No ano de 2014, foi lançado o filme “Corações de Ferro” (‘Fury’), direção de David Ayer, cuja história acompanha uma tripulação da Segunda Divisão Blindada dos Estados Unidos dentro de um tanque médio “M4 Sherman” (apelidado de ‘Fury’), frente ao exército nazi. O filme a ser objeto desta resenha crítica, “O Tanque de Guerra” (Der Tiger, 2025), é narrado do ponto de vista inimigo dos Aliados e grande parte do cenário claustrofóbico delirante se constitui do compartimento de combate do Panzerkampfwagen VI Tiger. Essa máquina pesada de guerra é tripulada por cinco homens, entre eles o Leutnant (Tenente) Philip Gerkens (David Schütter), que devem juntos cumprir uma missão destinada a ser o pior pesadelo que se estenderá para além da vida terrena do quinteto.
Antes do motor ser ligado em meio ao drama de guerra psicológico, o diretor Dennis Gansel (‘Napola’ e ‘A Onda’) estampa sobre um fundo preto a frase do filósofo espanhol George Santayana: “Only the dead have seen the end of war” (‘Só os mortos conhecem o fim da guerra’). A citação é um prelúdio da trama responsável por mover este filme de guerra alemão para o seu fim revelador, diante da visão do Leutnant (Tenente) Philip Gerkens frente a uma amostra “calorosa” da decoração que lhe espera em sua morada derradeira.
Ambientado na Frente Oriental da Segunda Guerra Mundial, o longa-metragem anti-guerra “O Tanque de Guerra” inicia na União Soviética, Frente do Dniepre (Dnieper), no outono de 1943, oito meses após a Batalha de Stalingrado com a Wehrmacht (Forças Armadas da Alemanha Nazista) em retirada. Nesse cenário caótico, encontra-se sobre uma ponte parcialmente destruída, soldados alemães recuando e na cobertura um tanque Panzerkampfwagen VI Tiger tripulado com cinco homens, incluindo o comandante Philip Gerkens. Ainda combativo contra o insistente ataque terrestre do Exército Vermelho, a história se torna outra após um massivo bombardeio aéreo que deixa o interior do Tiger parecendo um cômodo do inferno tomado em chamas, enquanto do lado de fora a ponte sucumbe em meio às explosões.
Após um clarão, o cenário de guerra vai sendo pintado novamente, porém agora como numa representação de um sonho – ou seria um pesadelo? – com um nevoeiro dispersando como se abrisse caminho para o retorno inexplicável de um confuso Philip Gerkens, em meio a um cenário cinzento. Com uma missão documentada em mãos, o Leutnant segue ao reencontro de seus subalternos – que trabalham na recuperação do tanque de guerra – para juntos partirem rumo a uma missão especial, sem nenhum apoio. O itinerário tem como rumo avançar com o tanque atrás da linha de frente e seguir para o resgate do Coronel Paul von Hardenburg (Tilman Strauss), camarada de Gerkens do tempo da escola de guerra.

A sensação ao longo do percurso é de total apreensão e digno de sentir os nervos à flor da pele devido ao clima aterrador de suspense. A trilha sonora de Heiko Maile carrega uma pesada e sombria vibração, intensificada ao se misturar com o som metálico provocado pelo atrito e impacto das lagartas de metal (esteira) com o solo, entre outros detalhes sonoros internos e externos ao veículo de guerra. Ainda dentro da máquina, há um momento que deixa pistas relevantes quanto à atual situação daqueles jovens tripulantes alemães, o rádio transmite uma missa em latim, no momento se escuta uma oração que pede misericórdia e paz (‘Cordeiro de Deus’, em latim ‘Agnus Dei’), enquanto um soldado olha para o seu relógio de pulso parado no tempo e lá fora o tanque passa por uma estrada com vários esqueletos de soldados.
O diretor alemão Dennis Gansel cria cenas de guerra assustadoras que não apelam diretamente para pessoas sendo estraçalhadas por tiros de grosso calibre ou bombas explodindo a bel-prazer. As tomadas mais tensas são minuciosas e mergulhadas em uma aura de mistério envolto em uma atmosfera tenebrosa e fúnebre, técnica infalível para fisgar o olhar do espectador, ao mesmo tempo que o deixa aflito diante de tamanha carga emocional que determinadas cenas carregam perante situações confusas. A direção de fotografia de Carlo Jelavic se aprofunda na estética realista da guerra e utiliza elementos naturais como nevoeiro e sombra que cooperam na composição de um ambiente sombrio.
Uma dessas passagens descarrega uma alta dose de angústia capaz de paralisar quem assiste, a exemplo do que é visto no momento em que o panzer passa ao lado de várias barreiras antitanques (dente de dragão) instaladas no chão e seguem por uma clareira, quando, de repente, o tenente Gerkens avista uma placa de aviso da presença de minas terrestres caída no terreno e imediatamente dá ordem para Helmut (Leonard Kunz) parar o veículo imediatamente. Assim que eles descem do tanque inicia o que é a cena mais tensa de “O Tanque de Guerra”: ter que encarar uma temível mina terrestre prestes a levar tudo e todos para os ares.
Essa cena do campo minado é seguida pela tripulação do Tiger “dando de cara” com vários caça-tanques soviéticos SU-100. Esse encontro terrível faz com que o comandante alemão Gerkens dê a ordem de recuar e a fuga acaba com o tanque e toda a tripulação submersos no rio para despistar os temíveis destruidores de tanques soviéticos. Trata-se aqui de mais uma cena em que o ambiente claustrofóbico proporcionado pelo compartimento da tripulação é intensificado devido à iminência do inimigo em terra e da água começar a invadir o espaço interno do veículo. Nesse momento, sobressai o talento na direção de Gansel ao utilizar lentes macros para capturar os detalhes do suor acumulado pelo nervosismo, da pele suja de graxa e do tremor do metal ecoando e transferindo a claustrofobia para o espectador.
Assim que a tripulação alemã avança pelo território inimigo, seus medos externos são disputados em uma luta que não restringe somente às ameaças exteriores, mas, principalmente, para um constante confronto interior com seus próprios medos e demônios, muito disso estimulado pelo uso constante do Pervitin – nome comercial de um medicamento que tinha como princípio ativo a metanfetamina. A jornada até então se confunde cada vez mais em um caminho sem volta ao coração mergulhado em trevas, com alguns fazendo seus próprios julgamentos morais e tirando conclusões das consequências dos seus atos.
O uso de metanfetamina (Pervitin) está presente para demonstrar um fato real entre os soldados alemães durante a Segunda Guerra Mundial. A droga era consumida para combater o desgaste físico e prolongar a vigília, melhorando assim o foco e reduzindo a necessidade de sono. Entretanto, existem as consequências dos efeitos colaterais como dependência, euforia, “hangover” (ressaca) severa, violência, paranoia e até o colapso mental. As lembranças famíliares e os flashbacks aparecem em lampejos, algumas imagens são esperançosas, outras são verdadeiros pesadelos – recortes que vão montando a imagem completa do quebra-cabeça revelado ao fim do filme.
Os cinco homens responsáveis por conduzir o tanque de guerra parecem não ter consciência dos terríveis atos cometidos pelo regime nazista, do qual seguem ordens. No entanto, no desenrolar da trama, quando Gerkens e seus homens chegam à uma vila para reabastecer suprimentos e combustível, todo o local está em chamas enquanto sua população é aterrorizada pela Waffen-SS, sobre as ordens do Oberstleutnant (Tenente-Coronel) Krebs (André Hennicke) – responsável por trancar civis (incluindo mulheres e crianças) dentro de uma igreja e atear fogo. A barbárie testemunhada com certo espanto pelos tanquistas alemães é o ponto fatídico que põe uma interrogação moral quanto à contribuição deles ao longo de todas as atrocidades cometidas sob o comando do Führer.

Nenhuma menção às vítimas da Alemanha Nazista (ou Terceiro Reich) é mencionada ao longo da história. Em uma conversa entre o artilheiro (Richtschütze) do tanque Tiger, Christian Weller (Laurence Rupp), e o Tenente Gerkens, revela que o primeiro queria poder esquecer quem eles foram (Nazis), dizendo que nada será igual como antes, imaginando como será depois do fim da guerra e de todas as mazelas feitas contra pessoas inocentes – essa fala é logo “justificada” pelo comandante ao dizer que eles ainda são os mesmos e que apenas obedecem ordens e fazem o que pedem. Essa posição do superior é injustificável aos princípios morais que orientam uma pessoa diante de uma ação, por exemplo. No entanto, o peso na consciência de Weller e a conivência de Gerkens quanto às suas ações podem ser esclarecidas no fim do filme – o que também leva o espectador a interpretar o tempo e o espaço que a história se passa e a dimensão que se encontram os personagens.
O diretor quase não se preocupa com a culpa histórica dos alemão e foca o olhar no “bom soldado alemão” – o que me leva a acreditar que esse não seja o foco principal da lente do cineasta Dennis Gansel. Porém, a culpa e a cumplicidade entre os homens da tripulação é visivelmente carregada de desespero e medo, enquanto aparentam estar soterrados “vivos” em um ambiente claustrofóbico de um tanque de guerra, rumando em direção ao nada, como num pesadelo prestes a se tornar um eufemismo quando se vê consciente do que reserva o destino final.
Não só o Tiger encontra-se carregado, os homens dentro da máquina também se munem de uma atuação intensa e que entrega ao espectador momentos e expressões perturbadoras diante dos diálogos e visões dos soldados. Cada um dos cinco cumprem com a sua função, mesmo que sobre a forte tensão do que virá do lado oposto, e são pressionados a seguir rumo à famigerada missão de resgate. Toda investida contra o Tiger parece um ataque de um exército fantasma – disparos são realizados sem muitas vezes se ter uma visão clara da origem.
O protagonismo de David Schütter sob a farda do tenente Philip Gerkens faz honra ao mérito de principal personagem. Aliás, o ator tem o direito de se sentir orgulhoso frente ao elogio, uma vez que o elenco de “O Tanque de Guerra” compreende uma seleção de jovens astros em ascensão no cinema europeu, como o já citado D. Schütter e o austríaco Laurence Rupp.
Tanto o ambiente externo quanto o interior do veículo de guerra compreendem cenários mergulhados em um caos às vezes barulhento, outras vezes silencioso – esta última situação transmite maior intensidade ao clima fantasmagórico. Os eventos e ações vistos neste filme alemão joga na trama figuras de linguagem centradas em especial na metáfora, principalmente quanto ao robusto e blindado Tiger – praticamente um caixão de metal movendo-se para o além, a fim de ludibriar quem assiste e principalmente aqueles jovens homens combalidos à desgraça eterna.
O peso na consciência quanto aos crimes de guerra dos integrantes da Wehrmacht é quase nulo. A impressão que dá, é que os nazis vivem seus ataques como se estivessem moralmente certos dos atos realizados contra as vítimas reais da guerra. Em um primeiro momento, a direção de Gansel mostra a narrativa dos soldados alemães contrárias às responsabilidades deles frente às barbaridades cometidas contra civis inocentes. A adesão passiva de homens e mulheres frente ao regime totalitário do Terceiro Reich – que buscava o domínio de toda a Europa para estabelecer um império alemão racialmente puro – é tão covarde quanto foi o Führer deles.
“Der Tiger” é uma produção cinematográfica da Pantaleon Films em colaboração com a Amazon MGM Studios Germany que entrega uma história sobre consequências da guerra no ser humano, o quanto de maldade uma pessoa se submete para cumprir com um falso dever moral estabelecido para um fim de destruição total. Mesmo com poucas cenas externas e principalmente de infantaria, o longa garante tomadas de fazer os olhos secarem de tão impressionantes, muitas delas capazes de transmitir sentimentos diversos e na sua maioria mergulhados em alta tensão, algumas, porque não, dignas de um “absolute cinema”, salvo as exceções.
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidade sobre O Tanque de Guerra
- O tanque Tiger que dá título ao filme é uma réplica baseada no chassi de um T-55. Antes das filmagens, ele foi equipado com réplicas de rodas de estrada intercaladas, embora o espaço entre as rodas revele a verdadeira identidade do veículo. A réplica está em exposição no Museu da Linha de Demarcação em Rokycany, República Tcheca;
- Primeiro filme em que Heiko Maile e Dennis Gansel colaboraram em 12 anos;
- As tripulações dos tanques da Wehrmacht usavam jaquetas pretas com duas caveiras Totenkopf. No entanto, o desenho da caveira era diferente do usado nos uniformes da SS. Exatamente como foi retratado no filme;
- Der Tiger fez história como o primeiro filme original da Amazon alemã a receber um lançamento cinematográfico tradicional em larga escala na Alemanha (setembro de 2025) antes de chegar ao catálogo mundial do Prime Video;
- “Der Tiger” é o primeiro filme original alemão da Amazon a ser exibido nos cinemas locais.
- Como não existem muitos tanques Tiger originais funcionais no mundo (e o famoso Tiger 131 do museu de Bovington é raramente usado em filmagens após Corações de Ferro), a produção utilizou uma réplica hiper-realista. Curiosamente, o Panzer Museum na Alemanha possui uma réplica de fibra de vidro que serviu de referência visual absoluta para os detalhes do modelo usado no longa;
- O Panzerkampfwagen VI Tiger era de fato capaz de mergulhar. Devido ao seu peso, apenas algumas pontes conseguiam suportá-lo;
- O antagonista escolhido no filme, o SU-100, só entrou em combate em janeiro de 1945. Isso é um anacronismo, considerando que o filme se passa no final do verão/outono de 1943;
- O filme utilizou uma réplica de um tanque Tiger, baseada no chassi de um tanque T-55 e modificada com adições e acessórios para lhe conferir a aparência autêntica de um tanque Tiger.
Ficha técnica
Diretor: Dennis Gansel.
Roteiro: Dennis Gansel e Colin Teevan.
Produtores: Marco Beckmann, Isabel Galfe, Leonard Häberle, Filip Hering, Frank Kusche, Dan Maag, Nicolas Paalzow, Stephanie Schettler-Köhler e Patrick Zorer.
Diretor de fotografia: Carlo Jelavic.
Editor: Benjamin Kaubisch.
Direção de arte: Jindrich Kocí.
Figurino: Anke Winckler.
Cabelo e maquiagem: Hana Franková, Magdaléna Mazalová e Megan Tanner.
Música: Heiko Maile.
Elenco: André Hennicke, Samuel Himal, Leonard Kunz, Yoran Leicher, Alzbeta Malá, Laurence Rupp, David Schütter, Arndt Schwering-Sohnrey, Tilman Strauss, Sebastian Urzendowsky e Yana Shevchenko.


