Passados sete anos desde que Shane Black dirigiu o filme “O Predador” (2018), o diretor retorna do hiato para dirigir seu novo filme intitulado “Jogo Sujo” (2025, Play Dirty), longa-metragem que tem como base a história que permeia a afamada série de livros cujo título “Parker” refere-se ao protagonista durão do romance policial iniciado em 1962 e escrito por Richard Stark (pseudônimo utilizado pelo autor Donald E. Westlake).
Nesta adaptação cinematográfica que se dedica a esta resenha crítica, o assaltante profissional Parker é vivido pelo ator Mark Wahlberg que ao lado do seu parceiro de elenco, LaKeith Stanfield (Grofield), garante uma história de ação com um toque de comédia envolvendo todo o suspense em torno da corrida incessante permeada de traições, trapaças, perseguições, tiros, explosões, roubos e vidas ceifadas sem nenhum pudor, em um jogo sujo entre ladrões para ver quem vai assegurar o roubo de um tesouro arqueológico de alto valor.
No início de “Jogo Sujo” o espectador acompanha uma breve amostra da dupla de ladrões experientes Parker e o parceiro de longa data Philly Webb (Thomas Jane) em ação contra os cofres de um hipódromo. Em meio ao roubo, os ladrões são surpreendidos e as coisas fogem do controle dando início a uma perseguição pra lá de inusitada: os carros invadem a pista – em meio à corrida de cavalos – e deixam um rastro de estragos. Após controlar o empecilho, o bando se reúne para dividir a quantia roubada e em meio a eles, Zen (Rosa Salazar) surpreende a todos com uma saraivada de tiros. Nesse impulso mortal, Parker é a última vítima da traidora a ser atingido, o tiro faz com que o líder caia rio abaixo.

Após essa ação praticada sem nenhum rodeio quanto a tomada de decisão, entra em cena uma animação adornando os créditos de abertura junto a uma trilha sonora á la Jazz Noir, enquanto cenas relacionadas ao filme são mostradas até finalizar na que Parker se arrasta para a margem do rio onde caiu baleado. Na sequência, a animação de abertura sai de cena para o retorno da trama onde o espectador é apresentado a um dos personagens engraçados da história, Kincaid (Nat Wolff), entrando no saguão do prédio onde traga um vape antes de se encontrar com um dos vilões de “Jogo Sujo”, o Sr. Lozini (Tony Shalhoub).
Por falar em Shalhoub, infelizmente o roteiro adaptado pelo trio Shane Black, Chuck Mondry e Anthony Bagarozzi, limitou o tempo de tela de um ator que teria muito mais a entregar ao seu personagem e ao enredo, caso fosse dado uma atenção maior a ele. No entanto, o roteiro explora bem a ação do personagem principal e suas habilidades ilícitas aplicadas ao roubo de uma carranca de proa cravejada de ouro e pedras brutas preciosas – uma peça pertencente ao lendário navio naufragado de nome “Dama de Arintero”, um galeão espanhol do século 15.
Na companhia de Parker, uma dupla de personagens chama atenção pelos seus talentos e peculiaridades criminosas: Grofield e Zen – ambos interpretados por atores talentosos em sua arte, LaKeith Stanfield e Rosa Salazar, respectivamente. O modo meticuloso de Parker frente a sua frieza ao agir é somada ao seu modo implacável frente a traição de Zen. Porém, antes de vingar o tiro dado pela ex-parceira de roubo e também a morte de seu amigo Philly, Parker encontra com a talentosa ladra e a cobrança acaba se tornando uma última parceria entre eles. Outro que se junta à equipe de criminosos é Grofield, em companhia de outras pessoas comandadas pelo Coronel Fabrizio Ortiz (Hemky Madera), chefe de Zen. Todos eles estão focados em realizar a ousada missão do roubo bilionário.
Além do sindicato do crime de Nova York, encabeçada pelo chefão Lozini, entra no jogo sujo a figura um tanto quanto caricata de “El presidente” – um corrupto e ditador da América Latina – de nome irônico comparado ao seu modus operandi: Ignacio De La Paz (Alejandro Edda). Entre esses dois vilões, encontra-se a presença do anti-herói Parker e seu bando a fim de interceptar a negociação entre eles ao roubar o tesouro de 1 bilhão de dólares. Aqui é ladrão roubando ladrão, mas sem nenhum ano de perdão (vide o destino de Zen).
O personagem central de “Jogo Sujo”, Parker, não enrola em nada e suas decisões são objetivas e diretas ao ponto, pois trata-se de um assassino brutal que não mede esforços para tirar a vida de qualquer pessoa que tentar atrapalhar o seu crime seguinte. Impiedoso em seus atos, Parker é meticuloso na tomada de ação, um ladrão eficiente que não se baseia em nenhum princípio moral para praticar o roubo, sua ética profissional se baseia na lei do crime e jamais se deixa influenciar pela emoção ou piedade ao próximo, uma vez que a razão de ter o bem alheio é a única que realmente importa.

Sob essas características, Mark Wahlberg sustenta seu personagem com a devida firmeza e seriedade que a persona durona se concentra ao se dedicar unicamente à subtração para si da coisa alheia, tudo conforme o plano traçado minuciosamente. Assim que Wahlberg começa a contracenar com Rosa Salazar e LaKeith Stanfield (indicado ao Oscar de 2021), a história ruma para um ritmo frenético devido ao avanço deles até o ato final, ao mesmo tempo em que alguns personagens se sobressaem quanto à quebra da tensão por meio do humor, muitas vezes em um tom ácido.
Assim que Parker dá início ao seu plano de roubo, o enredo de “Jogo Sujo” toma um ritmo acelerado envolvendo diversos elementos pontuais que compõem um filme de ação, além de continuar a contagem de corpos. Os efeitos especiais possuem atributos estéticos muitas vezes fantásticos, o que colabora ao tom bem-humorado do roteiro. Em certos momentos, as doses de comédia beiram ao humor pastelão e até ao humor ácido, ao mesmo tempo o espectador fica apreensivo com o contratempo gerado pelo Outfit, uma organização criminosa liderada pelo Sr. Lozini.
Na reta final de “Jogo Sujo”, o roteiro surpreende o telespectador em meio as artimanhas encabeçadas pelas audaciosas estratégias de Parker aplicadas ao tesouro (Dama de Arintero) com o intuito de roubá-lo e ao mesmo tempo enganar a todos os seus adversários: o mafioso Sr. Lozini, o bilionário Phineas Paul (Chukwudi Iwuji) e o ditador Ignacio De La Paz. Em meio ao jogo sujo e às reviravoltas, Parker aplica um golpe sujo e derradeiro ao mesmo tempo em que instaura um confronto entre os soldados comandados por De La Paz e aos homens do chefão da máfia de Nova York, Lozini.
Durante boa parte da ação sangrenta ao redor do tesouro incrustado na superfície da carranca de proa “Dama de Arintero”, nota-se um certo arrependimento de Zen quanto à sua traição, sendo ela uma mulher esperta e conhecendo um pouco a fama de Parker – sua aproximação cria uma certa tensão até o fim. Entretanto, Parker não vacila e cumpre com o pedido feito por Grace Webb (Gretchen Mol), viúva de seu amigo Philly, morto por Zen.
Não tenho muita coisa o que dizer contra o filme “Jogo Sujo”, uma vez que o diretor Shane Black possui conhecimento comprovado para escrever e conduzir uma história de ação com assalto, crime, suspense e comédia que destoa das produções insossas, encomendadas aos lotes pelas plataformas de streaming, muitas produzidas para somente inflar os seus catálogos que mais se parecem a uma lata de lixo, pois a maioria dos filmes listados são produtos descartáveis. Mas calma, ative o mode away do cérebro e curta o entretenimento.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidades sobre Jogo Sujo
- Filmado em Sydney, Nova Gales do Sul, Austrália e Nova York;
- Robert Downey Jr. e o cineasta Shane Black, que já haviam trabalhado juntos em “Beijos e Tiros” (2005) e “Homem de Ferro 3” (2013), deveriam se reunir novamente para este filme, mas Downey desistiu por motivos desconhecidos e foi substituído por Mark Wahlberg;
- O rascunho original de “Máquina Mortífera 2”, escrito por Shane Black e Warren Murphy, tinha o título “Play Dirty”. Era um roteiro mais sombrio, mais realista e totalmente diferente do filme finalizado. Apesar da rejeição do rascunho original pelo estúdio Fox, Black considera o roteiro de “Máquina Mortífera 2” (1989) seu melhor trabalho e o roteiro mais intenso que já escreveu;
- Este é o segundo filme de Tony Shalhoub e Mark Wahlberg juntos. O primeiro foi “Sem Dor, Sem Ganho” (2013);
- Após uma longa ausência de sete anos na direção, Black retorna para “Play Dirty”;
- O sindicato do crime opera sob a bandeira de uma empresa chamada The Westlake Group. Donald Westlake escreveu os romances de “Parker” nos quais este filme é baseado;
- Este é o segundo filme de Lakeith Stanfield e Nat Cook juntos. O primeiro foi “Death Note” (2017), da Netflix;
- Como a maioria dos filmes de Shane Black, este se passa durante o período de férias de Natal (Fim de Ano);
- A fotografia principal começou em 19 de março de 2024, no porto de Sydney;
- O filme foi lançado pela Amazon MGM Studios através do Prime Video em 1 de outubro de 2025;
- A obra literária do escritor americano Donald E. Westlake (que escrevia sob o pseudônimo de Richard Stark) do qual o roteiro de “Jogo Sujo” é baseado, serviu de base para outras produções adaptadas para o cinema: “Point Blank” (1967, Point Blank), baseado no livro “The Hunter”, o primeiro da série de romances com o criminoso profissional Parker; “Os Saqueadores” (1967, Mise à sac), baseado em “The Score”; “Quadrilha em Pânico” (1968, The Split), do livro “The Seventh”; “Os Quatro Picaretas” (1972, The Hot Rock), com Robert Redford no papel do personagem Dortmunder; “Um Assalto Genial” (1973, Cops and Robbers), “A Quadrilha” (1973, The Outfit) com Robert Duvall na pele do personagem Parker (alterado para Macklin), “O Troco” (1999, Payback) com Mel Gibson na pele de Parker (nome substituído por Porter), “Parker” (2013) com Jason Statham encarando o personagem-título entre outras várias produções;
- Ainda sobre o escritor responsável por ultrapassar a publicação de um número superior a 100 livros, Donald E. Westlake conquistou o reconhecimento dos colegas de profissão e dos fãs de ficção policial como um dos mestres do gênero, sem falar que ele é homenageado por escritores renomados como Stephen King (conhecido como o mestre do horror) e Duane Swierczynski, que deu ao filho o nome do personagem Parker, além de ser também o nome que complementa a identidade secreta do Homem-Aranha, Peter Parker. O célebre legado de Donald E. Westlake está marcado na história e ainda continua sendo fonte de inspiração, assim como é “Jogo Sujo” (2025).
Ficha técnica
Diretor: Shane Black.
Roteiro: Donald E. Westlake (baseado na série de livros “Parker”, escrito sob o pseudônimo de Richard Stark), Shane Black, Chuck Mondry e Anthony Bagarozzi.
Produtores: Joe Anton, Anthony Bagarozzi, Jennifer Cornwell, Jules Daly, Robert Downey Jr., Susan Downey, Ezra Emanuel, Sam Greenberg, Ben Howarth, Chuck Mondry, James W. Skotchdopole e Marc Toberoff.
Diretor de fotografia: Philippe Rousselot.
Editor: Chris Lebenzon e Joel Negron.
Design de produção: Owen Paterson.
Figurino: Kym Barrett.
Cabelo e maquiagem: Belinda Anderson, Allan A. Apone, Jennifer Lamphee, Sian Richards, Ali Robertson, Micheline Siou, Helen Tuck, Colin Ware e Colin Wilson.
Música: Alan Silvestri.
Elenco: Mark Wahlberg, LaKeith Stanfield, Rosa Salazar, Keegan-Michael Key, Chukwudi Iwuji, Nat Wolff, Gretchen Mol, Thomas Jane, Tony Shalhoub, Hemky Madera, Alejandro Edda, Claire Lovering, Chai Hansen, Sebastian Carr, Nick Russell, Saskia Archer, Byron Coll, Kat Hoyos, Ava Caryofyllis, Harry Peek, Rupert Raineri, Giuseppe D’Allura, Michelle Ang, Audrey Kang, Andrew Ford, Peta Wilson, Patrick Parker, Gemma Dart, Maisy Caudle, Michael Saccente, Orla Saphron, Michael Kotsohilis, Jack Stephens, Adam Dunn, Cinzia Marrocco, Pachanida Lalam, George Tilley, Dan Ilic, Jaime Ureta, Antonio Alvarez, Wesley Senna Cortes, Gabriel Alvarado, Daniel Yi Chen, Jayde Albulario, Les Chantery, Andreas Lohmeyer, Austin Hayden, Noodle Green, Brad McMurray, James Huang, Mark Cometti, Noah Fowler, Matthew Backer, Ashley Lyons, Greg Hatton, Peter Callan, Edward O’Leary, Georgia Jarrett, Manjit Basran, Andrew Shiner, Yure Covich, Corey Liggins, Marisa Beaumont, Eric Bullock, Yvonne Zima, Vincent Andriano, Mark Cuban, Maurice Marvel Meredith, Stephen Hunter, Emily Crow, Susan Parker, Denver Beven, Skye Lane, Michael Bitar, Alex Lee, Kingston Carroll, Mosiah Chartock, Ellie Sanchez, Nik Pagán, Anthony Carvello, Theodore Avery, Juan Bianchi, Jen Boxer, Nicole da Silva, Owen Dyson, EchoPalo, Gary James Flaxman, Robert McFarlane, Emily McKendry, Aiden Mckenzie, Rhett Sever, Ani Sidzamba, Emma Suringa, Esther Tudor, Anthony Vercoe, Craig Walker e Jing Ping Zhao.


