Diferente do conto de fadas clássico, “A Meia-Irmã Feia” (Den stygge stesøsteren, 2025) tira o protagonismo da estonteante “Cinderela”, ou melhor, Agnes (Thea Sofie Loch Næss) e entrega o estrelato para a meia-irmã feia, Elvira (Lea Myren), onde na tentativa de conquistar o coração (e a mão) do príncipe Julian (Isac Calmroth), a garota – iludida para além dos versos e estrofes do poema – vai passar por uma bizarra ditadura da beleza, ação idealizada com segundas intenções pela mãe inescrupulosa, Rebekka (Ane Dahl Torp). O processo até a mudança estética desejável, terá um efeito colateral devastador frente aos procedimentos nada ortodoxos. Uma antítese macabra da beleza feminina.
A história por trás de “Cinderela” é um conto popular datado em cerca de 860 d.C., a mais antiga escrita já conhecida (na versão chinesa), chamada pelo título de “Ye Xian”. Antes do conto ser registrado na versão escrita, foram mais de três mil versões existentes no folclore oral por séculos. O longa-metragem não disfarça ao debruçar sobre a fonte de inspiração de “Cinderela” para beber tanto da versão famosa de 1697, escrita pelo francês Charles Perrault com fada madrinha, abóbora transformada em carruagem e sapatinhos; quanto da versão sombria de 1812, lançada pelos Irmãos Grimm, “Aschenputtel” (no Brasil conhecida como ‘Gata Borralheira’).

Em posse de um livro de poemas de autoria do príncipe Julian, a sonhadora e ingênua apaixonada Elvira vive em devaneios alimentando a esperança de se relacionar por entre versos e estrofes com o desejado amor de sua vida e nobre herdeiro real. Com os pés no chão, Elvira tem ao seu lado a companhia da consciente irmã, Alma (Flo Fagerli) e a frente delas a mãe, Rebekka, que segue a caminho de se casar com Otto (Ralph Carlsson), um homem aparentemente rico e viúvo, que tem ao seu lado a bela filha, Agnes.
Já no primeiro jantar, após o sim e prometer amar na saúde e na doença, além de honrar e respeitar até que a morte os separe, o espectador testemunha uma cena esdrúxula, algo próximo ao que foi protagonizado pelo casal de atores brasileiros Fernanda Montenegro (Charlô) e Otávio Paulo Autran (Otávio), na primeira versão da novela “Guerra dos Sexos” (1983 – 1984), a famigerada “guerra de comida”. Ao cessar o ataque à enteada, Otto morre subitamente à mesa, frente à filha, às enteadas e à esposa.
Para aumentar o desespero das dependentes do morto, logo se descobre que o homem, aparentemente abastado, encontrava-se falido, deixando-as com as mãos vazias e cheias de dívidas. A frustração se mistura à indignação, principalmente quanto à viúva que vê na filha Elvira a esperança e a oportunidade para se dar bem nas custas dos outros. Rebekka logo trata de investir em procedimentos estéticos dantescos para formatar a aparência da filha em uma nova donzela, transformando-a na princesa perfeita para atrair os olhares do príncipe durante o baile no castelo.
Até o baile, serão quatro luas cheias, tempo em que o espectador vai se espantar com os torturantes procedimentos estéticos aos quais será submetida a pobre meia-irmã feia. No cardápio de horror corporal, Elvira, pelas mãos do Dr. Esthétique (Adam Lundgren), realiza uma espécie de cirurgia plástica de nariz como se fosse um pedreiro dando marteladas em um formão até quebrar o osso nasal. Para a aplicação dos cílios definitivos, é feita a exclusiva extensão de cílios costuradas à mão, o método é como de uma costureira: agulha e linha, sem choro nem vela. Anestesia? Nem pensar!
Sem a “ajuda” de um profissional da saúde, Elvira se dispõe à loucura de levar à dores dilacerantes como se decepar e ainda se submeter a engolir ovos de tênia. Muito sangue e vômito vai sair dela como um sinal apocalíptico do próprio corpo. Todo o horror corporal visto ao longo dessa história de terror sombria e grotesca, tem o empenho macabro da própria mãe e também da diretora da principal escola de etiqueta do Reino, Sophie von Kronenberg (Cecilia Forss) – um sugestivo sobrenome em homenagem ao mestre do horror corporal.

A diretora Emilie Blichfeldt consegue ser original, mesmo sendo um longa-metragem que faz referência ao popular conto de fadas da “Cinderela”. O gênero predominante é sem dúvida o horror, no entanto, a comédia de humor negro faz sua participação quanto à crítica (ou seria à sátira) aos procedimentos estéticos realizados principalmente pelas mulheres – uma busca dolorosa e entregue à ditadura da beleza, onde se perde a própria característica física natural para tentar se enquadrar em um padrão estético que muitas vezes resulta em uma aparência estranha – prefiro aqui me utilizar de eufemismo.
Nota-se na ambientalização de “A Meia-Irmã Feia”, que se trata de uma história de época, passada em um tempo longínquo (uma Europa com fortes influências do século XIX) e que remete ao estilo dos Irmãos Grimm, porém é possível fazer uma comparação às produções mais próximas ao contemporâneo. Outro ponto interessante a destacar aqui, condiz à trilha sonora da dupla John Erik Kaada e Vilde Tuv, que insere toques eletrônicos parecidos aos sintetizadores ouvidos na música cyberpunk. Estranhamente, se vê e se ouve o clássico e o futurista em uma vibração aprazível ao tema.
As garotas do elenco dão um show de atuação, sobressaindo entre elas a original interpretação da jovem Lea Myren. A personagem Agnes não se entrega às agruras da vida imposta pela madrasta e vai de encontro buscar o que é dela de fato. Já a irmã de Elvira, Alma, não só se parece com a protagonista da animação “Valente” (Brave, 2012), Merida, mas também tem a sua personalidade forte e que a faz ser a verdadeira heroína de todo o horror que assolou para sempre a vida da irmã.
Destaque merecido também para os efeitos especiais adicionados às cenas e a criatividade aplicada a elas. O realismo diante das aberrações corporais, fazem alguns espectadores colocarem as mãos na frente dos olhos para evitar ver algo grotesco praticado contra o corpo humano; para as pessoas de estômago fraco, as mãos vão direto para a boca. O que se vê é realmente asqueroso, bizarrice total.
Confesso que as ressalvas quanto ao filme “A Meia-Irmã Feia” são mínimas, pois acredito ser uma grande surpresa do gênero durante o ano de 2025, assim como o genuíno e bom pra cachorro, “Bom Menino” (Good Boy) – longa-metragem de estreia do diretor Ben Leonberg. Apesar de serem considerados do mesmo gênero, o superestimado “A Substância” (2024) apela em um caos de vísceras e monstruosidade boçal que a mensagem crítica se contradiz ao histórico da própria protagonista. Aqui, Emilie Blichfeldt estreia na direção por meio de um body horror grotesco, sim, mas que não se perde ao jogar resíduos corporais em demasia, tornando-se um objeto esquecido em seu próprio excremento.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Ficha técnica
Diretor: Emilie Blichfeldt.
Roteiro: Emilie Blichfeldt.
Produtores: Jessica Balac, Maria Ekerhovd, Louise Grosell, Amanda Holmstedt, Lizette Jonjic, Vincent Larsson, Ragna Nordhus Midtgard, Jesper Morthorst, Theis Nørgaard, Luiza Skrzek, Ada Solomon, Christian Torpe e Mariusz Wlodarski.
Diretor de fotografia: Marcel Zyskind.
Editor: Olivia Neergaard-Holm.
Direção de arte: Sabine Hviid e Klaudia Klimka-Bartczak.
Figurino: Manon Rasmussen.
Cabelo e maquiagem: Eliza Bergchauzen, Thomas Foldberg e Anne Cathrine Sauerberg.
Música: John Erik Kaada e Vilde Tuv.
Elenco: Lea Myren, Ane Dahl Torp, Thea Sofie Loch Næss, Flo Fagerli, Isac Calmroth, Malte Gårdinger, Ralph Carlsson, Isac Aspberg, Albin Weidenbladh, Oksana Czerkasyna, Katarzyna Herman, Adam Lundgren, Willy Ramnek Petri, Cecilia Forss, Kyrre Hellum, Agnieszka Zulewska, Staffan Kolhammar, Philip Lenkowsky e Richard Forsgren.


