Muitos que assistem ao filme “Amores Materialistas” (Materialists, 2025) podem ficar com a impressão de que se trata de uma mera história de comédia romântica, mais um típico clichê hollywoodiano. Pois bem, nada é o que parece. A roteirista e diretora Celine Song vai muito além da junção dos gêneros comédia e romance – seu roteiro explora como poucos o quanto o amor contemporâneo se faz líquido diante da mera seleção de uma matemática em que a soma planejada, ao longo prazo, se transforma em uma subtração destinada à confirmação do amor líquido – conceito criado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman.
A personagem principal do filme, a casamenteira (matchmaker) Lucy (Dakota Johnson), é uma espécie de headhunter de relacionamentos amorosos (o nome exato é matchmaker), seus clientes são constituídos tanto por homens quanto por mulheres, ambos solteiros e à procura de um par cujo perfil cumpra com os critérios preestabelecidos. Portanto, é responsabilidade dessa profissional o trabalho de encontrar o “par perfeito” e torcer para que o match entre eles se torne um casamento de papel passado.
Apesar da senioridade de Lucy em seu negócio de combinar casais conforme suas exigências (estética, financeira, social e etc.), falhas podem ocorrer e uma delas já é vista logo no início do filme, quando um homem pede que seu nome seja retirado do serviço, pois as mulheres apresentadas por Lucy pouco tinham a ver com o exigido pelo pretendente enjoado – uma dessas mulheres era também sua cliente, Sophie (Zoe Winters), que foi considerada velha e gorda pelo homem.

A reclamação também veio do lado da mulher, assim que Lucy se encontra com Sophie; a cliente reclama da idade e do quanto o candidato ganhava por ano, porém, sentia-se esperançosa para um segundo encontro. Infelizmente esse novo encontro não iria acontecer, uma vez que o candidato tinha desistido dela já no primeiro encontro. O sentimento de frustração é logo visto por entre as lágrimas de decepção da mulher. Sem tempo a perder, ela engole o choro para escutar as características do novo selecionado a pretendente e finaliza ao desabafar sobre não ter mais tempo a perder e diz não estar pedindo por um milagre, pois só quer o mínimo necessário.
Por mais que o espectador esteja diante de um filme considerado leve, há uma situação bem pesada que se passa no desenvolvimento dessa cliente rejeitada (Sophie) com o seu novo affair – cenário que acaba flertando com situações vistas no dia a dia da vida real de uma mulher que se arrisca em encontros e romances às cegas via redes sociais, se expondo a riscos contra a própria integridade física.
Ao contrário desse caminho escuro onde se escondem covardes, “Amores Materialistas” tem momentos de luz e felicidade – pelo menos é o que aparenta ser, já que a ‘aparência’ neste filme parece ter maior validade -, é o caso do casamento de uma cliente da ambiciosa Lucy. Neste momento, o espectador é apresentado ao personagem unicórnio (termo utilizado na agência de Lucy para classificar um homem rico e bonito), Harry (Pedro Pascal). Enquanto Lucy e Harry conversam, um garçom surge para servi-los, o nome dele é John (Chris Evans), um homem que luta para ser ator, enquanto sobrevive trabalhando como garçom – este é a antítese do primeiro e também está ligado ao passado dela.
É interessante notar em “Amores Materialistas” a questão explícita do quesito material se sobrepondo ao sentimental – a busca pela pessoa amada é exclusivo ao critério da troca de interesses, uma matemática perigosa, um caminho pavimentado em areia movediça com tendência a tragar e assim sufocar o relacionamento estabelecido mais como um negócio do que uma relação mútua em que se dá o amor espontâneo. Nesta trama, se faz jus ao casamento ser tratado como um mero acordo de negócios entre o casal. Infelizmente.
O encontro entre a protagonista Lucy com Harry logo sai da mesa da festa de casamento para alguns encontros e consequentemente debaixo do lençol – o casal nada mais é que a pura materialização do que vem a ser um relacionamento materialista de fato, baseado unicamente no que um tem a oferecer materialmente e esteticamente ao outro, ela confirma isso ao dizer para Harry que gosta dele por fazê-la se sentir valiosa. A ambição da casamenteira é vista na maneira espantosa com que ela analisa toda a luxuosa mansão de Harry, assim que eles entram para terminar entre quatro paredes.

Ao contracenar com o personagem interpretado por Chris Evans (John), logo se vê um clima mais leve e de maior confiança por ambas as partes, mesmo quando eles tocam em assuntos passados. Ao falarem do presente, percebe-se que a separação e o tempo não foram suficientes para fazer a química entre eles se esgotar por completo. A leitura que eles fazem um do outro somente pelo olhar já é o suficiente para identificar que algo não está certo – John comprova essa leitura da expressão corporal ao perguntar a Lucy se está tudo bem com ela.
A seriedade de Lucy ao se considerar uma pessoa crítica, fria e materialista – ao ponto de confessar o término do antigo relacionamento com ele por conta da situação financeira dele (falência) – e a revelação de John sobre sua incapacidade financeira em poder dar a ela um casamento dos seus sonhos, entre outras decepções relacionadas à questão profissional e principalmente financeira, põe em prova o que realmente importa entre eles, o amor que um sente pelo outro. No final, esse sentimento se torna também um poderoso combustível para John melhorar de vida, não somente por ele mesmo, mas principalmente por eles.
Realmente as experiências vividas por Lucy e John providenciou a oportunidade para que cada um pudesse refletir sobre o real significado do amor, principalmente pelo lado dela, uma vez que Lucy diz que ainda se utiliza da matemática ao voltar e se casar com John. Ela irá se submeter o resto da vida às limitações dele como moradia precária, restaurantes baratos e de má qualidade, andar no carro velho e ainda brigar por um mísero dinheiro se quer. Somas essas que podem ser elevadas a patamares melhores se assim o amor permanecer fiel entre o casal e sem a exclusiva intenção materialista intrínseco a ela, até então.
Celine Song encerra “Amores Materialistas” fazendo o espectador acreditar no amor de fato, no amor imaterialista. A diretora consegue transmitir em seu roteiro uma comédia gostosa de assistir e que por meio da sintonia entre os atores Dakota Johnson e Chris Evans podemos ver um romance florescer novamente, agora de dentro para fora em um íntimo capaz de reconhecer os pontos positivos e negativos inevitáveis na vida a dois. Ser amado por quem você ama é um dos sentimentos mais gostosos que o ser humano pode receber e principalmente dar. Preserve seu amor, todos os dias da sua vida.
Inté, se Deus quiser!
NOTA: 
Trailer
Pôster

Curiosidades sobre Amores Materialistas
- O nome da escritora e diretora Celine Song está listado como dramaturga da peça de John em um pôster do lado de fora do teatro, porque a peça é real e foi escrita por ela em 2016;
- As primeiras ideias para o filme começaram há cerca de 10 anos, quando a escritora e diretora Celine Song trabalhou para um serviço profissional de matchmaking (é uma pessoa responsável por tentar arranjar casamentos apresentando possíveis parceiros) por cerca de seis meses;
- Chris Evans admitiu que o apartamento miserável de John e seus colegas de quarto desagradáveis trouxeram muitas lembranças de sua época como ator em dificuldades;
- Enquanto os apartamentos de Lucy e Harry foram filmados no local, o apartamento de John foi construído em estúdio. A diretora Celine Song compartilhou fotos de um lugar onde seu marido, Justin Kuritzkes, morou anteriormente, como referência para o apartamento em ruínas;
- John Magaro, que dubla o personagem Mark P. (nunca visto nas telas), interpretou um personagem-chave, Arthur, marido de Nora, em “Vidas Passadas” (2023), também escrito e dirigido por Celine Song;
- Assim como o primeiro longa-metragem de Celine Song, “Vidas Passadas” (2023), este filme foi rodado em película de 35 mm;
- O filme foi rodado durante a época alta dos casamentos, o que limitou as opções de locações. Em vez de poder filmar a sequência do casamento num único local, a produção foi dividida por quatro locais;
- Esta é a segunda vez que a diretora e roteirista Celine Song colabora com a produtora Killer Films e a distribuidora A24; ambas também estiveram envolvidas no primeiro longa de Song, “Vidas Passadas” (2023);
- A mesa de maquiagem onde Lucy se senta no início pertenceu a Norman Rockwell, de acordo com a decoradora de cenários Amy Beth Silver;
- A cirurgia de alongamento de pernas discutida neste filme é real, embora muito menos comum do que a rinoplastia ou o aumento da mama. O custo de US$ 200.000 declarado no filme também está geralmente correto;
- Durante os créditos finais, um cartório de registro de casamento é mostrado com vários casais aguardando sua vez. Se você olhar com atenção, Lucy e John podem ser vistos sentados em um banco, aguardando serem chamados. Mais tarde, o homem e a mulher das cavernas também são mostrados recebendo suas certidões de casamento.
Ficha técnica
Diretor: Celine Song.
Roteiro: Celine Song.
Produtores: Timo Argillander, Len Blavatnik, Danny Cohen, Jorge Hernandez, David Hinojosa, Ben Kahn, Pamela Koffler, Sandra Paredes, Andrea Scarso, Taylor Shung, Celine Song, Christine Vachon e Cristina Velasco.
Diretor de fotografia: Shabier Kirchner.
Editor: Keith Fraase.
Design de produção: Anthony Gasparro.
Figurino: Katina Danabassis.
Cabelo e maquiagem: Mandy Bisesti, Kathleen Brown, Jessica Butanowicz, Jon Carter, Michelle Ceglia, Judy Chin, Jen Delica, Enrique Estrada Mejia, Yiye Gómez, Courtney Jarrell, Jennifer Lord, Melisa Martínez, Donyale McRae, Roberto Ortíz, Cinthya Romero, Emma Strachman, Courtney Ullrich, Tony Ward e Daria Y Wright.
Música: Daniel Pemberton.
Elenco: Dakota Johnson, Chris Evans, Pedro Pascal, Zoe Winters, Marin Ireland, Dasha Nekrasova, Emmy Wheeler, Louisa Jacobson, Eddie Cahill, Sawyer Spielberg, Joseph Lee, John Magaro, Nedra Marie Taylor, Sietzka Rose, Halley Feiffer, Madeline Wise, Ian Stuart, Dan Domenech, Emiliano Díez, Rachel Zeiger-Haag, Alison Bartlett, Lindsey Broad, Baby Rose; Fernando Belo, Will Fitz Erin Hill, Tom Johnson, Beshoy Mehany e Swanmy Sampaio.


