Resenha crítica do filme O Ônibus Perdido (2025, Paul Greengrass)

Inspirado em um caso real, o filme “O Ônibus Perdido” (The Lost Bus, 2025) coloca o espectador dentro do veículo de transporte escolar conduzido pelo motorista Kevin McKay (Matthew McConaughey), em companhia da professora Mary Ludwig (America Ferrera) e de uma turma formada por vinte e duas crianças. Neste contexto, a dupla tem uma missão heroica de levar as crianças ao encontro dos pais – porém, em boa parte do itinerário eles serão obrigados a passar por dentro de uma área queimando em chamas para que as crianças sejam entregues sãs e salvas.


Paul Greengrass (de ‘Relatos do Mundo’, 2020) é o diretor responsável por este filme de desastre, inspirado na história de heroísmo verídica de um motorista de ônibus escolar que salvou a vida de várias crianças durante o incêndio Camp Fire, ocorrido em 2018, no Condado de Butte, norte da Califórnia. Esse incêndio florestal foi iniciado por uma faísca gerada de uma linha de transmissão mal conservada (de responsabilidade da empresa PG&E) que se espalhou rapidamente devido aos fortes ventos que ocorriam no momento do incidente.

O rastro de destruição causado pelo fogo, transformou uma grande área da floresta em carvão e cinzas, enquanto algumas comunidades, incluindo a cidade de Paradise (a maior cidade entre as atingidas e onde o incêndio fez mais vítimas), tiveram uma grande parte de suas áreas devastadas, somado às pessoas mortas (85 no total). Um caos que ardeu em chamas por mais de duas semanas e que deixou em meio às fumaças inúmeros prejuízos.

Kevin McKay avisa a chefe Ruby Bishop que vai precisar fazer mais uma parada rápida por conta de um problema familiar.
Entre os muitos problemas na vida de Kevin McKay, um deles é familiar e está relacionado ao filho. Por isso, ele comunica a sua chefe que precisa fazer uma parada rápida, no entanto ela não o autoriza e ordena o retorno urgente do ônibus para a base.

A história de “O Ônibus Perdido” carrega uma intenção documental (e biográfico) que no fim instiga o público para uma discussão em torno das causas e responsáveis pelo incêndio florestal e suas vítimas fatais, principalmente em como evitar tragédias futuras. Entretanto, o enredo apela para o drama quanto aos problemas pessoais de um trabalhador e pai de família que vive um conflito na relação com o filho (Levi McConaughey), além de cuidar da mãe (Kay McConaughey) e ao mesmo tempo ter que lidar com as demandas de sua chefe (Ashlie Atkinson). Em meio a tudo isso, Kevin terá que enfrentar um compromisso que o coloca de frente a uma bifurcação, onde o caminho a se tomar acomete a uma postura de sacrifício que pode levar a um final incerto.

O roteiro coescrito pelo próprio Paul Greengrass em parceria com o roteirista Brad Ingelsby, utilizou como inspiração o livro “Paradise: One Town’s Struggle to Survive an American Wildfire”, de autoria da redatora e repórter Lizzie Johnson – na época ela estava in loco no momento em que cidade de Paradise era engolida pelo incêndio devastador, permanecendo após o fogo quase varrer a cidade do mapa e chegando a cobrir mais de trinta comunidades afetadas pelos incêndios florestais.

O personagem por trás do volante do ônibus escolar, vai sendo tomado pela coragem em meio ao caos de uma cidade prestes a ser atingida por um incêndio florestal, que alimentado por ventos fortes, avança às pressas ao encontro dos moradores desesperados. Ao toque de evacuação da população, um grupo de crianças estão presas na escola e  precisam ser resgatadas o mais rápido possível – para essa missão o motorista Kevin McKay é escalado por estar próximo à área.

As mais de vinte crianças são embarcadas no ônibus na companhia da professora Mary Ludwig, dessa maneira todos seguem rumo ao local onde irão se encontrar com os pais. No caminho há muitos carros bloqueando a estrada e informação que não leva a lugar algum – nisso eles seguem por um desvio onde terão que passar por uma área de floresta tomada pelo fogo e pela ausência de comunicação, acrescido da quase total falta de visibilidade por causa da intensa nuvem de fumaça que bloqueia a luz do sol.

É nesse clima, carregado de tensão e nervosismo, que a luta pela sobrevivência se faz intensa a cada acelerada. Os dois personagens principais – predestinados a se tornarem os heróis de carne e osso – são Incumbidos de administrar o clima delicado dentro do ônibus repleto de crianças assustadas, ao mesmo tempo que estão perdidos à procura de uma fenda de luz natural que os guiarão para fora daquele cenário infernal, onde tudo queima com o fogo se alastrando e ameaçando cercá-los por todos os lados, sem cessar.

As cenas criadas em CGI impressionam, os detalhes do incêndio são capturados em tomadas internas e externas – realmente o diretor Paul Greengrass soube ilustrar o roteiro com imagens realistas de uma floresta flamejando sob um fogo dizimador, alastrado impiedosamente pelo vento Föhn (fenômeno meteorológico presente em lugares montanhosos que deixa o vento quente e seco devido à compressão atmosférica).

A criatividade quanto ao movimento de flutuação na captura das imagens é um ponto alto da direção: o efeito aplicado dá a impressão de que a câmera está sendo levada pela força do vento. Em várias cenas é possível ver esse movimento em ação. Outro efeito relevante ao suspense tange ao som; logo no início, se escuta o ranger metálico de um isolador de tensão ao balançar com a força do vento, até que o objeto se solta e bate em uma das colunas de sustentação da torre de transmissão, isso gera uma explosão de faíscas que se espalham pela vegetação seca, dando início a vários focos de chamas que instantaneamente se alastram floresta adentro. É o princípio do incêndio florestal mais fatal da Califórnia.

Mary Ludwig e Kevin McKay observam de dentro do ônibus o cenário infernal transformado pelo incêndio.
Com as expressões de espanto e medo, Mary Ludwig e Kevin McKay olham através do para-brisa o incêndio devastar tudo ao redor do ônibus em que se encontram.

Outra característica em “O Ônibus Perdido” que intensifica a tensão do espectador é o ponto de vista dentro e fora da floresta em chamas. Do lado de fora, as autoridades trabalham contra o tempo para planejar uma ação urgente e assim conter o incêndio e salvar vidas; por outro lado, dentro de todo fogo e fumaça que toma grande parte da floresta, se vê pessoas lutando para sobreviver e sair daquela fumaça sufocante e do extremo calor. Destacam-se neste cenário dantesco o casal Kevin e Mary, ambos se dedicam a encontrar a saída a todo momento e, ao mesmo tempo manter, todas as crianças calmas e salvas diante de todas as adversidades que às cercam.

O thriller escala para um nível de tensão assustador quando Mary precisa desembarcar do ônibus à procura de água. Mesmo com todos os perigos que o cenário proporciona à vida dela, cada passo dado é uma possibilidade de ser surpreendida por alguma pessoa ou então ser atingida por uma explosão.

Em nenhum momento Greengrass apela para pessoas morrendo, seu foco prioriza o incêndio e toda a devastação causada, além da confusão gerada e da destruição material. Talvez o exagero encontra-se no melodrama, uma vez que o fogo não cessa enquanto queima e o tempo não pára enquanto eles conversam e choram. Os sentimentos e emoções de Kevin e Mary são exteriorizados em monólogos incondizentes à urgência que a situação exige deles.

É incrível algumas semelhanças entre “O Ônibus Perdido” e “Velocidade Máxima” (Speed, 1994), ambas as tramas estão envoltas em um clima de suspense, a situação de desastre é iminente, os protagonistas são vividos por um casal, boa parte da história se passa dentro de um ônibus e eles lutam pela sobrevivências de terceiros e deles mesmos. Isso foi só uma digressão da minha parte que achei curioso e resolvi dividir com você, vai que tivemos a mesma impressão.

Não tem como terminar de assistir “O Ônibus Perdido” e não se assustar com tamanha destruição causada na vida das pessoas atingidas pelo incêndio. Apesar de ser um filme de desastre carregado de suspense, o terror se faz presente e o pior, ele é real e ocorre todos os anos. Em uma fala do chefe Martinez (Yul Vazquez) durante uma coletiva, ele relata a sobrecarga nos esforços para conter o incêndio, devido a entrada do fogo na cidade de Paradise, agora a prioridade dos esforços (por força maior) passou a ser a proteção da vida dos moradores, onde muitos deles estavam presos ou tentando fugir do fogo. Ele complementa com uma fala provocativa e que se estende para a vida real daquela região frequentemente atingida por esses incêndios mortais: “Os incêndios ficam maiores a cada ano e haverá mais deles. A verdade é que estamos sendo tolos”.

Esta produção Original Apple TV+ tem um forte apelo documental e entrega ao público um cinema de catástrofe carregado de tensão, uma experiência audiovisual dolorosa e agonizante sobre o incêndio Camp Fire de 2018. É assustador ver através de uma tela a dimensão destrutiva que um desastre como esse impacta para sempre a vida. Infelizmente algumas dezenas de pessoas não sobreviveram ao incêndio. Felizmente, a maioria sobreviveu para testemunhar tamanha calamidade e tiveram a chance de começar uma nova vida, mesmo que do zero. No final de tudo, a cena derradeira demonstra, por meio de um longo e caloroso abraço, que a esperança é a última que morre.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico: 4 estrelas (ótimo)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "O Ônibus Perdido" (2025).

 

Curiosidades sobre O Ônibus Perdido

  • Este filme foi rodado em Ruidoso, Novo México, em meados de abril de 2024. Dois meses depois, o incêndio florestal de Southfork devastaria a vila;
  • Três gerações da família McConaughey estão neste filme: Matthew, sua mãe, Kay, e seu filho mais velho, Levi;
  • Baseado em eventos reais, o incêndio Camp Fire de 2018, o incêndio mais mortal da história da Califórnia;
  • O motorista de ônibus Kevin McKay não trabalhava como motorista há muito tempo quando o incêndio de 2018 eclodiu;
  • Este incêndio florestal mortal causou 85 vítimas e 13.500 pessoas perderam suas casas;
  • O incêndio Camp Fire de 2018 resultou em mais de US$ 16,5 bilhões em danos e 85 vidas perdidas;
  • Em eventos reais, Kevin McKay dirigiu cerca de 48 km (30 milhas) durante um período exaustivo de cinco horas, passando por fumaça, fogo, estradas bloqueadas e acidentes, para evacuar 22 crianças da Escola Primária Ponderosa;
  • A participação de Kay McConaughey marca seu retorno às telas após quase 14 anos longe da atuação;
  • Além de ser produtora do filme, Jamie Lee Curtis é quem teve a ideia e a levou até Jason Blum (fundador e CEO da Blumhouse Productions);
  • A estreia mundial acorreu no “Festival Internacional de Cinema de Toronto”, no dia 5 de setembro de 2025;
  • Foi lançado em cinemas selecionados em 19 de setembro e transmitido pela Apple TV+ em 3 de outubro de 2025.

 

Ficha técnica

Diretor: Paul Greengrass
Roteiro: Brad Ingelsby, Paul Greengrass e Lizzie Johnson.
Produtores: Jason Blum, Jamie Lee Curtis, Emily Evans-Thirlwell, William Goldenberg, Russell Goldman, Gregory Goodman, Brad Ingelsby, Nicole Jordan-Webber, Cliff Lanning, Amy Lord e Robin Mulcahy Fisichella.
Diretor de fotografia: Pål Ulvik Rokseth.
Montagem: Peter Dudgeon, William Goldenberg e Paul Rubell.
Design de produção: David Crank.
Figurino: Mark Bridges.
Cabelo e maquiagem: Melissa Barela, Heather Benson, Felicity Bowring, Miki Caporusso, Daniella Duque, Jules Holdren, Lisa Love, Ricky Macias, Bonnie Masoner, Karla Muenze, Sara Roybal e Delana Veirs.
Música: James Newton Howard.
Elenco: Matthew McConaughey, America Ferrera, Yul Vazquez, Ashlie Atkinson, Kimberli Flores, Levi McConaughey, Kay McConaughey, John Messina, Kate Wharton, Danny McCarthy, Spencer Watson, Beth Bowersox, Nathan Gariety, Olivia Darling Busby, Mac Ericsson, Alexander Shimoyama, Jet James Grant, Autumn Molina, Marian Jones, Emmery Davis, Elizabeth Hsu, Audrey Pazienza, James Anderson Ford, Andrew McMaster, William Troy Ford, Kaius Eteeyan, Bennett Gariety, Mia Wagenman, Sophie Jane Frick, Evelyn Thorpe, Scire Amor, Leela Rice, Gavin Lee Galbraith, Daelynn Rayne, Kenneth Hardison, George Quintana, Porfirio Chavarria, AJ Trujillo, Diego Montoya, Sean Norman, Jason Dyer, David Broshious, Matt Bergstrand, William Lopez, Jason Finney, Freddie Martinez, Ken Lowe, Gary Kraus, Devon Wycoff, Peter Diseth, Denielle Fisher Johnson, Kristy Nelson, Brian Hill, Mo Beatty, Cesario Flores, Ginger T. Rex, Hannah Mosqueda, Christopher Hagen, Stephanie M. Jones, Justin Mann, Merritt C. Glover, Jermaine Washington, Sofia Embid, Carrie Lazar, Martin C Patterson, Eb Lottimer, Henry Frost, Katy Tierney, Cheyenne Chavez, Brittany Van Wyk, Sigrid Hannah Mabel, Jace Wensley, Briggs Thompson, Willie Brown, Ariana Rico, John Emory, Donald Lindsey, Tanner Tixier, Bianca M. Quintana, Sabrina Varela, Jeffery Leroy Herrera, Savannah Dierra-Nicole Parker, Ali Vaisvil, Dave E. Hunt Sr., Dave Peña, Craig Dirgo, Frank Woods, Paul Thompson, Norm Lee, Kiyoko Goto, Lydia Bohannon, Martin Arellano, John Grabowska, Elizabeth M. Kallman, Sarah Melissa Barker, Robert Wise, Paul Carlos, Jason Morris, Shem Hawkins, Cali Alexander, Joellyn Baca, Richard Beal, Jared Chavez-Washington, RaShayla Daniels, Yvette Fazio-Delaney, Louie Giannini, Lincoln Leon Grant, William Harrold, Rachel James, Stephanie Jones, Darlene Kellum, Steve Larese, Joanne Marie, Cesar Miramontes, April Molina, Viviana Quintana Montano, Kiersten Nord, Alexander Randazzo, Mikey Rice, Sarah Ann Santos, Kind Shaun, Pari Shimoyama, Taylor Trujillo, Shannan Wagenman e Nick Wason.

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