro dele.

A história de “Oficina do Diabo” coloca Pedro diante de pessoas, filosofias e outras armadilhas impostas pelo Diabo, que tem o intuito de sempre confundir e aliciar a alma humana — como faz a todo momento, inclusive neste em que você lê. Sai pra lá, encardido! Por menor que seja, qualquer ato de orgulho contra um semelhante basta para incentivar a ação do mal. Trata-se de uma influência negativa que pode se disfarçar até mesmo em uma narrativa à primeira vista inocente e sem pretensão. Esses meios são muito bem apresentados neste longa-metragem de estreia da produtora Brasil Paralelo. O roteiro, escrito por Elton Mesquita e Filipe Valerim, é inspirado em um clássico da literatura cristã escrito por C. S. Lewis. Assim, o script segue muitos valores cristãos que, quando vistos em cena, podem ser interpretados como mais um clichê do gênero por contar apenas uma história na qual a presença da fé em Jesus Cristo é o caminho necessário para a redenção e a busca pela salvação eterna.

A maneira como “Oficina do Diabo” mostra as ferramentas utilizadas pelo demônio para aliciar a alma humana de maneira quase imperceptível, até mesmo por meio da própria Igreja, com sacerdotes ligados à Teologia da Libertação, que, em suas homilias e pregações, abolem todo o sentido anagógico, a transcendência da fé, tudo o que é místico e espiritual, e que tem o olhar voltado para o céu, chegando até mesmo a negar a Eucaristia, que é a presença real de Jesus sobre o pão e o vinho, por obra do Espírito Santo, realizando uma transformação ontológica no ser.

Outro exemplo é a influência negativa de Ariadne (Jessica Vasconcelos) na vida de Pedro. No entanto, ela é rapidamente esquecida assim que ele conhece a garota do coral da igreja, uma mulher cujos valores morais cristãos serão de grande importância para o futuro dos dois. A partir de então, seu caminho para Deus ganha um reforço que o ajudará nos aspectos profissional (nas aulas de violão), familiar (com a aproximação da mãe) e, principalmente, espiritual. Os demônios enfrentam ainda mais dificuldade para tê-lo ao seu lado no inferno, um lugar de confusão, ruído e cacofonia, um eterno caos.

Além de contar com a companhia de Sara (Bela Tortato) como uma nova esperança para construir uma vida a dois centrada na família, Pedro conta com a influência e a fé de sua mãe, Maria (Elizângela), e de seu grande amigo Davi. Essas três pessoas exercem papéis importantes na busca do jovem músico para sair dessa confusão espiritual, que o transforma em uma pessoa irreconhecível aos olhos daqueles que o conheceram em sua essência, pois sua personalidade diante desses conflitos morais tende a mudar para melhor, graças às orações diárias de sua mãe e aos conselhos do amigo e de sua futura esposa.

A direção de fotografia de André S. Brandão é um dos pontos altos de “Oficina do Diabo”. A escolha técnica de utilizar lentes anamórficas durante as filmagens confere ao filme uma qualidade cinematográfica hollywoodiana, intensificando o drama da história, apesar das dificuldades enfrentadas em cenas que exigem maior movimentação e em espaços confinados. A atmosfera carregada de sombras e névoa retrata o cenário do interior do Brasil na década de 1960, com um impacto emocional forte ao enredo. Outro elemento que contribui para a qualidade artística do filme são a produção e o figurino, ambos condizente aos período retratado na produção.

A famosa e experiente atriz Elizângela tem um papel de grande impacto na vida do personagem principal; sua presença em cena traz carisma e um forte apelo emocional à trama. Infelizmente, após o término das gravações, ela deixou as telas para sempre, vítima de uma parada cardiorrespiratória aos 68 anos. O primeiro filme de ficção (longa-metragem) produzido pela Brasil Paralelo marcou o último trabalho de interpretação da atriz Elizângela, cujo lançamento foi realizado de forma póstuma. 

O filme brasileiro “Oficina do Diabo” faz o espectador refletir diante da guerra espiritual que sempre existiu entre os seres de alma — como você, como eu e como todos os nossos semelhantes — e o demônio, um ser que se faz presente na realidade e que deve ser sempre combatido com oração, por exemplo a recitação do Rosário, pedido feito por Nossa Senhora em suas aparições históricas em Fátima, no ano de 1917, aos três pastorinhos: Lúcia, Francisco e Jacinta; vigilância moral, como evitar o pecado, viver os mandamentos, praticar a caridade e a compaixão; e a vida sacramental. Com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a nossa fé estará ainda mais forte para, sem medo, sem desespero e sem omissão, combater diariamente o demônio.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico: 4 estrelas (ótimo)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "Oficina do Diabo" (2025).

 

Curiosidade sobre Oficina do Diabo

  • Último filme da atriz Elizângela, falecida em 3 de novembro de 2023;
  • Estreia no cinema de Sergio Barreto;
  • O plano inicial era produzir uma série curta de esquetes, mas o enredo cresceu tanto durante o processo criativo que a equipe decidiu transformá-lo em um filme em formato de capítulos;
  • A obra foi realizada sem nenhum tipo de recurso ou financiamento de dinheiro público, custeada inteiramente com o apoio dos assinantes da plataforma;
  • Muitas cenas externas e a atmosfera dramática foram gravadas em Paranapiacaba (SP) e em cidades do interior paulista, como Atibaia;
  • A sequência final ambientada em um trem e uma invasão a uma rádio exigiram grande esforço técnico e uso de lentes anamórficas em plano-sequência com espaço reduzido;
  • A participação da consagrada atriz Elisângela foi tratada com grande entusiasmo pela equipe de produção nos bastidores;
  • O padre Paulo Ricardo elogiou publicamente o longa por retratar de forma sutil e realista as estratégias da tentação cotidiana no lugar de clichês fantasiosos;
  • O filme chamou atenção nas redes sociais por alcançar altas avaliações iniciais de usuários em plataformas especializadas em cinema logo após a estreia;
  • É o primeiro filme de ficção e longa-metragem produzido pela Brasil Paralelo.

 

Ficha técnica

Diretor: Filipe Valerim.
Roteiro: Elton Mesquita e Filipe Valerim.
Produção: Isabela Resende.
Direção de Fotografia: André S. Brandão e Rodrigo Prata.
Editor: Filipe Valerim.
Direção de Arte: Leonardo Barreto.
Efeitos Especiais: Valter Carrasco e Valter Vieira Carrasquinho.
Música: Iuri Cunha.
Elenco: Roberto Mallet, Felipe de Barros, Sergio Barreto, Elizângela, Felipe Folgosi, Rafael Senatore, Ari Willians, Jessica Vasconcelos, Carlos Freitas, Paulo Guilarducci, Filipe Valerim, Elton Mesquita, Andrea di Maio, Erika Eremenko, César Almir, Ari Willians e Bela Tortato.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima
Leia e Assista
Políticas de privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.