A diretora simplesmente juntou fragmentos de filmagens capturadas pela câmera (bodycam) acoplada ao uniforme dos policiais, fez uma edição desleixada e classificou essa bagunça no documentário “A Vizinha Perfeita” (The Perfect Neighbor, 2025). Acredito que faltou a Geeta Gandbhir um distanciamento emocional (e pessoal) e se debruçar com imparcialidade para entregar um documento audiovisual sincero, aprofundado em ambos os lados, tanto da autora do crime, Susan Lorincz, quanto da vítima fatal, Ajike Owens.
Antes de tudo, meus profundos e sinceros sentimentos à família. Não faço ideia de como eles seguem enfrentando tamanha perda da jovem Ajike, principalmente para os quatro filhos. Pelo que se vê nas filmagens originais, Ajike foi uma mãe que protegeu os filhos com afinco até a morte, literalmente. Não há nenhuma demonstração maior de amor do que essa. No entanto, não existe dor mais dilacerante para os filhos do que testemunhar o corpo da mãe estirado no chão, morta com um disparo mortal no peito.
Este crime era previsível desde a primeira ligação de Susan solicitando a presença de uma viatura da polícia até a porta da sua casa. Era óbvio que em algum momento as agressões verbais iriam escalar para a violência física, pois toda essa balbúrdia perdurou por mais de um ano, paralelo às inúmeras ligações. A presença rotineira dos oficiais ao bairro não trouxe nenhuma solução eficaz para o desentendimento de Susan com a vizinhança. A ineficácia dos agentes da lei nas visitas protocolares, anunciava uma tragédia que aconteceria a qualquer momento.

Foram efêmeras as orientações e principalmente a conscientização de ambos os lados para que um acordo baseado em regras fosse estabelecido, o que talvez ajudaria na convivência e no respeito entre os vizinhos. Sem nenhuma das partes dar o braço a torcer, eles persistiram na ignorância quanto ao comportamento social. Sobre essa dinâmica caótica, repleta de erros evitáveis, foi se desenhando um desfecho trágico. A educação e o respeito ao próximo deu lugar ao orgulho e ao preconceito, a linguagem universal do diálogo pacífico foi ignorada em uma via de mão dupla, o que levou ao acúmulo de tensão, descarregada em um impulso de ódio violento e mortal.
As tentativas de evitar o estresse por meio de uma ação centrada na resolução do problema nunca foram de fato orientadas pelos agentes. O que se vê nas câmeras policiais é simplesmente uma conversa onde se escuta somente acusações de todos os lados, atitudes estúpidas que não levaram a lugar algum, muito menos ao entendimento comum entre as pessoas. Acredito que o problema entre eles tenha uma relação com o histórico pessoal, muitas vezes ligados à traumas do passado, em especial de Susan, uma vez que ela alega ter um passado de abusos sexuais e físicos.
Em uma pesquisa rápida, descobri – ao ler uma matéria da ABC News sobre a condenação de Susan – que esse suposto abuso sexual foi praticado pelo próprio pai de Susan, inclusive suas irmãs também eram vítimas. Aliás, uma das irmãs, Ellyn Lorincz, foi quem testemunhou essa violência traumática durante um depoimento concedido no tribunal, em uma das audiências. Outro que testemunhou sobre o estado mental da autora do crime foi um psicólogo, o profissional constatou o diagnóstico de “TEPT crônico” em Lorincz.
É inadmissível aceitar que alguém tire a vida de outra pessoa (resguardado à legítima defesa, caso sua vida ou a de outrem esteja em ameaça de morte). A compilação de filmagens classificadas como um documentário, contém uma edição negligente e tendenciosa, reforçada pela falta de transparência da própria diretora Geeta Gandbhir, ao revelar em entrevistas que sua cunhada era melhor amiga de Ajike Owens. Por que essa conexão não foi exposta no documentário?
Mais que revelar ao mundo a barbaridade de uma pessoa assassinada por motivos torpes, “The Perfect Neighbor” não deixa de militar – mesmo que subentendido nas entrelinhas – sobre a questão racial, principalmente quando o cenário onde acontece o crime é um bairro predominante negro, sendo que Susan Lorincz é branca, logo, subentende-se uma motivação ligada ao preconceito racial. Não descarto que o crime possa ter sido motivado também pelo ódio racial. Contudo, se a autora do crime é mostrada como racista, faço a seguinte pergunta: Como ela pôde querer morar em um bairro onde predominam moradores negros, já que ela era acusada de proferir ofensas racistas às crianças brincando em seu quintal?
Não pretendo aqui criar polêmica em torno de questões raciais, pois se sabe que o racismo infelizmente acontece nos quatro cantos do globo, por isso racistas devem ser identificados e penalizados pela Justiça, ponto. Agora, não é correto querer justificar tudo que acontece de ruim a uma pessoa devido a cor de pele, cada um tem responsabilidade e capacidade de superação individual, toda ação resulta em uma consequência. Há uma forte narrativa estreita à esquerda que objeta as pessoas por somente serem brancas e abrilhantam a canalhice acusando-as histericamente de opressoras.
O que se assiste em “A Vizinha Perfeita” através das câmeras corporais trata-se de um caso dilacerante para quem assiste e principalmente para os familiares e amigos de Ajike. A vítima merecia um documentário digno e a pena de 25 anos deveria ser multiplicada pelo número de filhos que ficaram órfãos de mãe, cem anos no mínimo! Rogo a Deus que eles cresçam como adultos com princípios morais elevados e assim busquem o seu espaço sendo competentes em suas profissões.

Quanto às incisivas acusações dos vizinhos ao comportamento de Susan, achei estranho que nenhum deles tenha feito sequer um registro dessas ameaças desferidas pela mulher, seja uma foto ou uma filmagem, pois com essas provas em mãos eles comprovariam que estavam certos quanto às acusações de injúria racial e ameaças física desferidas por Susan Lorincz contra as crianças, principalmente num tempo em que o smartphone é praticamente um órgão do corpo humano, um objeto que está sempre às mãos, pronto para filmar ou fotografar um flagrante de agressão. Estranhamente, nada desse tipo foi feito, nem por parte de Susan. Repito, mais uma vez, o que se vê são acusações de ambas as partes que não levaram a lugar algum e muito menos a uma solução. Frente a esse cenário de conflitos insolúveis, aumentou-se a tensão entre os vizinhos até o fatídico dia 2 de junho de 2023.
Infelizmente são inúmeros casos absurdos de pessoas sendo mortas por motivos sórdidos, seria mesmo necessário um documentário como “The Perfect Neighbor”? Por ser um conteúdo perene, entendo que o acesso dos filhos de Ajike à produção, traria de volta uma carga emocional negativa à memória ao rever imagens traumáticas da mãe morta, vividas pessoalmente por eles. Acredito que o trauma psicológico pode ser trazido à tona daqui há dez, trinta ou sessenta anos por meio deste registro burocrático policial transformado em documentário pela Netflix, disponível no catálogo do serviço de streaming.
Olhando com a perspectiva do copo meio cheio, a reflexão perante este documentário true crime é válida, principalmente quanto às leis “Stand Your Ground”, utilizada por Susan como uma justificativa confortável para usar a arma de fogo contra a vida de Ajike Owens. Outro ponto para refletir é a questão do preconceito presente na comunidade e também a maneira burocrática da abordagem policial para casos como o registrado neste documentário, que exige uma observação para além das vias de fato.
Entretanto, muito do que foi visto nos registros brutos coletados das câmeras corporais dos policiais se dispõem em fragmentos, o que possibilita por meio da edição a montagem de uma narrativa abstrusa aos fatos ipsis litteris, além da questão dos cortes abruptos das filmagens quando os policiais desligam a câmera, criando lacunas que facilitam ainda mais o favorecimento de uma narrativa sobre a outra. Por isso, o trabalho da narração em cima desses cortes é necessário para incluir períodos importantes que não foram capturados pelas filmagens policiais. Todavia, essa narração deve ser coerente à realidade histórica do crime, um recurso que pode até ajudar na dramatização ao narrar essa tragédia lamentável.
Além disso, o conteúdo de “A Vizinha Perfeita” carece de depoimentos de testemunhas quanto à rotina do conflito vista de um ângulo de fora para dentro, por pessoas alheias a toda essa confusão. A maioria das testemunhas que deram a sua versão tendem a ser ligadas diretamente a uma das partes. Contrapondo a essa minha observação, todas as pessoas têm suas versões do ocorrido; é um jogo de narrativas difícil de chegar a um denominador comum. Conclui-se que nada disso é possível justificar quando se está consumado o crime, por maior que sejam os problemas vividos dentro ou ao redor de Susan Lorincz, o crime é torpe e a pena foi branda.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Ficha técnica
Diretora: Geeta Gandbhir.
Produtores: Crystal C. Stoute, Rose Arce, Sam Bisbee, Geeta Gandbhir, Jackie Kelman Bisbee, Nikon Kwantu, Danielle Massie, Wendy Neu, Soledad O’Brien, Alisa Payne, Sam Pollard, Butch Robinson e Takema Robinson.
Montagem: Viridiana Lieberman.
Departamento de efeitos visuais: Anthony Rhoads.
Dublês: Francisco Torres
Departamento de câmera: Alfredo Del Lara.
Departamento editorial: Allie Ames, Jeff Cornell, Reuben J. Rogak e Naomi Spiro.
Departamento musical: Laura Heinzinger.
Departamento de som: Giuseppe Cappello, Laura Heinzinger, Kelly Hrebenak, Filipe Messeder e Keith Sengbusch.
Elenco: Susan Lorincz, Ajike Owens, Franklin Baez-Colon, Michael Balken, Troy Campbell, Pamela Dias, Bill Gladson, Afrika Owens, Isaac Owens, Israel Owens, Titus Owens, Lauren Smith, Phyllis Wills e Billy Woods.


