Resenha do filme Homem com H (2025, Esmir Filho)

Ney Matogrosso é um ser humano ímpar que desde criança revelou-se tino à vida artística, mais tarde comprovada a todos através do seu domínio ávido quanto a cantar, dançar, interpretar e iluminar, seja o seu show ou a si mesmo, dentro e fora dos palcos. Ele é um ser intenso fora e dentro de suas fantasias e pinturas, aliás, maquiagem feita muito antes que a adesão dos integrantes da banda americana de hard rock, KISS, à “cara” pintada. Seja limpa ou pintada, Ney jamais teve medo de nada.  


A cinebiografia “Homem com H” (Latin Blood: The Ballad of Ney Matogrosso) – dirigido e roteirizado por Esmir Filho – pode causar desconforto em algumas pessoas devido a intimidade quanto a falta de pudor revelado nos excessivos relacionamentos sexuais – o sexo é um protagonista onipresente. Vejo desnecessária essa relevância artisticamente explícita, uma vez que Ney Matogrosso no palco demonstra um domínio do corpo repleto de sensualidade que menospreza qualquer gozo que venha se realizar em cima da cama.

Talvez tenha uma fatia do público do artista que tenha a curiosidade de ver manifesto na tela os detalhes da intimidade sexual de seu ídolo, porém essa tara, fetiche ou algo do gênero venha espantar e confirmar ainda mais o estereótipo que o cinema brasileiro se utiliza do sexo, da violência e da linguagem vulgar em demaseio, neste caso se destaca o sexo. Tratando-se de um filme biográfico, acredito ser mais interessante – e de ampla aceitação – aprofundar nos detalhes do processo criativo, uma vez que Ney Matogrosso tem muito a revelar quanto às ideias pra lá de ousadas e viscerais.

Deixando para trás o vício cinematográfico nacional e voltando o olhar aos feitos bons do ser humano revelados por meio da arte, vale ressaltar os merecidos elogios quanto à atuação do ator Jesuíta Barbosa, realmente se deu por inteiro ao assumir o papel principal de encarar na própria pele as cores vibrantes e cintilantes do camaleão brasileiro, Ney Matogrosso. A cada cena, vê-se nos olhos de Barbosa a entrega de alma e de corpo ao representar um dos maiores intérpretes da música brasileira, um fenômeno indescritível e indefectível que encanta sobre o palco, seja na dança ou na pujança e mansa voz.

Ney Matogrosso observa emocionado enquanto dirige Cazuza cantando "O Tempo Não Pára" (1988) em sua última turnê intitulada "Ideologia".
Ney Matogrosso observa emocionado Cazuza cantar a música “O Tempo Não Pára” (1988). Essa interpretação faz parte de um dos shows realizados na última turnê intitulada “Ideologia”, dirigidos por Ney Matogrosso.

Confesso que quando assisti ao filme, eu tinha achado a caracterização do ator principal muito distante da imagem atual que eu tinha do Ney Matogrosso contemporâneo; quando o filme acabou, resolvi pesquisar fotos antigas do artista e constatei que fizeram um trabalho admirável tanto na escalação de Jesuíta Barbosa para o papel quanto na aparência física e na fisionomia, além do domínio corporal ao realizar os movimentos artísticos de dança.

Diante dos pontos positivos que permeiam a captação deste registro histórico da vida de Ney Matogrosso, acredito que a narrativa transcorreu às pressas, pois os saltos temporais deixaram muitas histórias sem contar – uma vez que a vida de Ney está repleta de momentos únicos bem mais interessantes que a sua desinteressante vida sexual. O excesso de cenas de sexo quase explícito limita a audiência – talvez o objetivo era agradar uma parcela que admira mais a sua opção sexual, ou como ele mesmo se considera: um indivíduo livre e sem rótulos.

A presença de Cazuza (interpretado por Jullio Reis) é um momento de forte apelo emocional na vida de Ney e para quem assiste a linda história entre eles. Sabe-se que os dois tiveram um relacionamento íntimo rápido mas que jamais deixou de esfriar, uma vez que a demonstração de carinho e amor entre os dois resistiu a muitas tribulações (principalmente no lado público de Cazuza) e à dor. Esta última é motivo de grande comoção não só de Ney, mas de toda a nação.

Por falar no lado público de Cazuza, o filme mostra a face louca na conhecida cena em que bate à porta da casa de Ney todo sujo, fedendo, agitado e tendo a tiracolo um traficante, o que deixa o anfitrião enfurecido diante da atitude – talvez esse mesmo estado de espírito resultou na briga com o João Gordo, haja paciência.

A cena que encerra a participação de Cazuza em “Homem com H” é totalmente oposto à maneira exagerada em que os relacionamentos de Ney são expostos, a forma como a “saída de cena” de Cazuza foi retratada comprova que diante da sutileza frente a única certeza da vida, o espectador se sente ainda mais impactado com o que ele complementa ao imaginar a chegada da morte. Essa mesma contracenação sutil com a morte se vê quando a câmera enquadra a cama vazia e arrumada onde se deitava o pai de Ney.

O pai de Ney Matogrosso com o LP (Long Play) do filho em mãos enquanto escuta em alto e bom som de "Água do Céu-Pássaro" (1975).
O pai de Ney Matogrosso escuta o primeiro álbum de estúdio do filho (‘Água do Céu-Pássaro’, de 1975), enquanto observa com atenção a fotografia da persona animalesca (híbrido de homem e pássaro sob uma estética primitiva) estampada na capa do LP (Long Play).

O relacionamento de pai e filho entre Ney Matogrosso e o 2º Sargento Antônio Matogrosso Pereira (Rômulo Braga) é mostrado com uma proximidade interessante e se vê o caráter humano do cantor e o respeito com o seu pai, mesmo diante de uma educação militar rígida, violenta e cheia de preconceitos. O sucesso de Ney ajuda a desarmar a amargura paterna e a converte em admiração e reconhecimento ao grande artista que seu filho se tornara – outro momento onde a emoção toma conta.

Já o contato com a mãe é mais próximo e carinhoso, Beita de Souza Pereira (Hermila Guedes) aparece sempre aberta às escolhas do filho e o defende contra as opiniões de repulsa lançadas pelo marido. O sorriso dela ao ver o amado filho diante de si – descaracterizado ou mesmo adornado – demonstra a admiração materna. Dona Beita encontra-se hoje (2025) com a idade de 103 anos, infelizmente há momentos em que ela não reconhece o famoso filho. Ney lamenta que a mãe não tenha condições de assistir “Homem com H”.

A cinematografia de Azul Serra acerta em cheio na iluminação, cores, brilhos e enquadramentos que possibilitam um registro bem próximo à realidade fantástica em que se encontra o artista Ney Matogrosso. O visual interpretado pelo diretor de fotografia em conjunto com a direção e o departamento de criação contempla uma estética visual próxima ao conceito artístico criado pelas ideias mirabolantes de Ney Matogrosso.

É muito forte e emocionante a ligação da cena inicial com a cena final, na primeira o pequeno Ney de Souza Pereira (Davi Malizia) deslumbra a imensidão da mata a sua volta, o menino parece se energizar ao interagir com a natureza por meio dos sentidos, um movimento orgânico presente durante seu desabrochar artístico; já na cena final, Ney Matogrosso encontra-se de volta à mata, desbravando a estrada fechada por onde passou até estar sobre uma pequena cachoeira que deságua no rio, o nome deste rio revela uma forte e emocionante ligação entre o humano e a natureza.

A passagem pela banda Secos & Molhados é mostrada desde o início. Ney interpreta a canção de Geraldo Vandré, “Réquiem para Matraga”, sobre os olhares de João Ricardo (Mauro Soares) e Gérson Conrad (Jeff Lyrio), ambos admirados e embasbacados com a genialidade do futuro parceiro. Após a interpretação, a dupla apresenta em voz e violão a canção do poema homônimo de Vinícius de Moraes, musicado por Gerson Conrad, “Rosa de Hiroshima”. Desse momento em diante é história.

Secos & Molhados interpretando a música "Sangue Latino"
Secos & Molhados interpretando para as câmeras da televisão a música “Sangue Latino” (1973), composição escrita por João Ricardo e Paulinho Mendonça.

As intempéries no clima do conjunto Secos & Molhados vão aumentando paralelo ao sucesso crescente, a ousadia de Ney Matogrosso em suas apresentações elétricas e sob uma maquiagem extravagante, assim como o figurino pra lá de ousado, o faz se destacar dos demais até chegar o momento em que deixa o grupo para seguir carreira solo sem que ninguém contrarie os seus instintos e desejos de se expressar como manda o coração.

Apesar do que escrevi acima – sobre os excessos dispensáveis quanto ao docudrama não ter nenhuma timidez em mostrar cenas de sexo do artista com pessoas de ambos os sexos -, “Homem com H” tem uma direção madura e contempla uma musicalidade (supervisionada pelos irmãos Gui, Rica e Letícia Nogueira) pra lá de caprichada. Assim como é o trabalho brilhante pra lá de octogenário Ney Matogrosso.

Aos 83 anos de idade, o ícone da música brasileira não permite que o tempo o afaste dos palcos, habitat onde o Homem com H dá lugar ao Pavão Mysteriozo, um ser animal cheio de liberdade, mistério e incessante busca por novas experiências. Talvez seja assim Ney Matogrosso, quem sabe.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico - 3 estrelas (regular)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "Homem com H" (2025).

 

Curiosidades sobre Homem com H

  • O filme retrata brevemente uma das maiores polêmicas em torno de Ney Matogrosso, acusado de copiar a banda de rock Kiss. Na verdade, é o contrário. O Secos & Molhados foi oficialmente formado em 1971, embora a banda já se apresentasse junta desde o final dos anos 60 e já fosse conhecida por sua maquiagem. O KISS surgiu anos depois, em 1973;
  • Apesar de arrecadar mais de 13 milhões de reais em bilheteria, o filme ficou apenas 30 dias nos cinemas antes de ser disponibilizado pela Netflix. Essa decisão gerou polêmica em torno do lobby do streaming no Brasil e da pressão exercida sobre os cinemas para que privilegiassem grandes sucessos de bilheteria, prejudicando a indústria cinematográfica nacional;
  • O título original, “Homem com H”, aborda questões sociais relacionadas à percepção de masculinidade no Brasil, em contraste com a autoapresentação de Ney Matogrosso, que desafia todas essas ideias. Também faz referência a uma música que ele gravou. Na Netflix, o título foi alterado para Latin Blood, em referência a uma famosa música do Secos & Molhados, interpretada por Ney Matogrosso com sua icônica maquiagem de coruja;
  • Durante muitos anos, Ney neutralizou as emissões de carbono de seus shows e discos mantendo uma reserva florestal dentro da fazenda que adquiriu no Rio;
  • Jesuíta Barbosa, que interpreta Ney Matogrosso, usa sua própria voz cantada no início do filme. O canto em “Rosa de Hiroshima” é a voz do ator, provavelmente aprimorada para se assemelhar à de Ney Matogrosso, da mesma forma que o filme “Maria” (2024) aprimora a voz de Angelina Jolie para se assemelhar à de Maria Callas;
  • No final do filme, sons de pássaros, insetos e outros animais podem ser ouvidos enquanto a chuva passa. Uma espécie de homenagem à floresta abrindo caminho, enquanto o ser humano tenta reprimi-la;
  • O filme termina com uma transição do ator Jesuíta Barbosa para o verdadeiro Ney Matogrosso, e retrata uma de suas apresentações recentes em São Paulo. Aos 83 anos, o cantor, uma das maiores vozes do Brasil, lota estádios inteiros para suas apresentações;
  • O nome da banda, Secos & Molhados, foi criado por João Ricardo, o membro português, após ver a placa de uma loja na cidade litorânea de Ubatuba, Brasil, em um dia chuvoso. Em Portugal, é assim que os mercados de alimentos são chamados, vendendo produtos “secos” (secos) e “molhados” (molhados). A música “O Vira”, apresentada em uma das primeiras performances do filme, também se inspira na cultura portuguesa, um ritmo musical folclórico típico;
  • Esmir Filho, o roteirista, costumava enviar cada capítulo para Ney comentar. Poucos comentários eram feitos, pois Ney entendia que era mais importante retratar um sentimento geral do que reproduzir os fatos com precisão. Ele costumava pensar: “Isso é algo que eu diria”. Ney se emocionou muito com uma cena em particular: quando recebe seu teste de HIV negativo na cama ao lado de seu companheiro doente e sente que é muito injusto que todos, exceto ele, tenham Aids, apesar de viverem o mesmo estilo de vida. Ney começa a chorar para surpresa de todos, pois é conhecido por nunca chorar. Naquele momento, ele sente a responsabilidade de representar toda uma geração;
  • “Homem com H”, o título original do filme, deriva da música homônima composta por Gonzaguinha, famoso cantor e compositor brasileiro, filho de um ícone da música regional, Luiz Gonzaga. A ironia é que, inicialmente, Ney não se identificou com a música, pois ela expressava a cultura machista dos homens nordestinos, especialmente os cangaceiros fora da lei. Gonzaguinha acaba convencendo Ney a gravar a música, para transformá-la em um manifesto contra a misoginia.

 

Ficha técnica

Diretor: Esmir Filho.
Roteiro: Esmir Filho.
Produtores: Rodrigo Castellar, André Fraccaroli, Marcio Fraccaroli, Patricia Galucci, Mariana Marcondes, Adrien Muselet e Veronica Stumpf.
Diretor de fotografia: Azul Serra.
Editor: Germano de Oliveira.
Design de produção: Thales Junqueira.
Figurino: Gabriela Monnerat.
Efeitos visuais: Felipe Almeida, Massao Asaga, Ariane Carvalho, Marcos Maczka, Pedro Vergara Rocha e Felipe Ruiz.
Música: Mariana Amabis.
Elenco: Jesuíta Barbosa, Rômulo Braga, Hermila Guedes, Davi Malizia, Jullio Reis, Bruno Montaleone, Mauro Soares, Jeff Lyrio, Augusto Trainotti, Bruno Parmera, Caroline Abras, Bela Leindecker, Lara Tremouroux, Danilo Grangheia, Artur Volpi, Céu, Sarah Oliveira, Duda Brack, João Camarero, Gabriela Coniutti, André Dale, Carolina Germano, Tay Lopez, Wes Machado, Zeca Mallembah, Gabriel Mascarenhas, Ney Matogrosso, Beto Matos, Metturo, Miguel Moraes, Samuel Toledo, Eduardo Tomaz, Remo Trajano, Lucas Truta, Vivian Veggari, Lore Vieira, Luiz Xavier e Pedro Zurawski.

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