O debutante à diretor de cinema Ben Leonberg acaba de lançar ao mundo o seu primeiro trabalho na direção de um longa-metragem, o terror canino “Bom Menino” (2025, Good Boy). Leonberg estreia de uma maneira especial, já fazendo a diferença no formato engenhoso de narrar uma história de terror sobrenatural carregado de suspense e que nos leva para dentro da cabeça de um cão sonhador que interpreta a si mesmo – Indy se dispõe com cautela a encarar uma força malévola que está no encalço de seu dono.
Em “Bom Menino”, o espectador vive a experiência de ver uma história filmada do ponto de vista do protagonista de quatro patas e olhos arregalados, o cachorro da raça Duck tolling retriever da Nova Escócia de nome Indy. Leal ao seu dono, o esperto pet sofre um pesadelo ao ser perseguido por um ser assustador responsável pelo desaparecimento dos antigos moradores da casa de campo que ele está como única companhia de seu tutor. Leonberg nos coloca dentro dos pesadelos terríveis de Indy e faz o espectador acompanhar o cachorro correndo contra o tempo para fugir do ser das trevas que tem como objetivo ceifar a vida de seu dono, Todd (Shane Jensen).

O cenário onde o enredo se desenrola é uma casa antiga e bem conservada cercada pela natureza e que proporciona o clima ideal ao que se propõe o roteiro coescrito pelo estreante diretor em parceria com o roteirista Alex Cannon. Já nas primeiras cenas, o personagem principal demonstra intimidade frente à câmera. Sob muita chuva, o carro para em frente ao portão de acesso à residência, Todd desce do carro para abrir o porão; dentro do veículo, Indy sente que eles estão sendo seguidos e observados por uma presença aterrorizante. A reação agitada do animal potencializa ainda mais a cena carregada de tensão e mistério, seus movimentos ao olhar para os lados impressionam devido a naturalidade em que expressa a sua aflição.
Outra cena seguinte a descrita acima, se passa assim que Todd chega à casa abandonada desde a misteriosa morte de seu avô (Larry Fessenden). Indy se agita para permanecer dentro do carro, sua negação parece uma forma de comunicar que estão em perigo, que naquela casa algo de muito ruim com eles vai acontecer, ou melhor, se repetir. Assim como eles, tempos atrás à casa testemunhou algo enigmático e obscuro que acabou por tirar a vida do avô de Todd e do seu companheiro, Bandit (Max), um cão da raça golden retriever. Seriam eles os próximos moradores a morrer naquela casa amaldiçoada?
Leonberg proporciona a si mesmo uma experiência ousada e principalmente desafiadora ao filmar “Bom Menino”. Dirigir um cachorro deve ser uma tarefa árdua e que exige tempo aos envolvidos na produção, paciência à beça e persistência perante ao que o melhor amigo do homem não está acostumado a fazer: atuar frente às câmeras em meio a toda agitação. O resultado final das gravações de Indy, o cão, surpreende por captá-lo com tamanha naturalidade, um dos principais motivos que contribuem para a repercussão de “Good Boy”. A visão apurada do diretor quanto aos enquadramentos corretos, talvez tenha a ver com o fato de Indy ser o seu pet na vida real.
A interação do cão frente às câmeras é presenciada com naturalidade e carisma em cada cena. Indy se movimenta com coerência ao que cada take exige, as reações denotam seriedade ao que a cena pretende comunicar e realmente o protagonismo do adorável animal de estimação contribui majoritariamente para a produção se tornar um sucesso do gênero.
Assim que assisti ao trailer de “Bom Menino”, a curiosidade foi tamanha frente ao destino do personagem canino perante uma ameaça sobrenatural sentida e vista somente por ele, acrescido da “vítima” não ter a mínima ideia de que a morte espreita por tomar de vez a sua vida. O desespero do animal frente ao espectro assustador da morte não é o suficiente para espantar a sua lealdade ao debilitado Todd. Quem nunca ouviu falar que cachorros sentem a presença de algo que nós seres humanos não enxergamos e muito menos temos a sensibilidade de perceber ao nosso redor? O sucessivo latido e o olhar fixo e distante já é motivo de calafrios na espinha.
O clima de suspense é onipresente, muita coisa em cena contribui para criar a atmosfera sombria perfeita, uma delas é quando Todd sai da casa e deixa Indy trancado – agitado ele começa a latir e em seguida corre para a janela onde fica parado por um longo tempo esperando o retorno de Todd – momento no qual o espectador pode testemunhar a floresta sinistra através dos olhos de Indy. Toda sombra parece esconder algo que nem sob a visão do cão é possível enxergar: quanto mais a morte se aproxima do humano, mais a sua doença o consome, abrindo a porta para que a morte o leve embora.

A duração do filme contribui para que a história não caia na repetição, uma vez que a estrela principal aqui é um cachorro. Pouco mais de setenta minutos são o suficiente para narrar a história, uma decisão inteligente e que acredito ter agradado a maioria dos admiradores do terror sobrenatural. O que engrandece mais ainda este filme independente e desafiador é que Ben Leonberg não utiliza nenhum truque digital complexo, o baixo orçamento faz com que tudo seja realizado na base da raça e do amor pelo cinema. Pedigree é o que não falta para o “Bom Menino”.
Ao assistir a atuação de Indy por entre as sombras da casa mal-assombrada ou se molhando com a chuva no quintal da casa, enxerguei referências a outros caninos, porém não de carne, osso e pelo, mas sim animados por computador: a primeira tem a ver com o contexto em que Indy se encontra, num lugar distante, isolado e lidando com o sobrenatural para proteger o dono, percebi que algo tinha a ver com “Coragem, o Cão Covarde”; a segunda comparação refere-se a uma cena, quando Indy é posto para fora, acorrentado junto à sua casinha, então ele sobe no telhado para ter uma visão melhor de Todd dentro da casa, essa tomada de Indy lembra a famosa imagem do personagem “Snoopy” em cima de seu telhado vermelho.
Todo o mistério visto nos cômodos da casa é muito bem interagido diante da perspicácia de um cão, nada passa despercebido diante do seu faro poderoso e sua audição apurada, qualquer pegada embebida em sangue, barro ou o que seja é motivo para seguir em alerta – assim, todo barulho indistinto é capaz de aguçar instantaneamente o instinto animal de caça, mesmo que este seja um cachorro carismático como Indy. É interessante destacar que o diretor tem o capricho de posicionar a câmera na altura dos olhos de Indy, assim seu campo de visão ao olhar para Todd se limita ao todo, repare que Todd frequentemente tem o rosto obscurecido pelas sombras.
Apesar de ser classificado como um filme de terror, “Good Boy” também flerta com momentos de emoção. A interação sobrenatural de Max com Indy é uma tentativa de mostrar que a vida de ambos corre o mesmo perigo de morte ao permanecer na casa. Ao mesmo tempo, Todd se apega a assistir arquivos famíliares gravados pelo seu avô – são imagens distorcidas em tons obscuros e intercaladas com um típico chuvisco. Em um determinado momento, Todd passa a se comportar de maneira estranha e a rejeitar a companhia de Indy, como se estivesse em domínio de uma coisa maligna.
O roteiro não se utiliza de muitos diálogos, ele serve mais como um fio condutor para o desenvolvimento da trama, a trilha sonora é utilizada com mais frequência para ambientalizar a cena, pois na ausência da fala o ritmo dita a intensidade do que se deseja transmitir ao espectador. Em certa altura dos acontecimentos, pode ser que você se questione qual o sentido real daquele ser assustador rondando os cômodos da casa por entre as sombras em perseguição a Indy e Todd. A interpretação mais plausível diante do que foi mostrado ao longo da narrativa, é que estando Todd abatido por uma doença terminal, a morte se faz presente como um ser abominável do qual nenhum ser humano ousa encarar sem temer. Diante dessa única certeza da vida, a sensibilidade do “Bom Menino” perante a morte não o faz correr e muito menos deixar de permanecer firme em sua lealdade, até que a morte finalmente o separe de seu melhor amigo.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidades sobre Bom Menino
- De acordo com o diretor Ben Leonberg, as filmagens levaram 400 dias ao longo de três anos porque, bem, se trata de um cão ator;
- Indy é na verdade o cachorro do diretor Ben Leonberg;
- Todas as cenas deste filme apresentam Indy ou são narradas do ponto de vista de Indy, o que tornou este filme único e desafiador;
- Após o lançamento do primeiro trailer, as buscas online por “Cachorro morre em Bom Menino (2025)?” dispararam;
- De acordo com uma entrevista do Letterboxd, os quatro filmes favoritos do cachorro Indy são “Rivais” (2024), “Os Pássaros” (1963), “O Enigma de Outro Mundo” (1982) e (claro) “Bud: O Cão Amigo” (1997);
- Indy é um Duck Tolling Retriever da Nova Escócia, conhecido por ser a menor das raças de cães de caça e por sua bela pelagem vermelha. Segundo o American Kennel Club, “o Duck Tolling Retriever da Nova Escócia é inteligente, afetuoso e ansioso por agradar. Brinque de buscar com um Toller incansável até seu braço direito cair, e ele pedirá para você jogar com a mão esquerda”;
- Descrito por alguns críticos como “um dos filmes de terror mais comoventes de 2025”;
- Estreia de Ben Leonberg como diretor de longas-metragens;
- Muitas pessoas compararam o filme a uma versão live action de “Coragem, o Cão Covarde” (1999), mas o criador disse que não havia feito essa conexão até ver postagens no Reddit sobre o assunto após o lançamento do filme;
- No início, a cena em “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981) em que Indiana Jones luta contra vários homens é brevemente mostrada na televisão, obscurecida e em grande plano. Em “Indiana Jones e a Última Cruzada” (1989), é revelado que eles “batizaram o cão de Indiana”. Obviamente, Indy recebeu esse nome em homenagem ao personagem, então o dono era um grande fã dos filmes.
- A maioria dos cães é conhecida por odiar a chuva, o fato de que, durante uma tempestade, Indy estava sentado diretamente em cima de sua casinha de cachorro pode ser uma referência direta a Snoopy. Além disso, nesse mesmo momento, Indy está “espionando” seu dono;
- Nenhum rosto humano vivo é mostrado sem obstruções ou em foco até os minutos finais do filme. O avô e os atores de filmes antigos são vistos na TV ao longo do filme.
Ficha técnica
Diretor: Ben Leonberg.
Roteiro: Alex Cannon e Ben Leonberg.
Produtores: Kari Fischer, Brian Goodheart e Ben Leonberg.
Diretor de fotografia: Ben Leonberg.
Montagem: Ben Leonberg.
Design de produção: Alison Diviney.
Efeitos visuais: Jan Klier, Andy Sanda e Luis Villanueva.
Cabelo e maquiagem: Waldemar Pokromski.
Música: Sam Boase-Miller.
Elenco: Indy, Shane Jensen, Arielle Friedman, Larry Fessenden, Stuart Rudin, Hunter Goetz, Anya Krawcheck e Max.


