Resenha Crítica do Filme A Morte de Robin Hood (2026, Michael Sarnoski)

Trata-se de uma narrativa cinematográfica totalmente diferente daquela a que estamos acostumados sobre o herói britânico fora da lei que roubava da nobreza e do clero para dar aos pobres. Esqueça essa descrição, pois, nesta releitura do diretor Michael Sarnoski, “A Morte de Robin Hood” (The Death of Robin Hood, 2026) narra a sombria história de um homem idoso cuja trajetória é marcada por extrema violência e crimes hediondos contra mães, mulheres e crianças, em uma jornada repleta de sangue e morte. Seu corpo exibe sinais de violência extrema, resultado de embates de vida ou morte quase sempre em um lamaçal, movidos pelo ódio impiedoso de um homem cruel.


Diante de todo o seu histórico de vida, carregado de dor e sofrimento, e dos inúmeros assassinatos cometidos por ele, que vive à margem da lei, fugindo da vingança de parentes e aliados de suas vítimas, sua consciência começa a sofrer com o fardo de tantas vidas aniquiladas em sua caminhada solitária. Enquanto vive no exílio autoimposto entre vales escuros e montanhas nebulosas, o velho Robin Hood (Hugh Jackman) se envolve em uma sangrenta batalha final, na qual é gravemente ferido, caindo em agonia no lamaçal sob seus pés. Essa luta brutal acontece após ele tentar ajudar seu fiel companheiro, Little John (Bill Skarsgård), a resgatar a família dele (esposa e filha) das mãos de homens perversos, além de tentar salvar as terras que foram atacadas com fogo por esses mesmos homens que buscam vingar a morte de seus parentes pelas mãos desses dois assassinos.

Little John e Robin Hood caminham lado a lado, após o reencontro dos companheiros de longa data.
Robin caminha ao lado de seu companheiro mais antigo e leal, a quem chama de Little John. Para não ser reconhecido por aqueles que querem se vingar de suas atrocidades, ele se identifica como um fazendeiro chamado Edward.

Little John usa a identidade falsa de Edward, um fazendeiro. Ele resgata o amigo, que está brutalmente ferido, e o leva ao priorado insular de Saint Clement (São Clemente), um refúgio cercado por ordem e paz, onde ele terá a chance de curar não só as feridas do corpo, mas também as da alma. Robin Hood é recebido e acolhido no local sagrado por Irmã Brigid (ou Priora Brigid), interpretada por Jodie Comer. Ao ser deixado na casa religiosa, Robin começa a esconder sua verdadeira identidade, adotando o nome Randolph, assim como seu colega, pois ambos estão sendo caçados por homens sedentos de justiça pela morte cruel de seus familiares.

Sendo a Irmã Brigid uma prioresa e curandeira responsável pela liderança do priorado (mosteiro) insular (relativo a uma ilha), ela inicia o tratamento dos ferimentos espalhados pelo corpo de Robin Hood, que permanece na ilha. Assim que o protagonista é acomodado em um dos leitos da comunidade religiosa cristã, enquanto descansa em recuperação, um personagem chamado de “O Leproso” (Murray Bartlett) entra no quarto e lhe faz duas perguntas: se ele pretende fazer mal a alguém do priorado e se algum mal virá até o lugar por causa de sua presença. O homem ferido, que está em repouso, responde não às duas perguntas.

A rotina da priora Brigid é tranquila, ela possui uma fisionomia leve e aparentemente tem uma presença angelical, sua dedicação também se estende aos estudos. Ela e o novo hóspede se aproximam durante os encontros, passeios e caminhadas pela floresta ao redor do priorado, assim como durante as conversas à luz da fogueira. Esses momentos permitem que eles conheçam a história um do outro, criando assim uma relação de confiança. A presença da mulher cristã representa um caminho de perdão e paz na vida de Robin, o arqueiro idoso que enfrenta seus próprios demônios por causa de seu passado violento e dos crimes que cometeu.

Apesar de Brigid se comportar de maneira passiva diante desse homem, que esconde um passado repleto de ações cruéis, os últimos dias dele no mosteiro revelarão uma relação complexa e nuances misteriosas, a partir do momento em que ele acaba por desmascarar sua identidade falsa, identificando-se como Robin Hood. É então que o caminho dos dois se cruzam e se chocam surpreendentemente com o trágico passado da priora devido aos crimes bárbaros cometidos por Robin Hood. Nele, seu marido e seus filhos foram assassinados, pois a porta da casa em chamas fora trancada para que todos dentro dela morressem.

Diante dessa verdade nua e crua, ou melhor, cruel, Brigid diz a Randolph (Robin Hood) que está tudo bem e que ele pode ficar, mas, para isso, será preciso que ele cuide do pomar. Ele diz, no entanto, que não é agricultor, e ela o questiona se sabe caçar. Ele responde que sabe, mas ela rebate que, com sua situação física, ele não conseguirá nem armar o arco. Ele, então, responde veementemente que conseguirá armar o arco e também as armadilhas. A chegada de Little Margaret (Faith Delaney), filha de Little John, ao mosteiro é mais um reforço na jornada de Robin Hood em busca da redenção. A sinceridade e a ternura com que a criança se aproxima dele são uma fonte de esperança para a paz de espírito de que ele tanto precisa em sua jornada pessoal, mesmo que pareça tarde demais para alguém cuja vida está marcada pela morte eterna.

Seu próximo encontro é com um homem leproso, que o surpreende na praia enquanto tenta empurrar um barco da areia para o mar. Entre eles, nasce uma forte amizade, e seus encontros são sustentados por longas conversas, muitas delas descontraídas. A química entre os personagens é instantânea. Nos minutos que antecedem a chegada da morte, o homem leproso também expõe sua identidade e revela que seu nome é Guy de Gisborne. A partir de então, descobre-se que ele é um antigo adversário de Robin Hood. Por um milagre divino, sua amizade com um indivíduo marginalizado se transforma em um acerto de contas pela via do amor e da misericórdia. Isso resulta em perdão mútuo e, consequentemente, paz de espírito. Esse mesmo homem moribundo pede, em seu leito de morte, que Robin cuide do pomar até o seu último dia na Terra, sirva a prioresa e as pessoas que vivem no priorado — incluindo as que já vieram e as que ainda virão — e lhe prometa, nesses anos bons e pacíficos, nunca dizer à Irmã Brigid quem ele realmente é.

Sob a luz de velas, Irmã Brigid, Little Margaret e Robin Hood se reúnem para jantar como se fossem uma família.
Em um momento de paz e prosperidade, Irmã Brigid, Little Margaret e Robin Hood compartilham um jantar simples à luz de velas, unidos como uma família.

A mudança no comportamento de Robin é percebida gradualmente em suas relações pessoais com aqueles que dividem o mesmo ambiente. Em vez de buscar a morte, ele começa a ensinar e a orientar os mais jovens com base no que aprendeu, compartilhando o que é bom e o que é ruim. Ele ensina, por exemplo, a Little Margaret a armar um arco e a atirar flechas com precisão, seja para se defender ou caçar. Ele também transmite o que aprendeu com os próprios erros, ensinando, por exemplo, que não se deve buscar vingança quando alguém da família é assassinado, pois se trata de um ciclo que só acaba quando a última pessoa envolvida morre.

Esse último conselho é dado ao jovem Arthur (Noah Jupe), o último membro sobrevivente da família Hendrie, que estava em busca de vingança pelos atos violentos e mortes cometidos por Robin Hood no passado. Após ser forçado pelo próprio Robin a admitir sua verdadeira identidade (Godwyn), Arthur é convencido a desistir da vingança e ordenado a retornar imediatamente à companhia da família, dizendo que todas as dívidas de sangue estão pagas. Por trás dessa atitude, nota-se uma mudança de mentalidade para o bem, pois Robin age piedosamente com um rapaz inocente que está revoltado com a barbárie cometida contra seus familiares. Diante dos conselhos, nota-se um arrependimento vindo de um coração dilacerado e de uma alma ferida por ter as mãos sujas de sangue humano. Robin oferece a Godwyn a chance de recomeçar a vida ao lado da família e de evitar que a culpa pela morte de alguém o consuma para sempre. Isso mostra um Robin Hood em processo empírico de conversão e redenção.

De volta ao priorado, ele deixa de cumprir apenas um pedido do homem leproso, feito pouco antes de sua morte: não revelar à Irmã Brigid sua verdadeira identidade, a de um monstro chamado Robin, o Bandoleiro, como ele mesmo se denomina. Ao revelar os seus pecados e viver uma vida diferente, ele encontraria a paz. No entanto, ao fazer essa confissão, Brigid revive todo o trauma de ter testemunhado a morte de sua família e se sente profundamente decepcionada com o homem que acolheu e em quem confiou. Em um dos momentos em que a Irmã Brigid prepara a sangria de Robin, ele hesita e pensa em deixá-lo sangrar até a morte para vingar a tragédia que destruiu sua família e sua vida. No entanto, ela não o faz.

Brigid descreve, com tristeza, a cena de terror que se apresenta quando as chamas do incêndio criminoso, ateado por Robin e seu bando, cessam, revelando o que sobrou de sua família. Atormentado por suas ações passadas e por visões terríveis, Robin, que agora tem consciência de seus atos, convence Brigid a não estancar o ferimento de onde jorra sangue. Enquanto ele esconde o braço ensanguentado debaixo do lençol, um clima melancólico toma conta da cena, que termina com ele na companhia da misericordiosa priora Brigid e de Little Margaret. A filha de seu amigo é aconselhada a nunca revelar o nome do pai para ninguém, para que o ódio das pessoas pelo que ele fez não se volte contra ela. Sob os cuidados de Brigid, Robin entrega a corda do arco à menina. Ela arma o arco com uma flecha, pronta para ser disparada pela janela do cômodo, conforme a orientação do arqueiro, sereno em suas últimas palavras e no fim de sua vida.

Escrito e dirigido pelo cineasta Michael Sarnoski, o filme “A Morte de Robin Hood” contempla, em seu primeiro ato, cenas de intensa aventura protagonizadas por um impiedoso e sanguinário Robin Hood, que segue sem rumo com a faca entre os dentes. Nessa parte, o espectador presencia muita ação e violência medieval em um nível brutal. Nos dois atos seguintes, há um momento de introspecção e contemplação do personagem central, interpretado de maneira singular por um irreconhecível Hugh Jackman. Ele busca uma forma de se redimir de seus terríveis atos em uma trama na qual predomina o drama psicológico. 

A direção de fotografia de Pat Scola imerge a história em uma textura crua. As cenas externas são iluminadas por uma luz natural predominantemente sombria e funesta, evidenciando o clima melancólico de paisagens rurais frias, com resquícios de chuva e solo coberto de lama. Já nas cenas internas, prevalecem sombras causadas por luzes de velas, muitas vezes em contraste com a luz do dia ou da noite. A essa cinematografia, estruturada em um visual de época, soma-se uma trilha sonora medieval de autoria britânica, composta pelo músico folk Jim Ghedi. Os arranjos acústicos sombrios se unem às letras poéticas antigas, cuja força da melodia e o poder da palavra resultam em canções poderosas que conferem maior dramaticidade às imagens. Há também baladas folclóricas medievais que imergem o espectador no clima da narrativa.

Essa desconstrução da imagem de Robin Hood evidencia a beleza de um homem que verdadeiramente se arrepende dos pecados cometidos em um passado marcado por maldade, violência e morte. A história original, de roubar dos ricos para dar aos pobres, mascara o crime de roubo — uma ação oriunda de uma pessoa má — e o apresenta como uma atitude boa, apenas por “ajudar” os menos favorecidos financeiramente. Essa imoralidade é totalmente contrária à atitude de um homem que ajuda o próximo de maneira honesta, sem prejudicar ninguém. Infelizmente, a busca por redenção esbarrou na entrega do bem maior de Robin à morte, pois a vida é um dom sagrado que pertence apenas a Deus.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico: 4 estrelas (ótimo)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "A Morte de Robin Hood" (2026).

 

Curiosidade sobre A Morte de Robin Hood

  • Este é o primeiro filme de Michael Sarnoski rodado inteiramente em película de 35 mm. “Um Lugar Silencioso: Dia Um” (2024) foi filmado de forma híbrida, utilizando a Alexa 35 e câmeras de película;
  • Russell Crowe, amigo próximo de Hugh Jackman e seu colega de elenco em “Os Miseráveis” (2012), também interpretou uma versão do personagem-título em “Robin Hood” (2010);
  • Jodie Comer e Hugh Jackman atuaram no “Free Guy – Assumindo o Controle” (2021);
  • Hugh Jackman e Bill Skarsgård atuaram em um filme do Deadpool. Jackman atuou em “Deadpool & Wolverine” (2024) e Skarsgård teve uma participação especial em “Deadpool 2” (2018);
  • Noah Jupe estrelou “Um Lugar Silencioso” (2018) e “Um Lugar Silencioso: Parte II” (2020). Michael Sarnoski dirigiu “Um Lugar Silencioso: Dia Um” (2024);
  • A partir do momento em que a Irmã Brigid inicia a sangria final, Robin conta a história de como conheceu Little John. Seu relato é uma reprodução cena a cena de “Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões” (1991).

Ficha técnica

Diretor: Michael Sarnoski.
Roteiro: Michael Sarnoski.
Produção: Alexander Black, Hugh Jackman, Aaron Ryder, Andrew Swett, Rama Gottumukkala, Mark Huffam, Arlen Konopaki, Charles Miller, Janine Modder, Jon Rosenberg, Michael Sarnoski, Paul Barry, Hannah Shipley e Stefan Sonnenfeld.
Direção de Fotografia: Pat Scola.
Editor: Andrew Mondshein.
Design de Produção: David Lee.
Figurino: Lorna Ó Ríordáin.
Cabelo e Maquiagem: Charlotte ‘Lotty’ Betts, Rebecca Butterworth, Zofia Doherty, Peta Dunstall, Adam Edwards, Dave Felstead, Sean Flanigan, Alana Fraser, Kelly Hunter, Magda Kulig-Baginska, Magda Kulig, Colum Mangan, Lois McIntosh, Clare Ramsey, Susie Redfern, Caroline Reynolds, Helen Rowe, Sunita Shaw, Caroline Sims, Pamela S. Westmore, Josh Weston e Sophia Weston.
Música: Jim Ghedi.
Elenco: Jade Croot, Hugh Jackman, Bill Skarsgård, Katie Breen, Fintan Shevlin, Michael Hanna, Andrew McCracken, Alfie Lawless, Faith Delaney, Noah Jupe, Clive Russell, Amy McElhatton, Maeve Connelly, Maggie Hayes, Richie Wilson, Elijah Ungvary, Jodie Comer, Murray Bartlett, Tabitha Smyth, Beau Thompson e Asher De Silva.

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