Resenha crítica do filme Sisu: Estrada da Vingança (2025, Jalmari Helander)

Assim como em 2022 com “Sisu – Uma História de Determinação” (Sisu), o diretor e roteirista finlandês Jalmari Helander repete a sua fórmula insana para filmes de ação. A sequência “Sisu: Estrada da Vingança” (Sisu: Road to Revenge, 2025) é uma daquelas produções em que o protagonista é uma máquina de destruição solitária e calada – o conhecido exército de um homem só -, incapaz de sucumbir diante dos inimigos. “Sisu 2” é um filme de guerra armado de criatividade em cena, um enredo que descarrega ação fantástica em uma explosão apoteótica, onde as dores físicas são ignoradas e as leis da física são desafiadas absurdamente.


A história se passa em 1946, no norte da Finlândia, durante os derradeiros dias da Segunda Guerra Mundial. Ao lado de seu cão fofinho, o protagonista Aatami Korpi (Jorma Tommila) coloca o pé no acelerador e segue rasgando a estrada rumo à sua terra natal, a Finlândia. Entretanto, os termos de paz forçaram o país nórdico a ceder território à União Soviética, dessa maneira, mais de quatrocentos mil finlandeses tiveram que deixar suas casas e se mudar para o lado finlandês. Entre essas pessoas, estava o personagem principal de “Sisu 2”, que no meio do caminho resolve parar em sua casa abandonada – imóvel que um dia fora o lar onde viveu com a esposa e os dois filhos pequenos, todos assassinados brutalmente.

Aatami Korpi é parado na estrada de terra por dois oficiais do Exército Vermelho que lhe pedem o passaporte.
Um guarda do Exército Vermelho vai até a janela do caminhão e pede o passaporte do desconfiado Aatami Korpi. O oficial segue para o veículo onde está o seu superior, Yeagor Dragunov. Este, ao ver a foto no documento, identifica como sendo a lenda Koshchei, o Imortal; seu velho inimigo, retornando para casa com tudo o que restou da vida anterior.

Ao adentrar nos cômodos da pequena cabana, o brucutu sisudo se vê envolto não só de poeira e teias de aranha, mas principalmente da lembrança daquelas pessoas que um dia constituíram o seu núcleo familiar, sentimento esse intensificado ao pegar um porta retrato rachado e se ver entre a moldura na companhia de sua esposa e filhos – realmente essa tomada trata-se do único momento na narrativa que ele expressa o sentimento de dor; a feição carrancuda não esconde o olhar marejado diante da fotografia, logo a dor da saudade se traduz em lágrimas.

Sua entrega à lembrança é transformada em mudança, literalmente. Aatami se empenha sozinho à desmontar toda a estrutura da cabana de madeira e carregar sobre os ombros todas as toras maciças para a carroceria do seu surrado caminhão. Com a posse novamente da matéria prima necessária para a construção da nova casa, ele retorna à estrada com seu cão de companhia e pisa fundo, tendo pela frente 120 km de asfalto e chão batido até o lado da Finlândia não tomado pela URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

Em paralelo, trancafiado em algum lugar da Sibéria, encontra-se o antagonista Yeagor Dragunov (Stephen Lang), o facínora que no passado foi responsável por comandar várias missões de guerra frente a sua equipe, entre elas, queimar aldeias inteiras, ação que acabou por ceifar centenas de civis – entre essas pobres vítimas estavam um menino de apenas dois anos, Otso; um jovem garoto com seus seis anos; Otava, e a mãe deles, Tuulikki. Sob uma chuva torrencial e relâmpagos, um guarda acaba revelando que essas três vítimas fatais eram a família do soldado finlandês Aatami Korpi, considerado uma máquina de matar, o autor da vingança que mandou para o inferno mais de trezentos soldados do Exército Vermelho, ato consumado que o elevou ao patamar de lenda: Koshchei (ou Koschei)… “O imortal”.

Assim que Yeagor Dragunov fica sabendo que Aatami encontra-se em território soviético, é designado pelo oficial a ser o homem a “varrer do mapa” qualquer vestígio do mais temido soldado nórdico. Caso a ordem de destruir o inimigo seja cumprida, ele voltará para casa como um homem rico. Daí em diante, “Sisu: Estrada da Vingança” segue em alta velocidade inspirado na ação épica “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015) e no clássico filme de ação “Rambo – Programado Para Matar” (1982) – cujo protagonista John Rambo é um soldado boina verde e ex-combatente da Guerra do Vietnã com traumas de guerra que o leva a ser perseguido, dessa maneira, o combatente busca sair vivo dos ataques inimigos – jornada que o formata em um exército de uma pessoa.

As influências são vistas nas inserções elementares dos gêneros ação e guerra como estrada, velocidade, motor, explosões, tiros, poeira, pessoas sujas, esfarrapadas e de expressões tanto de fúria quanto de ironia. Outra característica correlacionada ao personagem interpretado por Sylvester Stallone (Rambo) e do personagem de Jorma Tommila (Aatami Korpi) é o fato de ser um ex-comando (soldado de elite) do exército finlandês, traumatizado pelo passado (o assassinato cruel de sua família), cujo destino desencadeou uma busca incessante por vingança. É possível ver nas entrelinhas outros filmes como “Duro de Matar” (1988) e até a animação “Looney Tunes”.

A insanidade não dá trégua diante de um ritmo que segue frenético. São muitos os absurdos envolvendo aviões fazendo manobras mirabolantes no meio de um corredor de árvores ou sendo praticamente catapultado por vigas de madeira; grupo de motociclistas sendo decepados e esmagados, tanque de guerra dando salto mortal frontal e até um trem que se transforma num campo de batalha móvel. Helander ultrapassa os limites da física e do sofrimento humano a dor, ele se aproveita dessas barbaridades para ser criativo ao criar um filme que se sustenta em sua originalidade – apesar de alguns vícios do gênero entre uma cena e outra, mas que não rebaixa a proposta até que divertida em meio a todo esse caos de pólvora, metal, sangue e carne humana.

O editor Juho Virolainen trabalha em perfeita sintonia com o diretor Helander, isso garante que os dois entreguem ao espectador um show em cenas de ação intrincadas em uma carnificina pra lá de espalhafatosa. O extraordinário acaba em um senso cômico. A violência é tão insana que chega a ser motivo de risadas. Atrás da cara feia de Dragunov, esconde um cara hilário em seu modo de conduzir as coisas frente aos seus subordinados, assim como a cena em que ele simplesmente ignora um de seus motoqueiros russos caído na rodovia e o esmaga – o sangue do pobre sujeito espirra no para-brisa do veículo fazendo que ele se irrite em grunhos comparados a de um cachorro feroz.

Yeagor Dragunov dá sinal com as mãos para os motoqueiros russos continuarem em frente para alcançar Korpi dirigindo seu caminhão.
Após Korpi matar com um tiro fulminante o camarada que não seguiu os conselhos de Dragunov, este desce do veículo para tirar o peso morto de dentro e acena para o grupo de motoqueiros russos seguir estrada adentro ao encalço de Korpi em seu caminhão para acabar com a sua existência.

Como se a imagem já não fosse impactante o suficiente, a dupla de compositores que assina a trilha sonora, Juri Seppä e Tuomas Wäinölä, não medem esforços e bombam as pistas por onde Korpi e seu algoz, Dragunov, se apresentam cheios de energia e sangue nos olhos para se matarem. A dupla faz com que os estridentes barulhos de metal se fundam em uma perfeita união de sonoridade – o acréscimo do canto gutural finlandês à linha do tempo serve ainda para lembrar a influência viking na cultura da Islândia, país de origem da produção.

Muito tem a ser escrito quanto aos efeitos especiais aplicados às cenas de “Sisu 2”, porém vou me ater ao capítulo quatro, quando lá do horizonte, dois aviões alemães entram em cena, de um lado um icônico avião de ataque ao solo da Luftwaffe, o bombardeiro de mergulho Junkers Ju 87 “Stuka” e do outro um caça multiuso Messerschmitt Bf 109, ambos fazem uma curva, rumo ao centro da tela, rasgando os céus para além da enorme palavra centralizada na tela que dá nome ao capítulo (‘INCOMING’). Essa entrada ameaçadora dos caças é mais uma tentativa de abater Korpi, um alvo que teima em não se entregar à morte.

Os pilotos são ousados em suas manobras, a sequência dos aviões é um show de acrobacias capturadas em tomadas aéreas que garantem um visual deslumbrante. Os efeitos visuais garantem realismo ao extremo – se não fosse o faz me rir de Korpi frente às suas maneiras mirabolantes de destruir os inimigos, engenhosidades capazes de fazer o próprio MacGyver morrer de inveja. A cinematografia de Mika Orasmaa é formidável, a tradução do roteiro para o audiovisual é realizada com um talento tremendo – vide a seção aérea com os aviões militares voando a toda velocidade em direções e altitudes variadas, tanto a captação de som dos motores e os enquadramentos são quase que uma poesia para os olhos e para os ouvidos – os amantes da aviação vão se esbaldar com tamanha beleza captada pelas câmeras.

A aventura é estruturada como se fosse uma série, igual ao primeiro filme lançado em 2022, “Sisu – Uma História De Determinação”. Ao todo, a história contém sete capítulos: o capítulo um recebe o título de “Home” (Lar), o segundo capítulo se intitula “Old Enemies” (Velhos inimigos), seguido do terceiro capítulo “Motor Mayhem” (Caos Motorizado), logo após vem o quarto capítulo “Incoming” (Chegando), “Long Shot” (Tiro no escuro/Grande risco) é o quinto capítulo, já o sexto capítulo recebe o título de “Revenge” (Vingança) e por fim o capítulo final (Final Chapter). Cada segmento desse é uma tentativa de aniquilar Korpi, mesmo que a artilharia seja pesada e em um momento pareça abatê-lo. Nada faz Dragunov cessar a sua perseguição contra Korpi até que o cadáver do inimigo esteja em pedacinhos, ou em estado de decomposição.

O protagonista não é de falar muito, as palavras quase não saem de sua boca (somente uma esfera de metal que Korpi cospe, depois que se dá conta de um furo na bochecha por onde o objeto entrou). A resiliência dele quanto a dor é vista também em outras cenas de verdadeiro horror: os açoites profundos recebidos nas costas, deixando a carne moída ou quando ele esconde uma faca sem cabo sob a camada da pele, na lateral da coxa, como se fosse uma bainha – a imagem da lâmina sendo retirada por ele da própria perna é uma imagem horrível, um impacto visual agonizante e perturbador.

Por mais que a MPA (Motion Picture Association) deu ao filme finlandês a classificação indicativa R (Restrito) – devido às cenas fortes de violência sangrenta e linguagem imprópria -, “Sisu: Estrada da Vingança” tem os seus momentos descontraídos que de tão ridículos se tornam engraçados, criando assim uma válvula de escape para a tensão absorvida ao longo das práticas extremas de selvageria humana. 

Por fim, a obra do diretor Helander está longe de ser um produto descartável e muito menos esquecível. Quem sabe “Sisu 2” pegue o caminho da estrada pela qual percorre a franquia como “John Wick”, por exemplo – porém, aqui vai um aviso: não se preocupe, até este segundo filme de “Sisu”, o cãozinho segue vivo diante das adversidades extremas e firme nas quatro patas. Inspirado pelo seu dono, o pet dá fortes indícios de colocar em prática o significado da palavra finlandesa que dá nome ao título: intensa forma de coragem, determinação inimaginável, manifestada quando se esvai a esperança.

Inté, se Deus quiser!

 

NOTA: Nota do crítico: 4 estrelas (ótimo)

 

 

Trailer

 

Pôster

Pôster do filme "Sisu: Estrada da Vingança" (2025).

 

Curiosidade sobre Sisu: Estrada da Vingança

  • Inicialmente, Helander planejava escalar um ator mais jovem para interpretar o antagonista do filme, Igor Draganov, mas quando lhe recomendaram Stephen Lang, Helander se entusiasmou com a ideia de ter um vilão com idade semelhante à do herói;
  • O filme foi rodado principalmente na Estônia; apenas a última cena foi filmada na Finlândia;
  • De acordo com o diretor Jalmari Helander, o tom pretendido para o filme e seu foco na ação foram influenciados por ‘Indiana Jones’, ‘James Bond’ e também pelos filmes de Buster Keaton;
  • A ideia para o enredo da sequência surgiu enquanto Helander estava reformando seu apartamento;
  • Jorma Tommila afirmou que utilizou os ensinamentos do diretor teatral Jouko Turkka ao se preparar para seu papel fisicamente exigente;
  • Este filme é o segundo na carreira de Helander a ter um ator americano no papel principal; a última vez foi com Samuel L. Jackson em “Caçada ao Presidente” (2014).

 

Ficha técnica

Diretor: Jalmari Helander.
Roteiro: Jalmari Helander.
Produtores: James Bowsher, Mike Goodridge, Petri Jokiranta, Gregory Ouanhon, Yoav Rosenberg, Antonio Salas e Johanna Trass.
Diretor de fotografia: Mika Orasmaa.
Editor: Juho Virolainen.
Direção de arte: Kaia Tungal.
Figurino: Pille Küngas.
Cabelo e maquiagem: Triin Leppik, Elsa Levo, Elerin Luuk, Jane Mänd, Iris Müntel, Gristina Pahmann, Küllikki Pert, Arlin Ratiste, Piret Sootla, Merlit Veldi, Salla Yli-Luopa e Jenni Aejmelaeus.
Música: Juri Seppä e Tuomas Wäinölä.
Elenco: Jorma Tommila, Stephen Lang, Richard Brake, Tommi Korpela, Kaspar Velberg, Pääru Oja, Erki Laur, Maksim Demidov, Mart Nurk, Riho Rosberg, Martin Kork, Sten Zupping, Veiko Porkanen, Elias Keränen, Robin Täpp, Indrek Taalmaa, Karl Jakob Bartels, Oskar Kröönström, Kristjan Taska, Mauri Liiv, Joonas Koff, Jüri Stsetinin, Tanel Ting, Edgar Vunsh, Aleksander Okunev, Andres Puustusmaa, Sulev Teppart, Igor Rogachyov, Ruslan Izmailov, Marko Leht, Toomas Täht, Simba, Ahti Hyppänen, Albert Sõerde, Alder Lips, Aleksei Galkin, Alvar Viikmäe, Anton Klink, Anton Vassiljev, David Hakobyan, Denis Rahu, Ergo Küppas, Evert Kari, Fred Kaasik, Harlis Viikmäe, Hendrik Luik, Iivari Miettinen, Indrek Lemmats, Jarmo Lappalainen, Jegor Rogov, Joosep Talts, Jussi Lehtiniemi, Jürgen Rahula, Jürjo Võsula, Kaarel Luikmel, Kalev Keeroja, Karl Poll, Katja Lappalainen, Ken Markus Pirnpuu, Kert Pehap, Kevin Kaju, Kristjan Tõnismäe, Kristo Aav, Kristofer Apri, Kristofer Viikmäe, Lauri Linamägi, Madis Kareda, Mart Saar, Matti Halén, Mattias Lill, Maxim Lomalov, Maxim Parkkonen, Meelis Kalda, Mika Tanner, Mooses Helander, Olaf Lorents, Otto Wilhelm, Paul Koff, Priit Pihelgas, Rainer Leius, Rainer Salu, Rainer Talu, Rasmus Tammis, Raul Uusmägi, Rein Kutsar, Risto Kappet, Robin-Ed Sepp, Ronald Jõeäär, Sander Koff, Sander Salumets, Siim Sutt, Salva Helaia, Tanel Ustav, Tarmo Pütsepp, Tauno Sulu, Toivo Fredriksson, Toomas Simon, Toomas Zupping, Toomas Tutt, Urmas Kiriland, Vallo Lindepuu, Vladislav Vassiljev, Martta Kallio, Elo Kallio, Kauno Kallio, Taivallus, Einar Haraldsson, Jaakko Hutchings e Sandy E. Scott.

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