Resenha crítica do documentário John Candy: Eu Me Amo (Colin Hanks, 2025)

John Candy foi um comediante intenso em sua arte do riso, o ator tinha a capacidade de fazer as pessoas rirem por meio de personagens engraçados e ao mesmo tempo carismáticos, em alguns casos capazes também de emocionar o público. Vai me dizer que você não sentiu o coração apertado ao vê-lo na pele do vendedor Del Griffith em “Antes Só do que Mal Acompanhado” (1987)? A intensidade do ator vista em seus personagens foi marcada por uma atuação humana e a aparente simplicidade na arte da interpretação foi capaz de despertar o riso e o choro ao mesmo tempo.


Colin Hanks faz a mesma coisa ao dirigir o documentário “John Candy: Eu Me Amo” (John Candy: I Like Me, 2025), por meio de imagens raras, entrevistas e registros inéditos o espectador vai se emocionar frente a este documento carregado de múltiplos sentimentos, inclusive a nostalgia. Infelizmente nem tudo o que se vê aqui vai deixar você com um sorriso no rosto, a emoção vai abrir espaço ao ser revelada a “lágrima do palhaço”, o lado conhecido até então somente pelo próprio John Candy e em alguns casos percebido pela esposa e amigos mais próximos.

John Candy com as mãos erguidas ao lado do rosto em uma expressão de surpresa. Ele era gigante como comediante.
John Candy foi sinônimo de comédia durante a década de 1980. Um ator e comediante do primeiro escalão do cinema que alegrava quem estivesse trabalhando ao seu lado ou assistindo aos seus filmes. Um grandalhão bem quisto e amado pela família, parentes, amigos e também os estranhos.

Um rosto presente em vários momentos ao longo deste documentário é do ator, humorista e amigo, Bill Murray. É o veterano da comédia que abre os testemunhos quanto a vida e a obra do inesquecível John Candy. Diante dos depoimentos de tanta gente famosa e relevante no meio do humor, nenhuma palavra sequer contra a pessoa de Candy é registrada nesta produção, ninguém teve nada de ruim para falar contra a integridade moral do personagem real a que se dedica este documentário dirigido pelo filho de Tom Hanks. Aliás, este é outro grande nome do cinema que narra sobre a experiência de protagonizar o filme “Splash: Uma Sereia em Minha Vida” (1984) ao lado de John Candy, produção responsável por catapultar de uma vez por todas ao estrelato a carreira do coadjuvante em ascensão na comédia cinematográfica.

Além dos depoimentos da esposa de John, Rose Candy, os filhos Chris Candy e Jennifer Candy-Sullivan; parentes e amigos de infância; outros a darem à língua para registrar seus depoimentos divertidos de bastidores das filmagens ao lado de John são Steve Martin, Dan Aykroyd, Dave Thomas, Martin Short, Eugene Levy, Andrea Martin, Robin Duke, Catherine O’Hara e Don Lake; os diretores Mel Brooks (‘S.O.S. – Tem um Louco Solto no Espaço’, filme lançado em 1987) e Chris Columbus (‘Esqueceram de Mim’, filme de 1990 e ‘Mamãe Não Quer que Eu Case’, lançado no ano seguinte, em 1991) também recordam passagens memoráveis do grande ator em suas produções.

Até uma versão animada de si mesmo foi lançada de 1989 a 1990: “Camp Candy”. A série de televisão animada tinha como personagem principal o próprio John Candy (dublado por ele mesmo), onde ele é o administrador de um acampamento de verão. Ao todo foram lançadas três temporadas com um total de 40 episódios produzidos ao longo de 1989 a 1990. Baseado nesta animação, uma série de quadrinhos homônima foi publicada pelo selo extinto da Marvel Comics, Star Comics.

Já que escrevi um pouco sobre a empreitada de John ao universo infantil, um dos depoimentos vistos em “John Candy: Eu Me Amo” que retrata a paciência e o espírito generoso do imenso coração Candy, foi gravado pelo ator Macaulay Culkin – hoje um homem adulto com seus 45 anos. Sua fala remete à época em que engatinhava no cinema aos 8 anos de idade, rumo ao estrelato infantil como o sobrinho do tio Buck (personagem icônico de John Candy), Miles Russell, na comédia peculiar “Quem Vê Cara Não Vê Coração” (1989). M. Culkin recorda de como John foi solícito com o jovem aprendiz durante a leitura do roteiro em que ambos contracenaram, a orientação do experiente ator ao novato deu maior dinâmica e ritmo acelerado à cena do filme de John Hughes – diretor considerado precursor do “cinema adolescente” durante a década de 1980 e início de 1990.

Outro relato descrito na biografia é sobre a parceria entre os John’s, o Hughes e o Candy. Além da parceria em filmes, os dois desenvolveram uma amizade de fazer inveja ao relacionamento entre irmãos de sangue. Segundo relato da família Candy, eles tiveram uma amizade nutrida pela admiração mútua entre eles, as famílias passavam férias juntas, tanto na fazenda de Hughes quando na de Candy, eram realmente almas gêmeas apaixonadas. Uma amizade real de sucesso dentro e fora do convívio profissional, uma parceria digna de um filme de sucesso.

Chris Columbus, John Candy e John Hughes. Candy e Hughes eram como almas gêmeas, os dois tinham um senso de humor absurdo e viviam um amor de irmão.
Chris Columbus, John Candy (o que é isso!) e John Hughes (tira a mão daí, rapaz!). Candy e Hughes eram como almas gêmeas, os dois tinham um senso de humor absurdo e um certo faro para sacanagem, esta última dita por Columbus. Os John’s não toleravam falsidade e viviam um sentimento de amor como o de irmão para irmão.

Infelizmente, nem só de glórias e alegrias a vida é constituída. Chega um momento em que a fama e o sucesso cobram um preço alto e muitas vezes cruel. Pode parecer clichê, entretanto, é a realidade nua e crua vinda à tona na vida do comediante John Candy, assim como na de outros inúmeros artistas ligados à indústria do cinema. Tanto glórias quanto fracassos fizeram parte da carreira do homem sensível e que carregava sozinho um peso enorme (literalmente) – sua sensibilidade foi atingida quando críticas relacionadas ao seu peso foram trazidas à tona – diante das câmeras ele mantinha um sorriso amarelado, quem o conhecia de verdade sabia que no fundo sofria um martírio sozinho e calado.

Enfrentando calado as indiretas quanto ao peso, Jhon travou uma luta sofrida contra o próprio corpo, ao mesmo tempo em que se sentia pressionado em ser sempre aquele cara legal e com o sorriso rasgado de orelha a orelha. Porém, nem sempre ele se sentia assim: o cara sorridente e suscetível aos gracejos jocosos contra sua aparência corpulenta. A indústria o queria grande não só no sucesso, mas também queriam ver esse tamanho todo em seu corpo sendo o cara gentil e responsável por alegrar e salvar o dia das pessoas.

Sentimentos ruins do passado, como a perda do pai aos cinco anos de idade, se somavam à ansiedade de John quanto ao medo de morrer jovem, como foi a morte do seu pai (Sidney James Candy) aos 35 anos. Esses anseios eram alojados em algum canto escuro da memória afetiva daquele sujeito bonachão, um homem gigante de coração e amado por muitos artistas da comédia.

Junto às decepções ligadas à aparência física, tinham traições – uma delas foi quando um de seus sócios (Bruce McNall) no comando do time de futebol americano do Canadá, o Toronto Argonauts, foi preso por fraude bancária – John o considerava uma das pessoas mais honestas de Hollywood. Essa foi considerada uma apunhalada dolorosa da qual abalou ainda mais a estrutura psicológica frágil de John Candy, pois ele era uma pessoa muito sensível. Sua vulnerabilidade foi atingida em cheio com os excessos cometidos por meio da comida, bebida e cigarros. Mesmo com a saúde degringolando, ele jamais deixava de colocar as pessoas a sua volta em primeiro lugar, principalmente sua família, a qual se dedicava na medida do possível (devido aos inúmeros compromissos profissionais) com muito cuidado e amor inquestionável.

John Candy foi um homem gigante, com um coração de ouro e engraçado, cuja grandeza se estendia imensamente à sua alma bondosa de cristão praticante da sua religião – foi acólito (coroinha) quando criança. A sua fé católica foi vista em mãos no dia em que deixou este mundo, após sofrer um ataque cardíaco fulminante que o levou para perto de Deus – ele foi encontrado sentado na beirada da cama com a Bíblia em mãos. Candy estava lendo quando faleceu na cama, estava buscando o próprio lar. A morte de John Candy se deu durante as filmagens de “Dois Contra o Oeste” (Wagons East!, 1994), em Durango, no México. John Franklin Candy foi o exemplo de um cara comum que se tornou um astro. Encerro esta minha resenha crítica com a última fala do documentário, dita por Macaulay Culkin: “Cavalo tem de monte por aí, mas é raro encontrar um unicórnio. Ele era uma criatura única que deixou uma marca especial na nossa alma”.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico: 4 estrelas (ótimo)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "John Candy: Eu Me Amo" (2025).

 

Curiosidades sobre John Candy: I Like Me

  • O título “I Like Candy” vem de uma de suas falas em “Antes Só do que Mal Acompanhado” (1987);
  • Mark Carney, primeiro-ministro canadense, compareceu à estreia no Festival Internacional de Cinema de Toronto 2025. Ele falou ao público, elogiando John Candy por enfrentar os valentões em muitos de seus papéis. Carney disse que haveria “uma cena em que John se rebelaria, depois de ter sido pressionado demais. Não levem um canadense ao limite.” Carney também disse: “Estamos em um mundo mais perigoso, dividido e intolerante. No Canadá, nossa soberania e nossa identidade estão sob ameaça. E quando os canadenses ouviram essas ameaças, eles canalizaram seu John Candy interior. Levantaram-se, ergueram os cotovelos e escreveram suas próprias falas.”;
  • John Candy contracenou em “Splash: Uma Sereia em Minha Vida” (1984) com o pai do diretor Colin Hanks, Tom Hanks. Embora não seja mencionado neste documentário, os dois atores também atuaram juntos em “Voluntários da Fuzarca” (1985) um ano depois.

 

Ficha técnica

Diretor: Colin Hanks.
Produtores: Jennifer Candy-Sullivan, Chris Candy, Rose Candy, Jennifer Grace Cook, George Dewey, Maren Domzalski, Ashley Fox, Meghan Geier, Patrick Gooing, Colin Hanks, Sydney Morin, Johnny Pariseau, Shane Reid, Ryan Reynolds, Sean M. Stuart, Aude Temel, Salomé Wouters e Glen Zipper.
Diretor de fotografia: Justin Kane.
Montagem: Shane Reid e Darrin Roberts.
Editorial: Luis Amaya, Ted Beck, Taylor Black, Evan Lewis, Rigoberto Madrigal, Lukas Neau, Dominick Rolandelli, Stefanie Schaldenbrand, Jessica Marcela e Phoenix Tuinei.
Efeitos visuais: Dominick Rolandelli.
Cabelo e maquiagem: Melissa Beck e Wren Witting.
Música: Tyler Strickland.
Elenco: John Candy, Bill Murray, Chris Candy, Jennifer Candy-Sullivan, Steve Aker, Rose Candy, Pat Kelly, Terry Enright, Ennio Gregoris, Tom Davidson, Rita Davidson, Catherine McCartney, Dan Aykroyd, Dave Thomas, Martin Short, Eugene Levy, Andrea Martin, Robin Duke, Andrew Alexander, Catherine O’Hara, Tom Hanks, Steve Martin, Conan O’Brien, Mel Brooks, Chris Columbus, Macaulay Culkin, Kelvin Pruenster, Don Lake, John Belushi, Valri Bromfield, Evangeline Candy, Jim Candy, Sidney Candy, Johnny Carson, Dick Cavett, John Chancellor, Charles Chaplin, Chevy Chase, Bob Dylan, Roger Ebert, Joe Flaherty, Jackie Gleason, Wayne Gretzky, Ron Howard, John Hughes, David Letterman, Ray Liotta, Peter Mansbridge, Bruce McNall, Marilyn Suzanne Miller, Rick Moranis, Eddie Murphy, Jack Nicholson, Joe Piscopo, Sydney Pollack, Harold Ramis, Carl Reiner, Steven Spielberg, Mary Margaret O’Hara e Ryan Reynolds.

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