Resenha crítica do filme A Empregada (2025, Paul Feig)

O hype sobre o filme A Empregada (The Housemaid, 2025) junto ao indesejável sucesso (pela turma da “cultura de cancelamento” por motivos políticos e de estética) da mais nova estrela em ascensão de Hollywood, Sydney Sweeney (e, por que não, sex symbol — e agora empresária do ramo de lingerie com sua marca própria, Syrn), me levaram a assistir à produção de suspense do diretor Paul Feig e a tecer esta resenha crítica sobre a adaptação da roteirista Rebecca Sonnenshine do romance da médica e escritora Freida McFadden.


A personagem interpretada por Sweeney, Millie Calloway, cumpriu dois terços da sua pena de quinze anos. Agora, em liberdade condicional, ela precisa ter um emprego fixo e um endereço de moradia. A vaga de emprego perfeita para Millie atender a essas exigências impostas pela Lei Penal está na entrevista com a ricaça dona de casa Nina Winchester (Amanda Seyfried). Nina fica impressionada ao ler o currículo de Millie, que turbinou as experiências e habilidades profissionais, artifício que ajudou a garantir o ofício de empregada (e babá) na casa da família Winchester.

Até então, as duas personagens femininas, Millie e Nina, contracenavam normalmente. Porém, há algo de estranho no comportamento da empregadora assim que a empregada chega à casa para o primeiro dia de trabalho: o ambiente, que antes estava todo organizado, agora está com os objetos jogados no chão – inclusive a cozinha também está um caos. Segue-se a primeira faxina, até que, de repente, Andrew Winchester (Brandon Sklenar) e sua filha, Cece (Indiana Elle), chegam à residência e param, olhando sem saber quem é a menina “trepada” na mesa de centro, limpando com um espanador o luxuoso lustre suspenso na sala de estar.

Primeira entrevista de Millie Calloway com a sua futura patroa, Nina Winchester.
Durante a entrevista de emprego, Nina Winchester lê o currículo de Millie Calloway e logo tece elogios ao saber de sua experiência e diploma universitário. Ela complementa dizendo que Millie é qualificada demais para a vaga de empregada.

Nesse momento, ao chegarem à casa da família Winchester, pai e filha veem aquela cena, e as primeiras palavras dirigidas à mulher até então desconhecida em sua casa são de Cece: “Não pode subir nos móveis”. Também surpresa, Millie retira o fone de ouvido e vai em direção aos dois para cumprimentá-los e se apresentar, ação complementada por Nina, que entra no cômodo em que todos se encontram e formaliza para a família todos os detalhes quanto a contratação da nova empregada. Ao Sr. Winchester restaram as palavras de boas-vindas à nova funcionária da casa, que logo subiu as escadas e foi direto para o seu acanhado quarto de hóspedes, localizado no sótão.

Apesar de ser uma casa luxuosa, o quarto da empregada é outro mistério encontrado no enredo de A Empregada. O cômodo é simples e tem apenas uma janela sem abertura para a entrada de ar fresco. Além disso, há uma tranca instalada do lado de fora da porta. A empregada relata essas duas observações  à sua patroa, que se sente desconfortável e afirma que vai falar com o “faz-tudo”. Millie pergunta se o “faz-tudo” é o homem no jardim, mas Nina nega ser este e diz que a pessoa no jardim é o jardineiro, Enzo (Michele Morrone), alguém a ser ignorado. Ao pedir a chave da tranca, Nina ri, diz que a situação é bizarra e comenta que o local era utilizado como depósito de arquivos de Andrew, e que a janela fechada e a ausência da chave a fazem se perguntar se eles eram monstros. Toda a sequência dessa cena revela sinais latentes do drama psicológico instalado naquela residência e entre as pessoas que vivem e trabalham lá, inclusive Millie, que agora está prestes a ser envolvida nessa espiral de loucura.

O clima entre os três é de desconforto. O comportamento efusivo e estranho de Nina durante a contratação da empregada, somado às trocas de olhares entre ela e o seu marido, acende um alerta vermelho na mente do espectador: isso tudo não vai terminar bem. A relação entre Nina e sua subordinada chega a um ponto em que a primeira confessa estar grávida. Porém, assim que Millie finaliza sua primeira faxina, um súbito ataque de raiva domina os nervos conturbados da patroa, que loucamente deixa a cozinha toda revirada, num cenário de caos, enquanto culpa incessantemente a funcionária pelo sumiço de um discurso escrito à mão em uma folha de papel para a reunião de pais.

Após esse show caseiro, a tensão faz com que Millie e o telespectador direcionem a atenção à sanidade mental da personagem de Seyfried, que, aliás, se destaca em sua performance corporal ao enfrentar o desafio de expressar dois lados de uma mesma moeda: os momentos de irritação psicológica e a guarda baixa demonstrada em expressões de serenidade e consciência, por pouco tempo, até o próximo encontro ou ordem dada à pobre Millie. Nina tem uma instabilidade emocional que oscila da euforia à histeria agressiva, enquanto Andrew aparenta ser uma pessoa afável. Realmente, algo sombrio se camufla em uma delas.

Em meio a esses intervalos de tempos frente à presença de Nina, a empregada aos poucos encurta a distância entre ela e o provedor da casa, o bonitão Andrew Winchester. Todo encontro a sós entre a atraente Millie e o sedutor Andrew está suscetível a uma explosão de libido que perigosamente pode levá-los à posição horizontal dos corpos, revelando um thriller erótico de alta tensão e periculosidade para os envolvidos nesse triângulo misterioso. Um encontro fadado ao sexo desde a primeira troca de olhares, cujo vacilo se multiplica ao fato de deitar-se com o celular do trabalho dado pela própria mulher do amante, sua patroa.

Millie e Andrew caminham pelo corredor do hotel até seus quartos.
Após curtirem uma noite de espetáculo na Broadway e jantarem em um restaurante pomposo, Millie e Andrew terminam a noite pernoitando em um hotel chique, de início em quartos separados.

Não sei dizer se o roteiro adaptado por Rebecca Sonnenshine segue linha por linha as mais de trezentas páginas da versão literária de A Empregada (Editora Arqueiro, 2023) – a primeira de uma trilogia, pois o enredo revela, sem intenção, o plano nefasto escondido por trás do casal Winchester. Isso parece acontecer sem pudor, o que leva à interpretação de que estão subestimando a capacidade de raciocínio do espectador, principalmente quando os motivos reais por trás do comportamento psicótico e das ações agressivas de Nina vão se revelando.

São muitos os momentos em que o roteiro de A Empregada não se preocupa em entregar a chave do segredo por trás da apreensão, que se revela em pistas quase óbvias dentro e fora da casa, como as discussões do casal, o círculo de “amizade” de Nina e a falta de atitude do jardineiro Enzo, que sabe de toda a dinâmica do relacionamento dos patrões. Aliás, a presença desse empregado no filme desafia a paciência do espectador, pois ele só está lá por sua aparência; não presta para nada, a não ser ficar no jardim como um Manneken Pis (que significa “menino mijão” em flamengo).

Mesmo diante desse colega de trabalho inútil, Millie descobre, aos poucos, toda a dinâmica do casal ao escutar as fofocas de amigas fúteis em visita à casa dos Winchesters e ao ouvir a revelação de uma babá enquanto espera o término da aula de balé de Cece,  e ao fazer outras descobertas que traçam um perfil desprezível de uma das pessoas que a contrataram.

Além dessa visita das amigas falsas da transtornada Nina, outra pessoa que chama bastante atenção – ao mesmo tempo em que contribui para aumentar a carga negativa dentro da casa – é a mãe de Andrew Winchester, interpretada por Elizabeth Perkins. A senhora topetuda de nariz empinado é uma personagem constrangedora. Essa visita intimidadora evidencia o que já estava claro há tempos: o problema estava ali desde sempre, por trás daquele homem de sorriso encantador que atraiu duas mulheres para sua arapuca sádica.

Nos minutos finais, a revelação se escancara de uma vez por todas com um plot twist (reviravolta) na trama que faz amarelar qualquer risada de surpresa. A casa fica bastante movimentada diante das reações doentias de ambos os lados, que parecem se inspirar na sangrenta jogabilidade do icônico Jigsaw, o vilão da franquia de filmes de terror Jogos Mortais (Saw). A caçada ao dito derrocado sexo frágil é invertida com requintes brutais agora praticados pelas mãos delicadas de uma gata borralheira (ao pé da letra), isenta de qualquer referência a contos de fadas. O desfecho mortal é premeditado desde a primeira tomada de Paul Feig, ao enquadrar a vertiginosa escada espiral e seu vão livre.

Antes das considerações finais, o compositor de trilhas sonoras Theodore Shapiro introduz uma mescla de estilos sonoros às cenas, aparentemente com a intenção de agradar públicos distintos. Embora haja muitas músicas instrumentais com uma sonoridade que pende ao clássico, ele quebra esse clima mais introspectivo ao ambientar certas cenas com música pop. Um exemplo é a cena de sexo em que ao fundo uma música ambiente vai se intensificando, conforme a pegada fica mais forte e caliente, até que eles se jogam na cama, momento em que a música “Bad As The Rest” (de Jessie Murph) explode em um volume maior, junto com o tesão e os estrondos dos trovões. Realmente, é um som ambiente broxante, principalmente para uma cena tão íntima quanto o sexo. 

Apesar das pesadas críticas (ou ataques) à adaptação cinematográfica de A Empregada por parte da militância acostumada a fazer bastante barulho, provocadas pelas fortes dores em uma das articulações do braço, muito em razão da presença hipnotizante de Sydney Sweeney, o longa-metragem é uma boa escolha para quem não se importa em assistir a um drama sustentado em um suspense psicológico cercado de mistério e que, de maneira inteligente, se utiliza o nu artístico de bom gosto de uma estrela que “de cadente” só àquelas que se rebelam contra a beleza feminina e o seu talento artístico – e agora aos negócios. Prepare-se para ver mais de Sydney Sweeney nos cinemas. O diretor Paul Feig também retorna. A produtora Lionsgate confirmou a sequência, O Segredo da Empregada, baseado no segundo livro homônimo da série.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico - 3 estrelas (regular)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "A Empregada" (2025).

 

Curiosidade sobre A Empregada

  • Após números de bilheteria muito positivos, a sequência, intitulada “The Housemaid Secrets”, foi aprovada. Sydney Sweeney e o diretor Paul Feig retornam para o projeto;
  • A sequência intitulada “The Housemaid Secrets” (O Segredo da Empregada) foi aprovada após números muito positivos de bilheteria. Sydney Sweeney e o diretor Paul Feig retornam;
  • O diretor Paul Feig disse que era a pessoa mais desconfortável no set durante as cenas de nudez e sexo do filme, dando crédito à abertura do elenco e ao coordenador de intimidade por criarem um ambiente profissional e respeitoso. Ele comparou filmar essas cenas a encenar uma acrobacia ou luta, uma vez que a confiança foi estabelecida;
  • O filme se passa em Great Neck, Nova York, mas a cena no Rutt’s Hut, onde Millie está dormindo em seu carro, foi filmada em Clifton, Nova Jersey. Na verdade, a maioria das cenas foi filmada em Nova Jersey;
  • Em outubro de 2024, Sydney Sweeney e Amanda Seyfried se juntaram ao projeto como atrizes principais e produtoras executivas. Brandon Sklenar foi escalado no mesmo mês, seguido por Michele Morrone em dezembro de 2024;
  • Assim como Enzo, Michele Morrone trabalhava como jardineiro na vida real;
  • Theodore Shapiro compôs a trilha sonora do filme, marcando sua oitava colaboração com o diretor Paul Feig;
  • As filmagens principais começaram em 3 de janeiro de 2025, em Nova Jersey, e foram concluídas em março de 2025;
  • O filme estreou em Nova Iorque em dezembro de 2025, antes do seu lançamento nos cinemas pela Lionsgate no final desse mês;
  • Quando Millie conhece Enzo, ele diz uma frase em italiano, que não tem legenda. A frase é “Cazzo di famiglia di matti”, que se traduz literalmente como “Família de malucos”, com o uso do plural sugerindo que tanto Nina quanto Andrew têm algo a esconder;
  • No romance, Millie acaba namorando Enzo no epílogo (e casando-se com ele nos livros seguintes), apesar das poucas interações entre os dois e do fato de Enzo aparentemente ter mais intimidade com Nina. Esse aspecto é completamente omitido na versão cinematográfica;
  • O filme favorito de Andrew é Barry Lyndon (1975), que conta a história de um irlandês malandro que conquista o coração de uma viúva rica e assume a posição aristocrática de seu falecido marido na Inglaterra do século XVIII. Há aqui um leve prenúncio, já que Millie eventualmente substitui Nina e inicia um relacionamento com Andrew. Além disso, Barry Lyndon (1975) foi dirigido por Stanley Kubrick, amplamente conhecido por seu extremo perfeccionismo e natureza controladora em sua vida profissional, o que pode indicar o próprio controle e perfeccionismo de Andrew na forma como ele trata Millie e Nina;
  • Quando Nina está mostrando a casa para Millie, ela comenta como Millie é desastrada e que um dia podem encontrá-la morta, caída da escada, com o contorno de giz do seu corpo no chão. Isso prenuncia o destino final de Andrew, quando Millie o empurra do patamar, ele cai no pé da mesma escada e morre.

 

Ficha técnica

Diretor: Paul Feig.
Roteiro: Rebecca Sonnenshine e Freida McFadden (autora do livro em que o filme se baseia).
Produtores: Jennifer Booth, Connor DiGregorio, Paul Feig, Laura Allen Fischer, Will Greenfield, Carly Kleinbart, Todd Lieberman, Freida McFadden, Amanda Seyfried, Sydney Sweeney, Christopher Woodrow e Alexander Young.
Diretor de fotografia: John Schwartzman.
Editor: Brent White.
Direção de arte: Naomi Munro.
Figurino: Renee Ehrlich Kalfus.
Cabelo e maquiagem: Tonia Ciccone, Regina de Lemos, Christopher Fulton, Christina Grant, Maya Hardinge, Dierdre Harris, L. Monique Rance Helper, Derrick Kollock, James Lawrence, Allison MacPherson, Brenna McGuire, Danielle Minnella, Carla L. Muniz, Stephanie Pasicov, Christalla Philippou, Tammi Polidoro, Roxanne Rizzo, Layna Roberts, Mark Schmidt, Kim Shriver, Andrew Sotomayor, Valerie Velez, Michelle Waldron e Anozine Walker.
Música: Theodore Shapiro.
Elenco: Sydney Sweeney, Amanda Seyfried, Peter Colandro, Don DiPetta, Lamar Baucom-Slaughter, Michele Morrone, Brandon Sklenar, Indiana Elle, Sarah Cooper, Kathy Costa McKeown, Ellen Tamaki, Elizabeth Perkins, Megan Ferguson, Amanda Joy Erickson, Alaina Surgener, Cailen Fu, Alexandra Seal, Brian D. Cohen, Arabella Olivia Clark, Ken Barnett, Matt Walton, Maury Ginsberg, Piper Rae Patterson, Sophia Bunnell, Jeffrey Bean, Ellen Adair, Bryce Biederman, Brian Smyj, Jen Egan, Emely Cartagena, Hannah Scott, Kaela Abrams, Elaine Apruzzese, Iván Amaro Bullón, Hannah Cruz, John DiGiorgio, Reagan Fitzgerald, Einar Haraldsson, Chyril Paulann e Bree Wen.

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