Resenha crítica do filme Máquina de Guerra (2026, Patrick Hughes)

No novo filme do diretor Patrick Hughes, Máquina de Guerra (War Machine, 2026), a ficção científica se une ao gênero de ação para oferecer ao espectador um vislumbre frenético do que em breve pode se tornar uma realidade bélica potencializada pela tecnologia e pelo avanço da inteligência artificial (IA) e seu uso inconsequente. Um aviso aos aficionados por ação: apesar dos exageros, o gênero é explorado em sua potência máxima em uma atmosfera que lembra obras como O Predador (1987) e Transformers, com uma estreita característica visual semelhante a do jogo Metal Gear, da Konami.


Infelizmente, mesmo cedendo aos clichês do gênero, aqui potencializados pela ficção científica alienígena e pela imortalidade humana, a presença do robô extraterrestre se aproxima mais da realidade terrena da junção entre homem, máquina e tecnologia do que o instinto de sobrevivência indestrutível do herói de guerra fictício feito de carne e osso identificado pelo número 81 (Alan Ritchson), exceto se a fé operar milagres divinos.

Em algum lugar deserto de Kandahar, no Afeganistão, um sargento desconhecido e engenheiro de combate (Ritchson) chega para prestar apoio ao comboio de seu irmão, líder de esquadrão (Jai Courtney). Enquanto conserta o veículo, ele ministra uma aula sobre a primeira lei da termodinâmica ao irmão, responsável pelo último reparo que resultou na quebra do carro. Ao citar o acrônimo D.F.Q. (“Don’t Fucking Quit”, ou “Não desista, porra”, em português) tatuado no antebraço dos irmãos, vem à tona a desistência de ambos no Programa de Avaliação e Seleção de Rangers (RASP).

A insistência de um dos irmãos para que ambos se candidatem a tornar-se Rangers estende-se até que o irmão protagonista aceita, devido à promessa que fizeram na juventude. Como promessa é dívida, ele se convence e, em breve, começará a correr atrás da tão sonhada insígnia dos Rangers. Ao concluir o reparo e topar ser um dos aspirantes à unidade de elite, o futuro candidato número 81 se despede do irmão. No entanto, de repente, eles são surpreendidos por um ataque de insurgentes talibãs. Todos caem mortos, exceto o sargento, que sofre uma lesão no joelho e um trauma irreparável ao encontrar o irmão moribundo, ainda respirando, e falhar ao tentar mantê-lo vivo.

Segundos antes de serem atacados, o engenheiro de combate (posteriormente o de número 81) aceitou entrar para o Programa de Avaliação e Seleção de Rangers (RASP) com o irmão.
Após consertar o veículo, o engenheiro de combate (posteriormente número 81) cede à insistência do irmão mais novo e entra com ele no Programa de Avaliação e Seleção de Rangers (RASP), segundos antes de serem atacados.

A caminho do 75º Regimento Ranger para se credenciar ao treinamento, o sargento (que já havia sido reprovado quatro vezes no exame físico) recebe o número de identificação 81. Por causa de sua graduação, ele deveria ser o líder, mas 81 preferiu rejeitar a posição. Inicia-se, então, o processo seletivo de oito semanas, considerado o mais difícil do mundo. Os postulantes a Ranger terão de enfrentar um percurso extenuante, no qual o físico, o mental e o emocional serão levados ao limite máximo e além. Se alcançarem a fase final, deverão enfrentar uma missão simulada de 24 horas conhecida como Marcha Mortal. A tão almejada insígnia dos Rangers será conquistada apenas por quem ultrapassar a linha de chegada.

Embora se destaque em todos os exercícios, 81 sofre psicologicamente com algumas lembranças do dia do ataque em que o irmão morreu. Ele se culpa por não tê-lo salvado, um fardo psíquico que quase o faz afundar (literalmente) durante um exercício subaquático. Após esse incidente, 81 é chamado para uma conversa ao “pé de orelha” com os líderes do regimento, o Sargento-Mor Sheridan (Dennis Quaid) e o Primeiro-Sargento Torres (Esai Morales). Na sala, seus superiores pedem que ele abandone o programa para tratar de sua condição de saúde mental, decorrente do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) desenvolvido desde o ataque em que estava com o irmão. Empenhado em cumprir sua promessa (e a de seu irmão), 81 se recusa.

Sheridan e Torres aceitam a recusa de desistência, mas impõem uma condição: 81 deve aceitar liderar a equipe no exercício final, uma missão simulada na floresta para destruir uma aeronave secreta que foi abatida e resgatar seu piloto. Na mesma época, os telejornais noticiam a desintegração e a queda de um asteroide em órbita do planeta. Após a seleção dos aprovados que formarão o esquadrão para a missão final, todos se reúnem em frente a uma maquete, onde o primeiro-sargento Torres fornece as instruções da missão. O líder 7 (Stephan James) se torna o imediato, e o 81, o novo líder da equipe.

Ao desembarcarem dos helicópteros Black Hawk, o espectador sentirá a mesma sensação daqueles homens ao darem os primeiros passos na natureza selvagem que os cerca. O clima da Marcha Mortal é de suspense e tensão, pois eles podem sofrer um ataque surpresa a qualquer momento. Os líderes, os números 7 e 81, transmitem sua mensagem aos subordinados e seguem em direção ao cumprimento da missão. A noite cai, e o número 81 fica de observação com o número 7. De repente, todos se assustam ao ouvir uma explosão e avistar um objeto em chamas passando a toda velocidade sobre o cume das árvores. No dia seguinte, em alerta, eles descobrem um objeto estranho caído próximo ao riacho. Nesse momento, a bússola fica desordenada (o que, ao longo do filme, será um sinal de alerta de que a máquina está por perto) e o rádio VHF fica incomunicável.

Ao pensarem que aquele objeto caído era a aeronave a ser destruída, eles implantam explosivos e acionam o detonador, sem provocar um arranhão sequer. Porém, nas proximidades, o líder da missão (o de número 81) encontra a aeronave abatida e ouve, ao mesmo tempo, a explosão dos detonadores. Ao correr para avisá-los, ele percebe que é tarde demais. O despertar da máquina impressiona a todos, que, com os olhos arregalados e boquiabertos, são escaneados por um laser azul. Em seguida, um novo laser, agora vermelho, é disparado e percorre os corpos identificados como ameaça, tornando-os alvos a serem abatidos. Assim a máquina, munida de um arsenal de armas de outro planeta, investe um ataque violento contra a vida daqueles que foram escaneados.

Ao se preparar para pisar no acelerador do veículo blindado, a número 7 se espanta ao dar de cara com a presença assustadora da máquina de guerra que se aproxima.
Já na posição para assumir o volante do veículo blindado, a única mulher do elenco (identificada pelo número 7) observa, com expressão de espanto, a aproximação da máquina de guerra.

Ao saírem em disparada, os tiros do robô alienígena começam a aniquilá-los um a um, e é possível ver cabeças explodindo, corpos sendo transfixados por tiros de grosso calibre como se fossem gelatinas e membros sendo mutilados o tempo todo. O departamento de efeitos especiais está tão empenhado quanto os postulantes a Ranger que buscam sobreviver a essa implacável ameaça extraterrestre. A fotografia também não deixa a desejar: Aaron Morton capricha nas cenas aéreas, como no momento em que a equipe é transportada pelos Black Hawks, que seguem o curso do rio realizando manobras entre as encostas de pedras e coníferas — uma cena de uma beleza impressionante.

O elenco principal é quase todo composto por atores masculinos. Para não dizer que não falei das flores,  Máquina de Guerra conta com a atriz Alex King (número 44) em seu elenco. Sua personagem é salva pelo superior 81 logo após a máquina entrar em ação. Por ser a única mulher no elenco, Alex King assume um papel importante, quase chegando ao fim do filme, em uma de suas sequências mais fantásticas, na qual ela dirige o blindado M1117 ASV Guardian a toda velocidade, enquanto é atacada incessantemente pelo robô.

O elo entre os números 7 e 81 se torna mais forte, principalmente porque o último tem, mais uma vez, o compromisso de salvar a vida de seu novo camarada — agora ainda mais próximo ao saber que ele conheceu o irmão em um curso — e a chance de se redimir pelo peso na consciência de achar que falhou ao não salvar o irmão da morte. O número 7 se torna o caminho para a redenção do 81, além de lhe dar a força necessária para cruzar a linha de chegada e se tornar um soldado de elite do 75º Regimento de Rangers do Exército dos EUA. Uma conquista alcançada em honra ao irmão e para que 81 possa, enfim, dormir em paz.

O título Máquina de Guerra levanta uma questão: a referência à máquina estaria somente no robô enorme equipado com tecnologia e poder bélico de outro mundo, ou também estaria ligada ao personagem do grandalhão Alan Ritchson, uma máquina de guerra em carne, osso, músculo e testosterona? Tudo o que o espectador de filmes de ação espera, os elementos principais do gênero, pode ser visto de forma explícita e pulsante nessa produção original da Netflix. É no mínimo idiota quem gasta energia fazendo críticas odiosas ao ator principal devido ao excesso de masculinidade e militarismo, assim como fizeram quando assistiram a Tom Cruise em Top Gun: Maverick (2022, Joseph Kosinski).

É claro que a propaganda clássica do poder humano e bélico dos Estados Unidos da América também faria parte do contexto. É redundante: o mundo inteiro sabe quão letal é o Exército dos EUA em situações de defesa e ataque militar. Os americanos lá do norte do continente utilizam com eficiência a via da sétima arte para aguçar o orgulho patriótico, explorando ao máximo o gênero ação a seu favor. Por mais que o longa-metragem tenha um roteiro previsível, muitas de suas cenas extrapolam os limites do corpo humano. Trata-se de um filme de ação raiz que se arrisca ao introduzir a ficção científica em sua história. O importante é que, depois de muita dor e sofrimento, a primeira lei da termodinâmica (a energia não pode ser criada ou destruída, apenas transferida ou transformada), explicada pelo número 81 ao irmão nas primeiras cenas do filme, foi o que o levou ao “caminho das pedras” para explodir a máquina — ou melhor, as máquinas.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico - 3 estrelas (regular)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "Máquina de Guerra" (2026).

 

Curiosidade sobre Máquina de Guerra

  • Alan Ritchson realizou muitas de suas próprias cenas de ação, incluindo uma sequência subaquática que exigiu longos períodos de apneia de até dois minutos;
  • A produção empregou ex-Rangers do Exército dos EUA como consultores militares e projetou suas sequências de treinamento para se assemelharem a elementos dos cursos de seleção de Rangers;
  • O filme teve um lançamento limitado nos cinemas da Austrália em 12 de fevereiro de 2026, antes de sua estreia no serviço de streaming da Netflix em 6 de março;
  • O diretor Patrick Hughes faz uma participação especial no papel do Sargento-mor Hughes;
  • O veículo blindado é um M1117 (ASV; apelidado de Guardian), um veículo de segurança interna baseado nas séries de carros blindados V-100 e V-150 Commando. Foi desenvolvido no final da década de 1990 para entrar em serviço no Corpo de Polícia Militar dos Estados Unidos;
  • As filmagens principais começaram em 16 de setembro de 2024, em Victoria, Austrália, e terminaram em 14 de dezembro de 2024. A produção teria criado mais de 2.100 empregos locais e contribuído com aproximadamente 73 milhões de dólares para a economia de Victoria;
  • Alan Ritchson e Jai Courtney já atuaram em adaptações dos romances de Jack Reacher, de Lee Child. Courtney interpretou o assassino Charlie no filme Jack Reacher, de 2012, enquanto Ritchson dá vida ao personagem principal na série Reacher, da Amazon;
  • A Netflix lançou anteriormente um filme sem relação com este, intitulado War Machine (2017), uma comédia de guerra satírica dirigida por David Michôd e estrelada por Brad Pitt. O filme de ação e ficção científica de 2026, com o mesmo nome, não compartilha nenhuma ligação narrativa ou de produção;
  • No filme, afirma-se que o curso de seleção para guardas florestais é o mais difícil do mundo. Isso não é verdade, de forma alguma. A seleção dos Navy Seals (da Marinha) dos EUA é considerada a mais difícil.
  • Não é bem assim. Acredita-se amplamente que a seleção para o SAS seja a mais difícil, e a maioria das seleções para forças especiais no mundo ocidental se baseia nela, incluindo a Delta Force. Já a seleção para os Navy SEALs se baseia na do SBS.

 

Ficha técnica

Diretor: Patrick Hughes.
Roteiro: Patrick Hughes (história) e James Beaufort.
Produtores: Valerie Bleth Sharp, Naomi Cleaver, Rich Cook, Patrick Hughes, Todd Lieberman, Greg McLean, Nick Satriano, Melanie Turner e Alexander Young.
Diretor de fotografia: Aaron Morton.
Editor: Andy Canny.
Direção de arte: Adrian Dalton, Tony Drew, Michael Rumpf e Kate Saunders.
Figurino: Cappi Ireland.
Cabelo e maquiagem: Michael Baskalakis, Isobel Boekeman, Tara Brawley, Rebecca Buratto, Cassie Campbell, Emily Casey, Mark Cipollone, Meg Coleman, Kat Crisp, Julian Dimase, Jaime Donnelly, Trason Fernandes, Toni Ffrench, Dyan Gregoriou, Emily Keely Heitzmann, Eliza Langdon, Suzy Lee, Tasha Lees, Deborah Lester, Alessando Licul, Amelia Loucas, Helen Magelakis, Matt McMillan, Karlee Morse, Eleanor Tammilka Nurokina, Nele Pandis, Kelsie Parsons, Brooke Pearson, Selena Pertzel, Melanie Quigg, Jacqueline Robertson Cull, Nicole Schipilliti, Nadia Semanic, Lizzie Sharp, Tenika Smith, Zeljka Stanin, Megan Tiltman, Chiara Tripodi, Larry Van Duynhoven, Ashley Vieira, Erica Wells, Edward Yates e Rikki Zucker.
Música: Dmitri Golovko.
Elenco: Alan Ritchson, Stephan James, Blake Richardson, Dennis Quaid, Esai Morales, Jai Courtney, Alex King, Keiynan Lonsdale, Jack Patten, James Beaufort, Joshua Diaz, Jacob Hohua, Daniel Webber, Richard Cotta, Matt Testro, Victory Ndukwe, Heather Burridge, Justin Wang, Elias Anton, Jake Ryan, Christopher Kirby, Joey Vieira, Ditch Davey, Ronald Medcraft, Bilal Younus, Joseph Bruce, Craig Johnston, Greg Kleynjans, Patrick Hughes, Sean Lally, Oscar Russell, Peter Noden, Joseph Abela, Peter Konstantouras, Joe Piasecki, Olivia Bortolazzo, David Tomlinson, Nadia Townsend, Lee Perry, Antonio Alvarez, Will Curtin, Damien Frankling, Henry R Herring, Angela Johnson, Jeremiah Louis, Brad Newton, Joel Phibbs, Ras-Samuel e Parker Stuart.

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