Para o lendário diretor japonês Akira Kurosawa (1910 – 1998), a fita do filme “Paris, Texas” (1984) tinha lugar de destaque na sua prateleira. O influente cineasta considerava a obra do diretor alemão Wim Wenders uma de suas cinematografias preferidas. A produção do qual se debruça esta resenha crítica se destaca em todos os quesitos técnicos aplicados ao que considero uma obra-prima do cinema dos anos 1980.
Já no início do filme, o diretor esgarça as mangas para demonstrar que tem domínio técnico por trás das câmeras, uma vez que ele coloca o espectador no ponto de vista de um gavião. A ave sobrevoa o deserto e pousa no cume de pedras para observar com o seu olhar de rapina aquele homem moribundo cruzar sua frente, até virar um galão de água mais seco que sua garganta – o líquido que deveria lhe matar a sede está em falta como sua memória.
Vale à pena prestar atenção ao longo de “Paris, Texas” a maneira como o diretor Wim Wenders enquadra um enorme background de contrastes envolta do personagem principal: hora de um horizonte desértico, silencioso, cercado por suas montanhas amplas, outdoors e estabelecimentos cobertos pela poeira, com seus letreiros de luzes neon opacas a adornar a paisagem árida; horas outras, o personagem se encontra em meio ao cenário movimentado e barulhento da cidade mais populosa do estado do Texas, onde pessoas e máquinas vêm e vão a trabalho ou por diversão, cercadas por imponentes arranha-céus e noites iluminadas pelos brilhos coloridos de fachadas e casas de entretenimento.
A direção de fotografia do cineasta holandês Robby Müller capta com leveza e exatidão paisagens orgânicas desenhadas por Deus, contrastadas aos horizontes de concreto e aço construídos pelo homem. Muito se utiliza das cores para aguçar sensações quanto à representação em cena, a França está para além das fronteiras da cidade americana de Paris, o azul e o vermelho da bandeira francesa entram para a paleta de cores da cinematografia. As notas entoadas na slide guitar trêmula de Ry Cooder ditam com certa melancolia à pujante trilha sonora de “Paris, Texas”. Inesquecível deleite aos olhos e aos ouvidos. Memorável.
De volta ao enredo do filme “Paris, Texas”, a história tem como personagem central um homem de nome Travis Henderson (Harry Dean Stanton), de aparência física catatônica, visualmente maltrapido, que caminha desorientado e exausto sob o sol escaldante – um simples ser a vagar sem rumo em pleno deserto d’oeste texano, cujo os passos – quase descalços pelo desgaste do andar – o faz esquecer do passado familiar; amnésia e solidão se abraçam em um drama psicológico que leva o protagonista a agir e ao mesmo tempo sentir um certo desprezo consigo mesmo, pois ele já não é aquele Travis de ontem, inteiro e cheio de amor.

Ao encontrar um pacato bar coberto em sombra e silêncio, o cansado e sedento Travis vai seco à seção de bebidas e opta pela mais gelada possível, ele abre a porta do freezer e mastiga algumas pedras de gelo até que o corpo não aguenta e sucumbe ao cansaço – temos um corpo estendido no chão, ele ainda sobrevive. Dentro de uma clínica médica iluminada com uma luz verde, Travis tem seu ouvido examinado com um otoscópio por um médico estranho e impaciente que atende por Dr. Ulmer (Bernhard Wicki), isto devido ao fato do homem não responder às suas perguntas como se fosse mudo.
Assim que o doutor encontra um papel com um nome e um número de telefone, trata logo de ligar para saber se a pessoa do número é algum parente ou pessoa próxima ao “homem mudo”, pois o médico diz não ter acomodações para mudos; pois é perceptível o interesse maior em receber o retorno financeiro pelo serviço do que simplesmente ser compassivo e cumprir com o Juramento de Hipócrates, no mínimo.
Após fazer a ligação e avisar Walt Henderson (Dean Stockwell) sobre a situação que se encontra o seu irmão Travis, Walt trata de comunicar sua esposa Anne Henderson (Aurore Clément) sobre a ligação que recebera do paradeiro do irmão (sumido há 4 anos), ao dizer a Anne que está indo buscá-lo, ela o questiona sobre o que irá dizer ao irmão a respeito de Hunter Henderson (Hunter Carson) – filho de Traves com Jane Henderson (Nastassja Kinski), também sumida há anos.
Assim que Walt encontra o médico beberrão, aquele pergunta a este onde está o irmão, porém ele é avisado que Travis fugiu da clínica médica e que deixou para trás alguns pertences, para resgatá-los o doutor Ulmer pede que antes Walt acerte a conta referente as “despesas médicas” do irmão fujão. Com a dívida sanada, Walt parte de carro em uma nova busca pelo errante sósia de defunto, o seu irmão.
O encontro entre os irmãos se dá rapidamente. Logo em seguida, ambos se hospedam em uma casa à beira da estrada, porém assim que Walt retorna do centro com as roupas e o par de calçados novos, o irmão novamente zarpou sem deixar rastro, muito menos satisfação. Ao encontrar Travis andando sobre a linha do trem, seu irmão lhe questiona aonde ele pretende ir e que não existe nada além do horizonte – momento em que a câmera de Wim Wenders mostra a longa extensão do trilho sem um destino qualquer em vista, o plano aberto também contempla um horizonte montanhoso, paisagem típica do oeste texano, cenário semelhante (porque não, inspirado) nos filmes dirigidos pelo mestre do faroeste, Sr. John Ford.
Logo se vê que o catatônico Travis encontra-se em um estado de espírito desgastado pelo tempo e espaço, talvez os erros do passado estejam agora lhe afetando o presente e refletindo no futuro tão incerto quanto o próximo passo no deserto. No retorno a Los Angeles, Travis abandona o avião devido ao medo de voar, então a viagem segue de carro, o que possibilita aos irmãos iniciarem uma conversa. O longo percurso por estradas e rodovias, possibilita, enfim, comprovar a todos que o protagonista não é mudo, pois a primeira palavra a sair da boca até então calada é “Paris”, muitas coisas além são reveladas e outras tantas são lembradas ao longo do retorno à casa do irmão.
Em Los Angeles, na residência do irmão, Travis reencontra Anne, sua cunhada, e o seu filho único, Hunter Henderson – fruto do relacionamento dele com Jane Henderson. É visível – e até desconfortável a certo ponto – a forma bem carinhosa que o novo integrante da casa é recebido por Anne, o largo sorriso no rosto acompanha uma estranha necessidade de se aproximar e tocar enquanto seu olhar profundo o escaneia a face – o cuidado dedicado a Travis beira ao trato de uma mãe com o seu filho.

A cena em que acontece o reencontro de Travis com o seu filho Hunter é um momento emocionante, Wim Wenders capta a expressão de cada personagem de maneira intimista. Inicialmente, o cumprimento entre pai e filho se dá de forma verbal, ambos se saúdam com um singelo e tímido “Oi!”, como se fossem pessoas estranhas num primeiro encontro. A troca de olhares entre eles congela por alguns segundos em cena, pois a presença repentina do pai biológico, após quatro anos sem dar satisfação, cria uma confusão de sentimentos que ao longo do filme vai sendo colocado em ordem por iniciativa de Travis.
O casal Walt e Anne possui uma maturidade consciente quanto a facilitar a aproximação de Hunter com o seu pai verdadeiro e vice-versa, mesmo com todo amor de pai e mãe que eles têm dado ao filho adotivo. Essa aproximação acontece da maneira mais natural possível e a adaptação de L. M. Kit Carson em cima do roteiro de Sam Shepard retrata esse momento entre Travis e Hunter com tamanha simplicidade e um carisma envolvente quanto às respectivas interpretações do experiente Harry Dean Stanton em companhia do debutante Hunter Carson – filho do então roteirista L. M. Kit Carson.
Wim Wenders consegue captar com veracidade os detalhes nos gestos de carinho entre pai e filho, seu enquadramento – ao relatar esses momentos de resgate dos laços familiares – eleva ainda mais a qualidade de “Paris, Texas”. O momento em que Travis decide ir embora da casa do irmão para encontrar o paradeiro da mãe de seu filho (Jane Henderson), desenha-se um horizonte de sentido à vida do homem que até pouco tempo passou anos lutando contra o seu eu errante – agora encontrar a sua mulher (e mãe de seu filho) trata-se de uma redenção pela culpa carregada como um fardo desde que sua família fora dissolvida.
Após Travis buscar Hunter na escola com o seu novo/velho Ford Ranchero 1959, os dois param na beira da rodovia e na carroceria do utilitário cupê eles lancham enquanto conversam. Assim que Travis fala ao filho que está indo procurar Jane, sua mãe, o garoto diz querer ir em companhia do pai para ajudá-lo a encontrar a mãe. Assim, eles colocam o pé na estrada rumo a Houston, cidade na qual Jane costuma ir ao banco para fazer o depósito mensal na conta criada para o filho.

O reencontro entre Travis e Jane é carregado de tensão e expectativa ao mesmo tempo que que o clímax da trama vai sendo desenvolvido por confissões de grande comoção entre os personagens, até o desfecho desolador para o homem que regressa à solidão da estrada, porém agora com a consciência mais leve, após encontrar e unir filho e mãe, mesmo sem a sua presença no que um dia pretendeu ser o início de uma família unida e feliz.
A trama narrada no filme “Paris, Texas” transcorre ao estilo road movie e se desenvolve em meio ao drama entrelaçado em temas complexos da vida humana como autoconhecimento, família e, porque não, sobre amor. Entretanto, toda essa trajetória dolorosa do personagem central é recompensada nos momentos de aproximação e reconquista do filho pelo pai, após Travis se perder dentro de si para assim mergulhar numa jornada exterior – e principalmente interior – solitária para se reencontrar e recomeçar a vida na companhia do filho, mesmo que no fim um sentimento de desolação venha desabrochar, porém agora com a consciência próxima ao estado de redenção.
É um filme para ser revisitado de tempos em tempos devido ao quanto ele pode gerar pontos de reflexão importantes para a vida do espectador, não só no lado pessoal, mas também quanto ao que tange ao núcleo familiar; principalmente no mundo contemporâneo em que você e eu vivemos neste instante, pois existem por aí muitos Travis caminhando sozinhos em busca de encontrar a si mesmo para então pôr em ordem tudo aquilo de bom que deixou abandonado pelo caminho. Acredite, tenha fé que ainda dá tempo, apesar de tudo o que passou, hoje é o que restou. Aproveite a chance e fé em Deus.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidades sobre Paris, Texas
- O filme favorito de Harry Dean Stanton em sua própria filmografia;
- Durante a cena no aeroporto do Texas, o personagem de Dean Stockwell está ao telefone com sua esposa. O locutor do sistema de som pode ser ouvido dizendo: “Uma mensagem para Joy Stockwell, Joy Stockwell. Austin chegará a qualquer minuto”. Joy era a esposa de Dean e Austin, seu filho, nasceu durante a produção deste filme;
- Travis ( Harry Dean Stanton ) não fala nada até 26 minutos de filme;
- Este é um dos filmes favoritos de Akira Kurosawa;
- Os músicos Kurt Cobain e Elliott Smith afirmaram que este era o seu filme favorito de todos os tempos;
- O compositor Ry Cooder recriou a música “Dark Was the Night”, de 1927, do guitarrista de blues Blind Willie Johnson, como peça central da trilha sonora de “Paris, Texas” (1984);
- A famosa banda escocesa Texas tirou seu nome do título deste filme, enquanto a banda escocesa Travis recebeu o nome do protagonista principal;
- O bar onde Travis desmaia no início do filme chamava-se Camel. Ele não existe mais, mas ficava na Rodovia 118, no condado de Brewster, Texas, a cinco quilômetros ao sul do “consultório médico”, que na verdade é um salão da Legião Americana. A localização exata do Camel era 29.58486, -103.55779;
- Um dos títulos provisórios do filme era “Motel Chronicles”;
- Embora se passe no sudoeste dos EUA, o filme foi uma produção alemã/francesa;
- Hunter e Travis compartilham “la vache qui rit” quando param para almoçar à beira da estrada. Essa é a expressão francesa para o queijo processado da marca Laughing Cow;
- O filme está incluído na lista “Great Movies” (Grandes Filmes) de Roger Ebert;
- Quando Walt diz que “levou uma surra” no financiamento de sua nova casa, ele estava se referindo às taxas de juros hipotecárias muito altas na época deste filme. Uma hipoteca fixa de 30 anos teria sido em torno de 13-14% naquela época;
- O homem cuja sombra é vista quando Travis entra no clube é o diretor Wim Wenders;
- O restaurante que Travis chama de casa do Walt está localizado em Cabazon, Califórnia (e não em San Bernardino, que fica a cerca de 72 km de distância). É claro que esse é o lar do famoso T-Rex e brontossauro de concreto de Claude Bell;
- Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski interpretam marido e mulher. Na vida real, Stanton é 35 anos mais velho que Kinski;
- O local onde Travis é visto pela primeira vez é 29,584411° N, 103,733924° W. Fica a cerca de 32 km a noroeste de Terlingua, Texas;
- O aeroporto visto da parte de trás da casa de Walt é o Aeroporto Hollywood Burbank, também conhecido como Aeroporto Bob Hope, em homenagem a Bob Hope. A casa foi construída em 1972 e, em 2019, estava avaliada em mais de US$ 1 milhão;
- Quando Hunter está em seu quarto, ele está jogando um Zaxxon Coleco Tabletop;
- Listado postumamente como um dos 100 filmes favoritos de Akira Kurosawa;
- O carro antigo que Travis compra é um Ford Ranchero 1959;
- Incluído entre os “1001 filmes que você precisa ver antes de morrer”, editado por Steven Schneider;
- Os três atores principais deste filme já trabalharam com o diretor David Lynch. Harry Dean Stanton atuou em “Coração Selvagem” (1990), “Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer” (1992), “Uma História Real” (1999), “Império dos Sonhos” (2006) e “Twin Peaks: the Return” (2017); Dean Stockwell atuou em “Duna” (1984) e “Veludo Azul” (1986), e Nastassja Kinski atuou em “Império dos Sonhos” (2006).
- Stanton também contracenou com Lynch no filme “Lucky” (2017). Além disso, John Lurie, que interpreta Slater neste filme, também atuou em “Coração Selvagem” (1990);
- Estreia no cinema de Hunter Carson;
- Baseado no livro “Motel Chronicles” (‘Crônicas de Motel’, publicado originalmente em 1982) de Samuel Shepard Rogers III (Sam Shepherd), vencedor de 10 prêmios Obie (Prêmios de Teatro Off-Broadway) — mais do que qualquer outro escritor/diretor;
- Este filme faz parte da “Criterion Collection”, lombada nº 501;
- A cantora e compositora Lana Del Rey tem uma música inspirada neste filme com o mesmo nome;
- O avião da Muse Air mostrado em um McDonnel-Douglas MD-82 de 1982, com matrícula N934MC. Posteriormente, foi transferido para a Continental Airlines em 1987 e rematriculado como N92874 em 1990. Foi desmantelado em 2007. A Muse Air foi comprada pela Southwest Airlines em 1985 e dissolvida em 1987;
- Um dos quatro filmes de 1984 em que a atriz Nastassja Kinski atuou e que foram lançados naquele ano. Os filmes incluem “Paris, Texas” (1984), “Os Amantes de Maria” (1984), “Infielmente Tua” (1984) e “Um Hotel Muito Louco” (1984);
- Este filme está entre os 250 melhores filmes narrativos oficiais do Letterboxd;
- Mitre Peak, perto de Alpine, Texas, é a montanha atrás de Travis quando Walt fala com ele pela primeira vez;
- O carro que Walt usa quando vai buscar Travis pela primeira vez é um Oldsmobile Cutlass Supreme 1984;
- O voo cancelado da Muse Air poderia ter sido justificado na época, já que a companhia aérea foi uma das primeiras a proibir o fumo a bordo. A proibição foi suspensa pouco antes de a Muse entrar em dificuldades, ser adquirida e, por fim, encerrar as suas atividades na mesma década;
- A banda Travis tirou seu nome do anti-herói interpretado por Harry Dean Stanton no filme “Paris, Texas”;
- O elenco principal inclui muitos atores que apareceram em vários filmes dirigidos por Francis Ford Coppola: Aurore Clément apareceu em “Apocalypse Now” (1979); Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski atuaram anteriormente em “O Fundo do Coração” (1981); e Dean Stockwell atuou em “Jardins de Pedra” (1987), “Tucker: Um Homem e Seu Sonho” (1988) e “O Homem Que Fazia Chover” (1997);
- O relançamento na Espanha ocorreu em apenas 3 cinemas: Madri (Conde Duque, Verdi) e Barcelona (Verdi). O filme foi exibido apenas 1 dia em versão legendada;
- Os créditos finais começam com “Para Lotte H. Eisner”, que se refere a Lotte Eisner (escritora, crítica de cinema, arquivista e curadora franco-alemã);
- As filmagens começaram em 1983, enquanto o roteiro ainda estava incompleto, com o objetivo de filmar na ordem da história. O escritor Sam Shepard planejava basear o resto da história em sua compreensão dos personagens e nas observações dos atores. No entanto, quando Shepard passou para outro trabalho, ele enviou ao diretor Wim Wenders notas sobre como o roteiro deveria terminar. Ele creditou a Wenders e ao co-roteirista L.M. Kit Carson a ideia de um peep show e os atos finais da história. De acordo com Dean Stockwell, seu personagem nas primeiras versões do roteiro deveria viajar com Hunter, Travis e Anne antes de Anne voltar para Los Angeles e Walt se perder no deserto, paralelamente a Travis na primeira cena;
- A primeira aparição de Nastassja Kinski acontece depois de mais de 53 minutos de filme.
Ficha técnica
Diretor: Wim Wenders.
Roteiro: L.M. Kit Carson (adaptado por), Sam Shepard (escrito por) e Walter Donohue (editor de história Channel 4).
Produtores: Anatole Dauman, Pascale Dauman, Don Guest, Chris Sievernich e Joachim von Mengershausen.
Diretor de fotografia: Robby Müller.
Editor: Peter Przygodda.
Direção de arte: Kate Altman.
Figurino: Roberta Elkins.
Cabelo e maquiagem: Karoly Balazs.
Música: Ry Cooder.
Elenco: Harry Dean Stanton, Sam Berry, Bernhard Wicki, Dean Stockwell, Aurore Clément, Claresie Mobley, Hunter Carson, Viva, Socorro Valdez, Edward Fayton, Justin Hogg, Nastassja Kinski, Tom Farrell, John Lurie, Jeni Vici, Sally Norvell, Sharon Menzel, The Mydolls e Brandy Tipton.


