O trem é um veículo que constitui uma série de vagões (unidades de transporte de carga ou pessoas) rebocados e tracionados por uma ou mais locomotivas (responsáveis pela tração do comboio) que correm sobre trilhos de uma ferrovia. No filme do diretor Clint Bentley, “Sonhos de Trem” (Train Dreams, 2025), a palavra trem é mais que um mero substantivo masculino, é o veículo de transporte que remete a um simbolismo em meio ao ambiente que se realiza o trabalho e se passa a vida de Robert Grainier (Joel Edgerton) – homem comum, marido, pai e operário ferroviário. No contexto deste enredo classificado como um drama de época, o trem reflete para o símbolo do progresso e da destruição, dualidade paradoxal no qual o espectador acompanha o dia a dia simples de um homem levando a sua vida adiante e além do que é possível ver.
Sem muita pressa e seguindo os passos conforme exige o estoico protagonista Robert Grainier, o ator Joel Edgerton encara seu papel de maneira magnífica, traduzindo para o espectador toda a complexidade exigida em tela ao representar um personagem que aos olhos da razão demonstra simplicidade no ter. No entanto – quanto a encarar e a expressar as situações mais adversas enfrentadas por Robert -, o lado humano floresce das vísceras em uma personalidade melancólica do ser, relutando seguir em frente com uma vida errante de enfrentamentos e busca pelo verdadeiro sentido da vida até à morte.

A história representada neste longa-metragem tem como fonte de origem a novela homônima publicada em 30 de agosto de 2011 e assinada pelo aclamado escritor norte-americano Denis Johnson (1949 – 2017). A abertura contempla a câmera deslizando lentamente sobre os trilhos que se estendem de dentro do escuro túnel ferroviário afora, cortando o horizonte adentro, em meio à natureza vívida, que através de suas raízes se reconstrói após as quedas – assim assemelha-se à vida humana, aqui representada e vista de perto do nascer ao morrer de um simples homem.
Além da direção, Clint Bentley coescreveu o roteiro ao lado de Greg Kwedar, o resultado dessa parceria na escrita resulta em um roteiro adaptado de grande impacto e que explora a fundo a vida do personagem principal. Robert entra em cena pela voz de Will Patton – o narrador que se propõe a relatar a jornada de um homem modesto desde os seus primeiros dias de vida até o derradeiro dia de “bater as botas”. Assiste-se a uma história de vida fascinante que tem a ver com a resiliência humana perante as dores das perdas, dos traumas e da ressignificação do sentido da vida em meio a luta diária para sobreviver às dificuldades do século XX em seu início, em Bonners Ferry e arredores, no estado de Idaho.
O ritmo da narrativa pode ser classificado por alguns espectadores como monótono demais em sua contemplação – principalmente quando o espectador contemporâneo vive na “era da dopamina”, onde os anseios pelo prazer instantâneo se torna até mesmo impaciente na hora de escutar um áudio de WhatsApp ou de assistir a um vídeo no YouTube, na velocidade 2x adiante. A melancolia que é vista em grande parte do drama intimista, se faz em demasia compreensível após certo acontecimento que ninguém no mundo está preparado o suficiente para enfrentar – a não ser que você seja um monge (feliz daquele que se encontrou sob o hábito sagrado).
Perante toda a sombra que permeia a trama, o trabalho realizado na produção resultou em um dos melhores filmes deste ano de 2025 – pelo menos até o momento que escrevo esta resenha crítica – lançado pela plataforma de streaming da Netflix. Do personagem principal ao figurante presente por entre uma árvore e outra, “Sonhos de Trem” constitui uma obra audiovisual preenchida de vida em seu estado de normalidade, o que há de bom e o que há de ruim se entrelaçam em uma dança em grande parte solitária, vez ou outra a dois, ou melhor, a três. É mais um filme em que o cinema demonstra o seu poder de síntese perante à complexidade da vida, mesmo sendo ela comum aos olhos de uns, porém nem tanto aos olhos de outros. Aqui se vê em som, imagens e interpretações que Inteligência Artificial nenhuma será minimamente humana o suficiente para substituir a alma e o amor de um ser humano.
Visto que aqui o espectador vai de encontro à vida expressa em sua essência natural, vale à pena prolongar os elogios ao filme do diretor Clint Bentley, principalmente em princípio das incessantes produções malfeitas e lançadas em larga escala. A maioria desses filmes são despejados no limbo de um catálogo de streaming, dando ao cliente o falso positivo quanto à inflação de títulos que em sua esmagadora maioria nada tem a oferecer de qualidade e conteúdo – a não ser roubar o tempo de quem arrisca dar o play. Essa crítica específica aos streamings se faz necessário, goste você ou não, caro leitor.

Faz jus à qualidade também tecer elogios ao cenário bucólico da onipresente floresta que se faz cenário em grande parte do tempo. Suas coníferas imponentes em tamanho e beleza, proporcionam sombras – que em contraste com a luz natural do dia – pousam em perfeito esplendor em qualquer superfície ou até mesmo no ar. Mesmo escondida em um familiar cômodo da cabana de madeira bruta, se encontra beleza no detalhe do reflexo da luz bruxuleante de uma chama qualquer acesa. Esses são alguns dos elementos utilizados com elevado talento técnico pelo diretor de fotografia Adolpho Veloso – a cinematografia vista no decorrer de “Sonhos de Trem”, em pleno Noroeste do Pacífico, foi concebida com a luz natural, o que revela um espetáculo em luz e cores oferecidas pela natureza.
É fácil se envolver com a história do lenhador de aparência rústica e seguindo uma vida simplória em tempos extraordinários, dedicando-se por horas e até dias ao trabalho pesado de operário ferroviário, ao mesmo tempo em que se doa à vida de casado e a ser o melhor pai de família, na medida do possível. O errante do seu destino, Robert Grainier, vai ao céu quando finalmente encontrar o verdadeiro sentido da vida ao conhecer e se casar com Gladys Olding (Felicity Jones), posteriormente se tornarem pais da bebê Katie, filha concebida sob o teto da cabana planejada de frente ao rio e construída pelo próprio casal desde o alicerce marcado por pedras.
A ida de Robert ao inferno na Terra se dá ao luto em que se encontra perante as perdas ocorridas no meio familiar e no convívio profissional, neste caso com o colega Arn Peeples (William H. Macy) e suas conversas filosóficas – uma delas sobre o quão pesado é o trabalho deles, não só para o corpo, mas o quanto abala a alma, uma vez que eles são responsáveis pela destruição da natureza ao cortar árvores que estavam plantadas em seu lugar há 500 anos. A dualidade do trem gera um paradoxo: ao mesmo tempo que o veículo terrestre traz a destruição de florestas diante da necessidade de derrubar árvores para a instalação de trilhos, assim se faz o caminho que conduz ao progresso necessário para o desenvolvimento de uma nação, neste caso os Estados Unidos da América.
A profundidade emocional de Robert vem e vai em altos e baixos – muitos sentimentos são manifestados por ele ao longo do caminho solitário. Durante a sua jornada, ele passa a conhecer pessoas de carne e osso como Ignatius Jack (Nathaniel Arcand) e Claire Thompson (Kerry Condon), e ainda conviver com cães que se confundem com lobos, entre outros relacionamentos tão confusos que se equilibram na tênue linha entre a realidade e a transcendência. Segue-se assim, um homem em luto, resiliente a seguir lutando contra os demônios da culpa. A memória se traduz em sonhos regrados a saudade de momentos felizes vividos, outras vezes em pesadelos terríveis envoltos em chamas.
A poesia da vida comum se encerra do alto, a bordo de um avião biplano de passeio, Robert finalmente se vê acima de sua própria vida que já se esvai por entre os dedos. Do céu, um filme sobre a sua vida até então se passa em 360º, tudo vem à tona lá do alto, quando se está mais próximo Dele. Do chão, se vê o caminho do progresso e principalmente da vida do homem comum, porém extraordinário em sua humanidade repleta de saudades, culpas, dores, esperanças, vulnerabilidades e redenção por meio de uma descoberta interior explorada durante uma vida inteira. A sensação que se tem ao enxergar pelos olhos do protagonista, é de sentir a sua conexão plena com tudo de bom e de ruim experienciado ao longo do caminho vivido, até enfim fechar os olhos em descanso total tendo compreendido tudo ao seu redor.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidades sobre Sonhos de Trem
- O elenco do filme inclui três indicados ao Oscar: Felicity Jones, William H. Macy e Kerry Condon;
- Competiu na Competição de Estocolmo do Festival Internacional de Cinema de Estocolmo de 2025 em 8 de novembro de 2025;
- “Sonhos de Trem” estreou no Festival de Cinema de Sundance de 2025 em 26 de janeiro de 2025;
- Sonhos de Trem é uma adaptação da obra homônima de Denis Johnson. Originalmente publicada na revista The Paris Review em 2002, a história foi posteriormente lançada como livro em 2011;
- O filme foi lançado em cinemas selecionados em novembro de 2025, antes de sua estreia em streaming na Netflix, também em novembro de 2025;
- O filme utiliza um narrador, com a voz de Will Patton , para oferecer uma visão do mundo e dos sentimentos de Robert.
Ficha técnica
Diretor: Clint Bentley.
Roteiro: Clint Bentley, Greg Kwedar e Denis Johnson (novela).
Produtores: Joel Edgerton, John Friedberg, Michael Heimler, Scott Hinckley, Will Janowitz, Greg Kwedar, Parker Laramie, Ginny Liberto, Marissa McMahon, Ashley Schlaifer, Teddy Schwarzman e Emma Whitmore.
Diretor de fotografia: Adolpho Veloso.
Editor: Parker Laramie.
Direção de arte: Erin O. Kay e João Lavin.
Figurino: Dakota Keller e Malgosia Turzanska.
Cabelo e maquiagem: Leo Corey Castellano, Jennifer Chavez, Danyale Cook, Luce Cousineau, Kate Dixon, Raposa fulva, Akemi Hart, Kaleena Jordan, Ricardo Martinez, Kaija Mistral, Alexi Sage e Natasha Shallbetter.
Música: Bryce Dessner.
Elenco: Joel Edgerton, Clifton Collins Jr., Felicity Jones, Alfred Hsing, David Paul Olsen, John Patrick Lowrie, Chuck Tucker, Rob Price, Paul Schneider, Brandon Lindsay, William H. Macy, Nathaniel Arcand, Eric Ray Anderson, John Diehl, Beau Charles, Rick Rivera, Taylor McKinley, Ashton Singer, Kerry Condon, Zoe Rose Short, Sean San Jose, Bonni Dichone, Cisco Keanu Reyes, Clark Sandford, Amelia Hilsen, Will Patton, Tim Altevers, Johnny Arnoux, Deborah Brooks, Keith Cox, Malachi Davis, Bonne-Vejou Dorrell, Jerry Dykeman, Ron Ford, Frank A. Gaimari, David Martin Johnson, Pamela Kingsley, Ryan McNeil, Jennifer Simmons e Eric David Wallace.


