Filmes baseados em histórias reais transcorridas durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente as testemunhadas por sobreviventes do extermínio sistemático de judeus pelo regime nazista alemão e seus colaboradores (Holocausto), tende a chocar e emocionar ao mesmo tempo. Essas emoções são facilmente aguçadas durante e depois de assistir ao filme O Mundo Vai Tremer (The World Will Tremble, 2025), uma coprodução internacional de drama histórico escrito e dirigido pelo cineasta israelense-americano Lior Geller.
O enredo, do gênero drama de guerra, tem como ponto de partida a floresta que cerca o campo de extermínio de Chełmno (Kulmhof), localizado na Polônia ocupada, a 50 quilômetros de Łódź, próximo a uma pequena vila chamada Chełmno nad Nerem. Em uma clareira da floresta (Waldlager), um grupo de prisioneiros judeus é forçado a cavar uma vala comum. No entanto, Solomon (Oliver Jackson-Cohen), Michael (Jeremy Neumark Jones) e outro judeu chamado Wolf Kaminski (Charlie MacGechan) são escolhidos para separar os pertences dos novos prisioneiros que serão enviados ao campo de extermínio de Chełmno, comandado pelo Sturmbannführer (Major) Herbert Lange (David Kross).

No caminho, os três conterrâneos judeus discutem a ideia de fugir dali. Wolf é quem tenta convencer os dois colegas a executar o ousado plano de fuga. Com medo de que as coisas não saiam como planejado, Solomon e Michael dizem ter ouvido os poloneses comentando sobre a aproximação dos russos. No entanto, Wolf responde que eles não têm ninguém além de si mesmos. Durante a caminhada pela estrada na floresta, os soldados alemães param diante de um caminhão de gás, cujo compartimento está vazio e sendo limpo por dois prisioneiros. Enquanto isso, o nazista alemão Gustav (George Lenz) tira o sarro de um colega e depois explica como acelerar o veículo para que a fumaça seja liberada do motor para o compartimento onde as pessoas estarão presas. Todo esse desprezo à vida humana ocorre diante dos olhos do trio, que observa com expressão confusa, misturando aflição e medo.
A chegada dos três prisioneiros ao campo da mansão (Schlosslager) de Chełmno é marcada pela recepção do Scharführer (líder de seção) Burmeister, interpretado por Tim Bergmann. Direto ao ponto, o oficial da SS (Schutzstaffel) explica aos judeus como eles devem agir em relação às suas tarefas e como se comportar diante dos novos prisioneiros. Homens, mulheres e crianças desembarcam do caminhão, todos inocentes e sem saber da cruel realidade que terão pela frente ao pisar naquele solo sujo de sangue e banhado por lágrimas de dor. Do topo da escadaria, surge Sturmbannführer Lange, o líder daquele lugar terrível. Acima dos demais, ele profere inverdades e faz falsas promessas àquelas pessoas iludidas e desesperadas.
Em seguida, todos os recém-chegados são obrigados a entregar seus pertences — inclusive as roupas de cima —, que são recolhidos para que entrem no caminhão onde terão a vida ceifada pelo monóxido de carbono (CO) do escapamento durante o transporte. Esse era o principal método de assassinato em massa (entre 152 mil e 340 mil pessoas, a maioria judeus do gueto de Łódź e ciganos): o “caminhão de gás” (um protótipo das câmaras de gás). O monóxido de carbono gerado pelo próprio motor do veículo era redirecionado para o interior do compartimento, assim a morte se dava pela asfixia. Chełmno tornou-se o local central da “Solução Final”.
Assim que todos embarcam no compartimento de gás do caminhão, seguem novamente para o local onde os três prisioneiros estavam cavando a vala comum em que os corpos dessas novas vítimas dos nazistas serão despejados e cobertos por cal (óxido de cálcio ou cal hidratada). Essa técnica macabra é empregada para acelerar o processo de decomposição, ocultar evidências e conter o odor insuportável da carne humana em putrefação. Durante a transferência dos corpos para a vala, um dos três judeus presencia uma tragédia irreparável e dilacerante. Esse acontecimento o leva a implorar para que o oficial alemão/nazista Lenz (Michael Epp) tire a sua vida, o que acontece posteriormente com outro integrante do trio, em mais uma cena macabra e perturbadora.
A cena em questão contém uma atmosfera pesada, que se intensifica de maneira caótica por meio da insanidade de todos aqueles oficiais nazistas, principalmente do comandante Lange, um ser isento de qualquer resquício de humanidade, cuja alma está imersa nas trevas e entregue às perversidades conscientemente. Ele reúne vários prisioneiros à sua frente e comunica a ordem de Berlim para aumentar a “produtividade” no transporte de corpos com o máximo de eficiência. O que se segue é uma sequência de atos de maldade genuína praticados por um ser desumano.
Depois de degolar um judeu que deixou cair do bolso um canivete roubado, o comandante Lange bebe um gole de algum destilado e convoca um violinista judeu para tocar uma música animada e ordena que todos dancem. No mesmo instante, uma jovem mulher, vestindo apenas uma camisola e toda machucada, provavelmente vítima de abuso sexual, é obrigada a entrar na “dança da morte”, enquanto os nazistas dão tiros a esmo na direção dos pés. Um dos disparos acerta a pobre garota, que morre na hora, deixando o comandante irritado com seu subalterno. Ele põe fim à festa macabra e ordena que seus homens pratiquem tiro ao alvo com os judeus segurando uma garrafa de leite vazia sobre as cabeças. Inevitavelmente, isso resulta na morte de algumas pessoas, inclusive Wolf.

Para manter o plano de fuga de Wolf, Solomon e Michael aproveitam que estão trancados em uma sala escura com os seus conterrâneos e revelam para eles que irão fugir pela floresta no dia seguinte, quando estarão no caminhão de transporte. Quando perguntam quem toparia segui-los, um homem mais velho chamado Goldman (Danny Scheinmann) contesta a ideia. Ao ser convidado, ele afirma que os russos estão a menos de 400 km de distância e diz que rezará por eles. Porém, Goldman e Felix (Adi Kvetner), outro prisioneiro, se unem para distrair Lenz e seus homens por tempo suficiente para que a dupla rasgue a lona do caminhão e saia em disparada pela floresta adentro. Eles correm entre as árvores, sob fogo inimigo, até escaparem de vez ao entrarem no rio.
Durante a caminhada para chegar até o gueto de Grabów, onde pretendem encontrar com o Rabino Schulman (Anton Lesser), os dois personagens principais vão passar por situações tensas onde qualquer vacilo pode significar o fim de suas vidas. Tanto a direção quanto o roteiro de Lior Geller seguem um ritmo lento, a fuga do primeiro centro de extermínio nazista a utilizar gás para assassinar judeus e ciganos é carregada de tensão a todo momento. O espectador não tem um minuto de trégua, a respiração quase para a cada encontro, até na companhia do rabino o sentimento da desconfiança paira no ar, ainda mais que ele custa a acreditar nos relatos testemunhados por Solomon quanto ao extermínio sistemático do povo deles, os judeus.
Schulman acaba dando ouvidos ao que Solomon tem a denunciar e começa a anotar, com a voz embargada pelas lágrimas do prisioneiro em fuga, as palavras que vão se tornando o primeiro relato de uma testemunha ocular do assassinato em massa de judeus pelos nazistas. Diante da cena de intensa emoção e tristeza pelas atrocidades vivenciadas, ao terminar a narração dos fatos, o rabino lhe estende as mãos e olhando nos olhos da jovem vítima, promete anotar tudo, dando a ela a certeza de que essas palavras chegarão à resistência para que sejam levadas a Londres. Ele finaliza com as palavras que dão título ao filme: “The World Will Tremble”.
O impacto que o filme O Mundo Vai Tremer provoca nos espectadores não se compara ao que muitos sobreviventes do Holocausto sofreram durante e após esse período sombrio da história, no qual os judeus foram o principal alvo das monstruosidades nazistas. Outras etnias e grupos também foram perseguidos e assassinados sistematicamente, como ciganos (roma e sinti), eslavos (poloneses e soviéticos), pessoas com deficiência, prisioneiros de guerra, testemunhas de Jeová e homossexuais.
A cinematografia de Ivan Vatsov, em conjunto com a direção de Lior Geller, é um dos destaques do filme. A câmera captura o silêncio angustiante das vítimas e suas expressões de terror diante da brutalidade onipresente. Os enquadramentos, tanto em planos fechados e intimistas quanto em planos abertos envoltos em uma atmosfera cinzenta e densa, emocionam o público e lhe causam desconforto diante da barbárie vivenciada pelo personagem. A produção não poupa o espectador do desconforto de uma cena após a outra; a violência é retratada na tela com o devido limite aos detalhes chocantes sobre os meios cruéis pelos quais os nazistas ceifavam vidas humanas com prazer atroz.
Na primeira cena, há um detalhe quase poético: um passarinho, ao chocar dentro de seu ninho, voa dali ao sentir o pinheiro tremer com os golpes de machado que o derruba ao chão, sem que a ave consiga salvar seus ovos da queda. É uma demonstração metafórica de que o mundo vai tremer.
O epílogo é um momento de forte comoção e corroboração incontestável para a produção cinematográfica, especialmente no que se refere à filmagem do idoso Michael Podchlebnik, gravada em 1979. Nela, o bravo sobrevivente do campo de extermínio de Chełmno aparece com um olhar de profunda tristeza e uma expressão angustiante. Com os olhos marejados, ele descreve o momento em que encontrou a esposa e os filhos no campo de concentração: todos estavam mortos em uma vala comum, vítimas de uma covardia e maldade irreparável.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidade sobre O Mundo Vai Tremer
- O filme é baseado na história real de Solomon Wiener e Michael Podchlebnik, dois prisioneiros judeus que escaparam do campo de extermínio nazista de Chełmno, na Polônia ocupada. Seus depoimentos como testemunhas oculares ajudaram a embasar uma reportagem da BBC transmitida em 26 de junho de 1942, intitulada “Plano nazista para matar todos os judeus confirmado”;
- O roteirista e diretor Lior Geller tem uma ligação pessoal com o tema: sua tia paterna foi uma sobrevivente do Holocausto quando criança;
- O filme teve sua estreia mundial no Festival de Cinema Judaico de Miami, em Miami, Flórida, em 16 de janeiro de 2025;
- O roteirista e diretor Lior Geller passou dez anos pesquisando o campo de extermínio de Chełmno e contou com a ajuda da historiadora Dra. Na’ama Shik, do centro memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém;
- A cena em que judeus recém-chegados são instruídos a marcar seus pertences para posterior devolução e recebem a promessa de trabalho remunerado reflete uma tática historicamente precisa. As autoridades nazistas frequentemente enganavam suas vítimas dessa maneira para reduzir a resistência;
- O filme retrata com precisão o uso de caminhões-tanque de gás em Chełmno, onde os gases de escape eram desviados para compartimentos selados para matar prisioneiros. Este foi um dos primeiros métodos de extermínio nazistas e um precursor das câmaras de gás posteriores;
- Durante a cena do “treinamento de tiro”, o Comandante Lange conta a história de um oficial alemão que quase se matou acidentalmente com gases de escape. Isso reflete relatos históricos envolvendo o oficial da SS Arthur Nebe, cuja experiência ajudou a inspirar o uso de monóxido de carbono para assassinatos em massa, com Albert Widmann (químico alemão que trabalhou para o programa de eutanásia Action T4 durante o regime da Alemanha nazista) posteriormente auxiliando no projeto de caminhões-tanque de gás.
Ficha técnica
Diretor: Lior Geller.
Roteiro: Lior Geller.
Produtores: Ed Barratt, Jeffery Beach, Julian Bird, Sufo Evtimov, Lior Geller, Yair Ilan, Kristina Kambitova, Erez Koskas, Arthur Landon, Naomi Levari, Charlie MacGechan, Mckenna Marshall, Nikola Nikolov, Phillip J. Roth, Hal Sadoff, Ben Silverman, Yaniv Tal e Saar Yogev.
Diretor de fotografia: Ivan Vatsov.
Editor: Lior Geller e Tal Keller.
Departamento de arte: Peter Krumov e Krista Vacheva.
Figurino: Irina Kotcheva.
Cabelo e maquiagem: Anna Andreeva, Desislava Manasieva, Ralitsa Roth e Greta Velikova.
Música: Erez Koskas.
Elenco: Oliver Jackson-Cohen, Jeremy Neumark Jones, Charlie MacGechan, Michael Epp, David Kross, Michael Fox, Danny Scheinmann, Adi Kvetner, Anton Lesser, Tim Bergmann, Oliver Möller, George Lenz, Leonard Proxauf, Gilles Ben-David, Ulrich Brandhoff, Martin Petrushev, Uri Roodner, Gergana Pletnyova, Aleksandra Kostova, Kitodar Todorov, JR Esposito, Asen Karanikolov, Daniel Kukushev, Kuber Dobrev, Nikolay Yordanov, Odisey Tsvetkov, Stephen Katz e Ivan Rangelov.


