Apesar de ser mais um filme sobre um animal peçonhento, “Sting: Aranha Assassina” (Sting, 2024) vai além da construção do terror em cima de uma criatura vinda do espaço. Os conflitos familiares, as indiferenças parentais e a rebeldia adolescente da protagonista Charlotte (Alyla Browne) resultam em uma dinâmica familiar escalada em meio à comédia e o drama para um conflito caótico, onde a presença do ser aracnídeo se torna no final um paradoxo quanto à resolução de uma provável derrocada familiar.
O filme do diretor australiano Kiah Roache-Turner possui uma estética que parece ter vindo dos filmes B de terror dos anos 1980. A minha intuição é que ao longo do tempo o filme “Sting” vai se tornar um produto audiovisual cultuado pelos seus admiradores, quem sabe um provável filme cult. Além da direção, Roache-Turner é também o responsável por escrever o roteiro. O enredo da história é um tanto simplista, incluem situações clichês do gênero terror e umas boas salpicadas de comédia sem pretensão.
É um longa-metragem que eu considero simpático em sua forma e linguagem. A história tem como vilão uma aranha monstruosa que ataca qualquer pessoa azarenta que estiver em seu caminho, os ataques sorrateiros proporcionam momentos de terror que são superados pelo clima de tensão sentido em quase todo o filme.
As fases de tensão se dividem em duas: no período em que a pequena aranha encontra-se trancafiada num pote de vidro; e a outra quando a criatura evolui para uma aranha monstruosa gigante e livre para fazer suas vítimas por entre os cômodos e dutos dos apartamentos.
A ficção científica está atrelada tanto ao surgimento quanto à evolução meteórica da “aranha de estimação” nomeada Sting. A interação inicial entre o pequeno pet exótico e Charlotte se dá numa relação unilateral, tardiamente (e teimosamente) percebida pela adolescente quando a criatura ataca e encasula seus pais em meio ao ninho tecido nos dutos do prédio. Esse ataque a faz entender o tamanho do perigo anteriormente alertado pelo seu pai.

Em companhia da jovem atriz Alyla Browne, está a veterana atriz Noni Hazlehurst. Esta interpreta a excêntrica avó Helga, personagem portadora de Alzheimer e grande responsável pelo humor negro presente na história. Ao lado da vovó encontra-se a sua irmã, a estranha Gunter (Robyn Nevin). Aliás, a aparência de Gunter lembra uma versão feminina de Ozzy Osbourne (risos). As irmãs idosas – junto do exterminador de insetos, Frank (Jermaine Fowler) – formam a tríade responsável pelas cenas mais engraçadas.
O prédio onde os personagens moram possui pouca iluminação, os apartamentos têm cômodos pequenos e um tanto abarrotados de objetos – ambiente perfeito para um aracnídeo vindo do espaço se desenvolver, principalmente no apartamento onde a senhora Helga e sua irmã Gunter vivem. A trilha sonora é uma grande aliada na construção do clima sombrio presente na história, os efeitos sonoros proporcionam maior tensão às cenas.
No início o filme segue um ritmo monótono onde vemos a jovem protagonista Charlotte interagindo com o estranho artrópode. Durante esse tempo de calmaria, o suspense caminha lentamente, sobrecarregando de tensão os nervos do espectador até o momento em que o ser de outro mundo faz a sua primeira vítima animal e consequentemente humana, ambas resultam em cenas horripilantes.
Assim que a aranha se torna um predador gigante, o ritmo do filme acelera e propícia um descarrego de tensão e de situações embaraçosas no núcleo familiar de Charlotte, principalmente entre ela e seu pai, Ethan (Ryan Corr). Este e sua esposa Heather (Penelope Mitchell) são responsáveis por disseminar grande parte do drama visto na história, seus conflitos se dão entre seus compromissos profissionais e suas responsabilidades de pais.

Assim que a aranha começa a assassinar e encasular suas vítimas humanas, Charlotte se revela uma heroína ao ir em busca de seus familiares. Ela se prepara ao se “armar” com uma pistola de água carregada com uma mistura líquida que leva o antídoto (naftalina) capaz de machucar o monstruoso aracnídeo de longas pernas afiadas.
A única pessoa salva das garras da aranha assassina (além de Charlotte) é a senhora Helga – acredito que as bolinhas de naftalina espalhadas pelos cômodos da casa ajudam a manter a aranha distante da idosa indefesa e inconscientemente indiferente a tudo.
Os clichês do gênero terror estão presentes também na batalha derradeira, o que não atrapalha em nada a cena que se desenvolve de maneira empolgante através de atuações que se interagem em plena harmonia, o que resulta até em uma declaração emocionante entre pai e filha que os unem para aniquilar a monstruosa aranha Sting.
Outro elemento muito comum em filmes de terror e suspense – e que aqui se torna parte do cenário – são os dutos que formam verdadeiros labirintos e que interligam um apartamento a outro, um meio que serve como esconderijo responsável pelas aparições repentinas e assustadoras da aranha alienígena. O final deixa em aberto uma possível continuação, reforçada com a cena pós-créditos.
A atuação de Alyla Browne é o destaque do filme, mesmo que em alguns momentos a sua personagem se rebela após uma discussão ferrenha com o seu pai, momento em que a garota se sustenta em sua rebeldia insuportável. Não passam em branco as atuações de Noni Hazlehurst e Robyn Nevin, seus papéis de coadjuvantes possuem relevância ao contexto, além de inserir uma personalidade ímpar aos seus personagens.
É estranho, entretanto eu confesso que gostei do que assisti. A direção de Kiah Roache-Turner é segura, possui personalidade e movimentos de câmera ágeis que asseguram perspectivas condizentes ao clima onipresente (e crescente) de tensão. Não trata-se de um filme espetacular, contudo “Sting – Aranha Assassina” tem capa e conteúdo que se enquadram perfeitamente entre os bons filmes classificados na prateleira dos filmes de terror B.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidade sobre O Jogo da Viúva
- A maior parte dos efeitos de aranha foi feita de forma prática;
- Quando Ethan pergunta a Frank por que ele carrega uma pistola de pregos enquanto é um exterminador, Frank responde “proteção”. A pistola de pregos é provavelmente uma referência a “Aracnofobia” (1990), outro filme sobre aranhas carnívoras em que o personagem principal acaba com uma das criaturas com uma pistola de pregos;
- Charlotte dá o nome de Sting à aranha depois de ver uma cópia de “O Hobbit”, de J. R. R. Tolkein. Sting não é o nome de uma aranha no Hobbit, mas sim da espada que Bilbo usa para combater as aranhas;
- No porão, quando Frank vê o sangue de Sting e diz “If it bleeds, we can kill it” (Se sangra, podemos matá-lo), isso é claramente uma referência a “Predador”, quando a frase clássica é dita por Arnold Schwarzenegger;
- O nome Charlotte é mais do que provavelmente uma referência à “Charlotte’s Web” (A Teia de Charlotte), outra história sobre uma aranha inteligente;
- A picada da aranha é muito parecida com a da aranha vermelha (viúva negra australiana) das costas australiana, que é uma das aranhas mais venenosas;
- Primeiro filme dirigido por Kiah Roache-Turner ambientado nos Estados Unidos, e não em sua Austrália natal;
- No porão, quando Sting se aproxima de Charlotte e ela vira a cabeça com medo para a câmera, isso é extremamente semelhante a uma cena em “Aliens 3” (1992) entre o xenomorfo e Ripley;
- Na cena em que Charlotte está no apartamento de Eric mostrando Sting a ele, o apito que ela usa para mostrar a habilidade de imitação das aranhas é o comumente usado por Gizmo em “Gremlins” (1984);
- Quando Charlotte abre a comida enlatada para cachorro, a forma como a cena é filmada pode ser uma referência a “Evil Dead 2” (Uma Noite Alucinante 2, 1987), quando Ash monta sua mão de serra elétrica;
- O nome do personagem Frank provavelmente é uma homenagem a Frank Marshall, diretor de “Arachnophobia” (1990);
- Contagem de corpos: 5 pessoas, 1 papagaio, 1 gato, várias baratas;
- O final em que Charlotte usa um compactador para esmagar Sting é muito semelhante à cena final do “Exterminador do Futuro” (1984), quando Sarah usou um compactador para esmagar o Exterminador;
- Quando Charlotte descobre que as bolas de naftalina queimam a teia e até mesmo Sting, ela cria um “coquetel” para combater a aranha. No entanto, na realidade, as bolas de naftalina têm poderes repelentes muito limitados contra aranhas. Mas no filme, a água das bolas de naftalina age como água benta em um filme de vampiros;
- Cena: Ethan ouve sons vindos do poço de ventilação e o cachorro sai. A imagem em preto e branco abaixo do poço mostra a “Torre do Reno” (Rheinturm) em Düsseldorf.
Ficha técnica
Diretor: Kiah Roache-Turner.
Roteiro: Kiah Roache-Turner.
Produtores: Chris Brown, Will Gammon, Sierra Garcia, Mark Gooder, Jamie Hilton, Nadia Khamlichi, Diana Le Dean, Nessa McGill, Martin Metz, Lesley Parker, Doris Pfardrescher, Adrian Politowski, Josh Pomeranz, Michael Pontin e Alison Thompson.
Diretor de fotografia: Brad Shield.
Editor: Jeff Cummings, Luke Doolan e Kiah Roache-Turner.
Direção de arte: Gareth Wilkes.
Figurino: Georgia Woods.
Cabelo e maquiagem: Ryan Cribbin, Paul Katte, John Logue, Liz Mason, Leah Meurer, Nick Nicolaou e Helen Tuck.
Música: Anna Drubich.
Elenco: Noni Hazlehurst, Jermaine Fowler, Alyla Browne, Robyn Nevin, Ryan Corr, Kate Walsh, Penelope Mitchell, Jett Berry, Kade Berry, Silvia Colloca, Lee Perry, Danny Kim, Tony J Black, Alcira Carpio e Rowland Holmes.


