Antes de iniciar esta resenha crítica, vale fazer o registro de que “O Homem sem Face” (1993, The Man Without a Face) é o primeiro filme dirigido pelo astro Mel Gibson. Já em sua estreia como diretor, o galã de trinta e poucos anos (à época do lançamento) entrega aos amantes do cinema um drama adaptado na medida certa do romance homônimo de 1972, escrito por Isabelle Holland.
A trama dramática narra a história dos protagonistas, o ex-professor Justin McLeod (Mel Gibson) e o sonhador Charles E. ‘Chuck’ Norstadt (Nick Stahl). Ao nascer uma amizade entre eles, McLeod passa a dar aulas para que o jovem aprendiz conquiste o seu objetivo de passar no exame e assim ingressar na academia militar, ao mesmo tempo que os ensinamentos do tutor vão mudar para sempre a vida de ambos, em especial de Chuck Norstadt.
A produção tem como cenário uma cidade litorânea de veraneio e uma ilha localizada perto do Maine, terreno gramado com rochas onde entre elas entranham uma floresta de pinheiros que circundam a imponente residência (situada acima da costa rochosa) com vista para o mar do ex-professor Justin McLeod, um homem que vive recluso há 7 anos, desde o dia em que sofrera um acidade de carro que o deixou com metade do rosto desfigurado, assim como boa parte do corpo também sofrera com a queimadura provocada pelo infortúnio automobilístico – acidente que resultou em uma vítima fatal e uma série de problemas na vida pessoal do protagonista.

O sustento do homem recluso advém do trabalho como ilustrador freelancer. Infelizmente, a vida low profile se tornou conturbada devido ao seu passado envolto de mistérios que fez os habitantes da ilha e os veranistas terem atitudes preconceituosas e a colocar nele apelidos desagradáveis. A vida reservada também se fez por conta da circulação de rumores de que ele tenha sido responsável por matar a esposa, assim como culpá-lo também pela morte de um garoto.
A aproximação do garoto Chuck Norstadt com o “homem sem rosto” se dá por conta deste ser um ex-professor e o garoto estar interessado em estudar para refazer a prova que o levará para a escola preparatória da academia militar, exame que ele já tinha feito e reprovado. Ao procurar o homem em sua casa para lhe fazer convencer a ser o seu tutor, McLeod age de modo rude e ao mesmo tempo se mantém distante. Mesmo com um certo receio devido aos boatos de morte que envolvem o desconhecido McLeod, o garoto atravessa a baía e bate à porta da casa novamente para pedir que ele o ampare quanto a orientação nos estudos.
As primeiras atividades utilizadas por Justin McLeod não tem nenhuma relação direta à prática ortodoxa de estudos, pois é incumbido a Chuck cavar um burado de um metro cúbico; em seguida o menino se vê com uma tarefa menos braçal e relativo a prática do estudo nem tão convencional: escrever um ensaio. Assim que essas atividades são passadas, o espectador acompanha uma baixa de guarda do orientador quanto ao seu aprendiz que logo se torna uma amizade para além do tutor, o que se vê e se sente mais para frente é uma aproximação quase paternal, principalmente quando Chuck descobre a verdade sobre a vida do pai, já morto.
Em “O Homem sem Face”, Mel Gibson se divide em duas funções e em cada uma executa a sua dupla função como poucos. Enquanto ele está no comando da direção, a versão ator entra em cena por meio de seu personagem, Justin McLeod, um homem que encontra-se em isolamento para se manter “protegido” dos ataques difamatórios disparados por pessoas desconhecidas que insistem em dar apelidos infames, além de acusá-lo de matar um aluno.
Apesar do personagem adulto principal sobreviver em sua solidão na companhia das mazelas físicas e psicológicas relacionadas a sua vida pregressa e ao acidente de carro, o ator não deixa que a melancolia domine a personalidade do personagem e impõem uma interpretação forte sobre um homem que se dedica a ensinar um garoto e ainda o prepara para no futuro ser um homem forte, virtuoso em seu caráter, responsável nas atitudes com o próximo, dedicado aos estudos e focado em alcançar o seu objetivo, mesmo que algumas intempéries da vida caia sobre suas costas.

Mel Gibson comprova sua versatilidade na arte da interpretação diante dos olhos do espectador. Ao lado do já seguro ator, contracena um garoto com pouco mais de dez anos de idade chamado Nick Stahl. Mesmo sendo sua estreia como ator em um longa-metragem, Stahl demonstra talento ao dividir cenas com um ator já experiente. Apesar de estar apenas iniciando na carreira artística, o jovem consegue externar suas emoções mantendo o domínio interpretativo em uma qualidade que o diferencia de outros atores com a mesma idade.
O roteiro adaptado de Malcolm MacRury, consegue transpor para o audiovisual uma versão que eleva a importância do relacionamento e do ensino como uma maneira de se desenvolver como uma pessoa adulta, disposta a lutar para alcançar os seus sonhos diante das forças contrárias, isso sem utilizar de apelos emocionais. Donald McAlpine utiliza muito bem o cenário natural em sua direção de fotografia de tom leve e descontraído, apesar do clima de tensão pontual.
Quanto à composição sonora de James Horner, ouve-se com certa discrição a inserção da música em consonância ao momento encenado, seja na introdução, no decorrer de um ato ou no final de uma cena. Há em todo enredo de “O Homem sem Face” uma interação homem e natureza simples em sua beleza orgânica, assim como uma ação que denota movimentos de virtude que logo se reflete no próximo. Essa é uma característica iniciada neste primeiro filme dirigido por Mel Gibson e que se replica nos filmes seguintes, exemplos máximos são vistos em “A Paixão de Cristo” (2004) e “Até o Último Homem” (2016), coragem e amor ao próximo são algumas das virtudes mostradas nesses filmes.
A família de Chuck Norstadt parece não acreditar na capacidade intelectual do garoto para fazer novamente a prova e ser aprovado para ingressar na academia militar. Entre a mãe e as duas irmãs, a irmã mais velha, Gloria Norstadt (Fay Masterson), é a que mais desacredita no intelecto do menino. Toda essa falta de confiança da sua família para com ele, não se aplica ao propósito do sonhador Chuck. Quanto ao sonho, há momentos em o adolecente entra em uma espécie de transe, ele fica paralisado enquanto o olhar ausente se encontra em um horizonte onde somente ele vislumbra.
Apesar de ser a irmã mais nova, Megan Norstadt (Gaby Hoffmann) parece ser uma garotinha inteligente e comunicativa, os diálogos entre ela e seu irmão têm um tom até certo ponto consciente, eles aparentam ter uma idade intelectual acima do normal. Infelizmente, a família de Chuck é toda desorganizada, pois nada aparenta ser normal. Apesar das conversas mais tranquilas com a irmã Megan, sempre sai uma faísca entre eles; já com a irmã mais velha a relação é ainda mais complicada.

Os três filhos de Catherine Palin (Margaret Whitton) são de pais diferentes, o que faz o núcleo familiar ser ainda mais complexo – acrescido à desordem familiar, há também a falta da presença física e emocional da figura paterna no dia a dia dos filhos. A relação entre a mãe e Chuck também tem suas rusgas, mas nada que uma conversa franca entre mãe e filho não resolva o desentendido – situação que é vista quando a mãe fala a verdade sobre a vida e os problemas do pai de Chuck, e este explica o motivo dele nunca ter dito a mãe que ia ver o Sr. McLeod.
Na cena inicial de “O Homem sem Face”, Chuck Norstadt narra o seu sonho, nele o garoto encontra-se no desfile, todo ornamentado com o uniforme militar oficial e sendo carregado nos ombros dos colegas; na plateia estão sua mãe e suas duas irmãs aparentemente orgulhosas dele, entretanto, havia entre o público, um rosto ao longe que o intrigava, pois ele nunca conseguia ver. Pode-se identificar aqui uma autoconfiança e uma fé existente em Chuck, junto à ousadia em parceria com a inteligência que o capacita a ter sucesso na vida futura.
O papel de Justin McLeod na vida de Chuck Norstadt foi mais que a de um professor, ou que de um melhor amigo – acredito que as idas e vindas na casa do “homem sem face” foi muito mais que uma experiência de vida e um despertar consciente da sua inteligência – Chuck transferiu no Sr. McLeod a imagem do pai, assim, no final, ele pôde enxergar e acenar para o homem lá longe, agora reconhecível pela face. Apesar da consideração de ambos, o adeus (por força maior, leia-se inJustiça) entre eles foi entendido graças ao homem maduro que se tornou Charles E. Norstadt.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidades sobre O Homem sem Face
- Mel Gibson só se escalou para o papel de McLeod depois de não conseguir encontrar nenhum outro ator satisfatório disposto a assumir o papel;
- Estreia de Mel Gibson como diretor;
- A estreia de Nick Stahl como ator em um longa-metragem;
- A cena entre Justin e Charles na montanha com vista para a água foi filmada na Montanha Bradbury, localizada em Pownal, Maine. Devido à queda acentuada para a água, a montanha teve, por muitos anos, uma cerca de proteção na lateral voltada para a água. Os cineastas removeram a cerca antes das filmagens e a recolocaram depois;
- A poesia que Justino recita para si mesmo, sentado sozinho perto da lareira, é uma tradução dos quatro primeiros versos da “Eneida”, um poema épico escrito em latim no século I a.C. por Públio Vergílio Maro, mais conhecido em inglês como Virgílio. Os mesmos versos estão inscritos na placa do relógio que Chuck admirara anteriormente, mas com as palavras em uma ordem diferente daquela escrita por Virgílio;
- Jeff Bridges foi considerado para o papel de Justin McLeod;
- O filme se passa em 1968;
- Harrison Ford, Kevin Costner, Dennis Quaid, Tom Hanks e Robin Williams foram considerados para o papel de Justin McLeod;
- O poema sobre aviões que McLeod dá a Chuck para ler é “High Flight”, de John Gillespie Magee;
- Uma das três colaborações entre Mel Gibson e James Horner. Este filme foi o primeiro, juntamente com “Coração Valente” (1995) e “Apocalypto” (2006). James Horner também compôs para “O Preço de um Resgate” (1996), estrelado por Mel Gibson e dirigido por Ron Howard, com quem Horner também trabalhou em filmes como “Cocoon” (1985), “Willow: Na Terra da Magia” (1988), “Apollo 13: Do Desastre ao Triunfo” (1995), “Uma Mente Brilhante” (2001), “O Grinch” (2000) e “Desaparecidas” (2003);
- William Hurt foi procurado para o papel principal;
- A música que Megan está cantando no cemitério é “Born a Woman”, de Sandy Posey;
- Michael Keaton, Andy Garcia, Alec Baldwin, Ray Liotta, Sean Penn e Kurt Russell foram considerados para interpretar Justin McLeod;
- A breve cena, supostamente de Boston, Massachusetts, no início do filme, é na verdade a orla marítima de Portland, Maine;
- Segundo filme com música de James Horner, no qual Gaby Hoffmann aparece. O primeiro foi “Campo dos Sonhos” (1989);
- Embora o filme sugira que Justin McLeod (Mel Gibson) é totalmente inocente de pedofilia, o romance, no qual o filme foi baseado, contém uma cena que sugere fortemente que o tutor molesta seu aluno, Chuck. Gibson optou por remover esse elemento da história para “dizer algo mais positivo”;
- O filme recebeu uma indicação à categoria de “Melhor Filme para a Família – Drama” do “Young Artist Awards” de 1993;
- A atriz Gaby Hoffmann foi indicada na categoria “Melhor Atriz Jovem de Cinema” no “Young Artist Awards” de 1993;
- Outra indicação foi destinada ao ator Nick Stahl, ele concorreu na categoria “Melhor Ator Jovem de Cinema” do “Young Artist Awards” de 1993;
- Nas épocas dos lançamentos dos filmes “O Patriota” (2000) e “A Paixão de Cristo” (2004), houve um boato atribuído ao radialista americano Paul Harvey de que o filme fora baseado em um incidente real acontecido com Gibson quando ele era jovem. Foi provado ser falso;
- O tratamento da sexualidade entre Justin McLeod e Chuck Norstadt é diferente no livro comparado com o filme. No original, o comportamento de McLeod é propenso ao aliciamento infantil enquanto o menino sente afeição por ele, bem mais do que o sentimento por uma figura paterna. Há uma passagem que implica fortemente McLeod no abuso sexual de Chuck em seu quarto. No filme, McLeod não demonstra interesse sexual no menino, havendo apenas uma cena em que Chuck aparece em roupa de baixo saindo do quarto em que dormia, ao ouvir o chamado do policial;
- Gibson tinha expressado desconforto com o livro devido ao contato sexual entre McLeod e Chuck: “Eu li o primeiro roteiro e foi o que eu gostei. O livro é apenas – Desculpe, mas o cara fez aquilo. E você sabe como ou por quê? Eu apenas queria dizer alguma coisa muito mais positiva”;
- “O Homem Sem Rosto” foi lançado em 25 de agosto de 1993, em 865 cinemas. Ficou em quarto lugar nas bilheterias dos EUA, arrecadando US$4,0 milhões em seu fim de semana de estreia. Em seu segundo fim de semana, estreou em 1.065 cinemas, arrecadou US$5,4 milhões e ficou em segundo lugar. Após cinco semanas nos cinemas, o filme arrecadou US$24,7 milhões. Internacionalmente, arrecadou US$11,9 milhões, totalizando US$36,6 milhões em todo o mundo.
Ficha técnica
Diretor: Mel Gibson.
Roteiro: Isabelle Holland e Malcolm MacRury.
Produtores: Dalisa Cohen, Bruce Davey, Donald Ginsberg, Stephen McEveety e Bob Schulz.
Diretor de fotografia: Donald McAlpine.
Editor: Antony Gibbs.
Design de produção: Barbara Dunphy.
Figurino: Shay Cunliffe.
Cabelo e maquiagem: Roland Blancaflor, Greg Cannom, Mitch Devane, Stephan Dupuis, William Howard, John Logan, Stephen Prouty, Jo-Anne Smith-Ojeil, Todd Tucker, Keith VanderLaan, Larry Waggoner e Robert E. Watson.
Música: James Horner.
Elenco: Mel Gibson, Nick Stahl, Margaret Whitton, Fay Masterson, Gaby Hoffmann, Geoffrey Lewis, Richard Masur, Michael DeLuise, Ethan Phillips, Jean De Baer, Jack De Mave, Viva, Justin Kanew, Sean Kellman, Chris Lineburg, Matilda Kelly Wood, Jessica Taisey, David A. McLaughlin, George Martin, Timothy Sawyer, Lawrence Wescott Jr., Michael Currie, Stanja Lowe, Zach Grenier, William Meisle, Robert Hitt, Mary Lamar Mahler, Robert DeDiemar Jr., Drew Guenett, Gene Leverone, Malcolm MacRury, George D. Fuller, Harriette C. Henninger, Edmund Genest, John B. Guptill, Michael Forte, Elizabeth S. Clarke, Ryal Haakenson, Mark Mannette, Sam Nelson e Jim Rhine.


